A escritora Ana Maria Machado conseguiu produzir um daqueles raros momentos em que uma frase aparentemente simples abre uma discussão muito maior do que ela própria. Ao afirmar, durante a Feira do Livro em São Paulo, que a literatura contemporânea anda excessivamente preocupada em ensinar, a autora tocou num nervo exposto da produção literária atual. Como costuma acontecer quando alguém mexe em assuntos sensíveis, as reações vieram rapidamente. Houve quem concordasse de imediato, houve quem interpretasse a fala como uma crítica à literatura engajada, houve quem visse nela um saudosismo disfarçado e houve, claro, quem transformasse tudo numa disputa que provavelmente não interessava à própria Ana Maria Machado.
Porque, convenhamos, a questão não parece ser se a literatura deve ou não falar sobre política, raça, gênero, desigualdade, violência ou memória. Essa discussão me parece resolvida há muito tempo (ou pelo menos deveria estar), afinal, se existe algo que a história da literatura nos ensina é que os grandes livros sempre dialogaram com seu tempo. Machado de Assis não estava escrevendo apenas sobre ciúme quando escreveu “Dom Casmurro”. Graciliano Ramos não estava apenas contando uma história de retirantes em “Vidas Secas”. Toni Morrison não escreveu “Amada” apenas para narrar a trajetória de uma mulher. Conceição Evaristo não fala apenas de indivíduos em suas narrativas. A literatura sempre foi uma forma de pensar o mundo.
Mas, existe uma diferença importante entre pensar o mundo e explicar o mundo e talvez seja justamente aí que mora a provocação de Ana Maria Machado. Tenho a impressão de que uma parte da literatura contemporânea passou a desconfiar profundamente dos leitores, como se interpretar fosse uma atividade perigosa demais para ser deixada sem supervisão, como se toda metáfora precisasse vir acompanhada de legenda e toda narrativa precisasse garantir que sua mensagem chegasse intacta ao destino.
Não estou falando de obras mal escritas, nem de livros sem relevância social. Ao contrário! Alguns dos romances mais celebrados dos últimos anos discutem temas urgentes e necessários, mas o problema surge quando a narrativa passa a existir apenas para sustentar uma tese ou quando o personagem deixa de ser personagem para se tornar argumento. É uma sensação curiosa que tenho experimentado com frequência como leitora, pois em determinados livros, percebo rapidamente qual é a pergunta central da obra (inclusive, eu não suporto a pergunta clássica que muitos leitores fazem: “esse livro fala sobre o quê?”).
Vivemos uma época obcecada por utilidade, em que tudo precisa servir para alguma coisa. Até o lazer precisa gerar produtividade, o hobby precisa gerar renda e a viagem precisa gerar conteúdo. Obviamente, muitas pessoas acabam pensando que a leitura precisa gerar aprendizado. Pergunte a alguém por que determinado livro é bom e frequentemente a resposta virá acompanhada de uma lição: ele ensina sobre racismo, ensina sobre maternidade, ensina sobre masculinidade, ensina sobre relações de trabalho, ensina sobre saúde mental, ensina sobre o mercado financeiro, ensina sobre comportamento…etc etc. Estamos cada vez mais interessados no que um livro ensina e cada vez menos interessados no que ele provoca.
Quando leio “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves, aprendo enormemente sobre o Brasil, a escravidão, a diáspora africana e a formação da sociedade brasileira. Mas o romance não existe para me ensinar essas coisas. Ele existe porque Kehinde é uma personagem extraordinária, porque a narrativa é poderosa, porque a linguagem é envolvente e porque a experiência literária vem antes da lição. O aprendizado é consequência, não objetivo. A mesma coisa acontece com “Torto Arado”, quando o livro nos faz pensar sobre terra, desigualdade, ancestralidade e exploração do trabalho. Mas nunca temos a sensação de estar diante de uma cartilha agrária de 260 páginas. Estamos diante de literatura.
A literatura opera justamente no território da ambiguidade (que vive tempos difíceis). As redes sociais nos acostumaram a uma lógica de posicionamento permanente, em que tudo precisa ser imediatamente classificável em certo ou errado. A literatura, felizmente, costuma funcionar pior quando aceita essas simplificações (deve ser por isso personagens contraditórios tenham se tornado tão valiosos). Pensemos em Capitu, meu povo! Mais de um século depois, ainda discutimos se traiu ou não traiu Bentinho – Machado de Assis foi brilhante ao não explicar. São personagens que sobrevivem justamente porque não cabem numa única interpretação.
A literatura que mais permanece costuma ser justamente aquela que nos deixa um pouco desconfortáveis. Aquela que nos obriga a conviver com perguntas para as quais não temos resposta imediata, que nos faz fechar o livro sem saber exatamente o que pensar – curiosamente, esse é um efeito que a educação tradicional costuma considerar um fracasso, mas a arte considera uma vitória. Há excelentes livros contemporâneos abordando temas urgentes sem cair no panfleto e há autores produzindo obras profundamente políticas e, ao mesmo tempo, literariamente sofisticadas.
A questão não é a pauta e sim o que acontece quando a pauta engole a literatura, quando o desejo de transmitir uma mensagem se torna maior do que o desejo de construir uma experiência estética ou quando o autor deixa de confiar no leitor. É isso que torna a fala de Ana Maria Machado tão interessante: ela não está defendendo uma literatura alienada, mas uma literatura que confia na inteligência de quem lê.
Assim como ela, eu penso que a crítica é uma defesa para uma literatura que compreende que leitores não precisam ser conduzidos pela mão a cada capítulo. A boa literatura nunca teve medo da inteligência alheia. E, honestamente, isso me parece cada vez mais revolucionário. Num tempo em que tudo vem acompanhado de tutorial, legenda explicativa, fio interpretativo, vídeo-resumo, lista de aprendizados e três especialistas comentando o que deveríamos pensar sobre aquilo que acabamos de consumir, talvez a verdadeira ousadia esteja justamente em escrever um livro que não queira nos ensinar nada.
Sei que é uma proposta radical. Mas talvez ainda existam leitores dispostos a correr esse risco. Afinal, se eu quisesse passar trezentas páginas ouvindo alguém me explicar o mundo, teria aberto uma rede social, ou participado de uma reunião de trabalho.