Toda vez que alguém me pergunta se vale a pena ler “Um Defeito de Cor”, eu percebo que existe um pequeno problema na pergunta. Ela parte da ideia de que estamos falando de um livro como outro qualquer, desses que passam alguns dias sobre a mesa de cabeceira e depois seguem seu destino natural na estante. Só que “Um Defeito de Cor” nunca foi esse tipo de leitura. Ana Maria Gonçalves publicou o romance em 2006 e, curiosamente, o tempo parece incapaz de transformá-lo em passado. “Um Defeito de Cor” continua encontrando novos leitores com uma facilidade quase desconcertante, como se tivesse entendido, antes de nós, que algumas histórias não pertencem ao ano em que foram escritas, mas ao país que ainda está tentando compreendê-las.
Confesso que sempre desconfio quando alguém recomenda uma obra dizendo que ela é “necessária”. A palavra costuma funcionar mais como ameaça do que como convite. Livros necessários parecem carregar uma obrigação moral, como se estivéssemos prestes a cumprir uma tarefa cívica. Com “Um Defeito de Cor” muitas pessoas chegam movidas por essa sensação de dever (“preciso ler esse clássico”) e permanecem por uma razão completamente diferente. Em algum momento da leitura, deixamos de acompanhar apenas a história de Kehinde e passam a caminhar ao lado dela.
Ana Maria Gonçalves apresenta uma menina, um gesto revolucionário. Uma decisão narrativa que parece simples, mas altera completamente a maneira como compreendemos tudo o que virá depois. Em todo a nossa trajetória de aprendizado sobre a nossa História, somos apresentados a personagens negros apenas quando a violência já havia começado. Era como se a escravidão fosse o ponto de partida de suas existências, e se antes do navio negreiro houvesse apenas um grande vazio histórico. Kehinde é a personagem que quebra essa lógica logo nas primeiras páginas. Ela nasce em Daomé, cresce cercada por afetos, aprende uma língua, participa de rituais, constrói amizades, reconhece cheiros, paisagens e pertencimentos. Ela possui uma infância e quando a escravidão chega, ela representa a destruição brutal de um mundo que nós, leitores, tivemos tempo de conhecer e amar.
A primeira grande transformação provocada pelo romance é que ele nos obriga a perceber que a diáspora africana não é apenas uma história de deslocamento físico. É também uma história de interrupção de famílias, idiomas, sistemas políticos e projetos de futuros. Há uma tendência de resumir a escravidão ao trabalho forçado, quando a maior violência tenha sido a tentativa sistemática de romper continuidades. Kehinde passa o romance inteiro tentando costurá-las novamente. É por isso que sempre me parece insuficiente dizer que “Um Defeito de Cor” é um romance sobre escravidão. Na minha opinião é, um romance sobre permanência, sobre aquilo que resiste, como a religião, a língua, a memória, a maternidade, os afetos, até o desejo de prosperar. Kehinde trabalha, negocia, empreende, ama, erra, perde, recomeça, atravessa oceanos e insiste em existir num mundo que continuamente tenta reduzi-la à condição de mercadoria. Ou seja, ela não é construída apenas como vítima – uma escolha literária sofisticada de Ana Maria Gonçalves. Kehinde sofre (e muito!), mas também ri, deseja, negocia, calcula, educa filhos, faz amigos, constrói patrimônio, toma decisões equivocadas, vive contradições e acumula pequenas vaidades. Em outras palavras, ela vive. Parece estranho precisar dizer isso, mas durante muito tempo a literatura brasileira negou às personagens negras o direito de serem complexas.
Outro ponto importante sobre esse livro, é que existe uma tendência muito contemporânea de afirmar que “Um Defeito de Cor” ensina sobre o Brasil. Acho que essa frase, embora bem-intencionada, reduz um pouco a experiência da leitura. Não espere uma aula de História, mas ela reorganiza nossa percepção da nossa História. Depois de acompanhar Kehinde, torna-se muito difícil continuar olhando para o Brasil da mesma maneira. Como soteropolitana, essa sensação foi quase física. Percebi que Salvador deixava de ser apenas a cidade onde moro para se transformar num local com outras camadas de tempo. Os locais perderam a neutralidade estética que costumamos atribuir ao patrimônio histórico. O meu olhar mudou…mudou muito!
É por isso que nunca consegui tratar “Um Defeito de Cor” como um romance histórico. Para mim, essa classificação parece aprisionar o livro ao passado, quando sua força está justamente em permanecer dialogando com o presente. As discussões sobre identidade, ancestralidade, racismo, pertencimento, maternidade, religião e memória continuam nos atravessando porque o Brasil ainda não resolveu nenhuma delas completamente. O romance permanece vivo porque o país que ele descreve, infelizmente, também permanece. Poucos livros brasileiros fazem isso com tanta potência quanto “Um Defeito de Cor”. O romance parece sempre alguns passos à frente da maneira como contamos nossa própria história. Enquanto insistimos em tratar a escravidão como um capítulo encerrado, Ana Maria Gonçalves nos lembra que seus efeitos continuam organizando o presente, ela revela que essa identidade nasceu da diáspora, da violência, da resistência e da extraordinária capacidade de reconstrução de pessoas como Kehinde.
A experiência de leitura muda muito, também, a depender do modo como ela acontece. Tenho certeza de que este é um dos livros brasileiros que mais ganham potência quando lidos coletivamente. A história de Kehinde pede conversa! Ao longo da leitura, percebi que muitas das perguntas que o romance provoca não encontram resposta individual, elas amadurecem quando passam pela experiência do outro. Em um clube de leitura, uma mesma cena desperta lembranças completamente diferentes, uma personagem desperta indignação em alguém e acolhimento em outra pessoa, um detalhe histórico que passou despercebido para um leitor transforma toda a compreensão de outro. Poucas experiências literárias me emocionaram tanto quanto ver pessoas interrompendo a própria análise para dizer: “eu nunca tinha pensado por esse lado”. “Um Defeito de Cor” não é um livro que apenas se lê e algumas travessias ficam menos solitárias quando descobrimos que há outras pessoas caminhando ao nosso lado.
Depois de tantos meses lendo Kehinde em grupo, eu tenha a impressão de que ninguém termina esse romance exatamente no mesmo lugar onde começou. A história é a mesma para todos. A travessia, nunca.