A Copa do Mundo costuma produzir heróis improváveis e, vez ou outra, surge um personagem tão fascinante que consegue unir futebol, televisão, geopolítica, memória afetiva e cultura popular numa única entrevista. Foi exatamente o que aconteceu nesta semana com Josimar José Évora Dias, o goleiro cabo-verdiano mais conhecido pelo apelido de Vozinha. Depois de chamar atenção por sua atuação em campo, ele virou assunto nas redes brasileiras ao revelar que cresceu assistindo novelas do Brasil e que suas favoritas eram Xica da Silva, Malhação e O Rei do Gado.
Confesso que achei a notícia maravilhosa.
Não apenas porque adoro quando o mundo nos devolve uma imagem do Brasil diferente daquela que costumamos enxergar de nós mesmos, mas porque ela escancara uma verdade que seguimos fingindo não perceber, que é sobre a telenovela ser o produto cultural brasileiro mais bem-sucedido da história – e ainda assim continua sendo tratada por uma parcela da elite cultural como aquela tia que dança demais nos casamentos. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, um goleiro de 40 anos, chega à Copa do Mundo carregando na memória personagens criados por Benedito Ruy Barbosa, Walcyr Carrasco e tantos outros autores brasileiros. Não é pouca coisa.
Aliás, talvez o Brasil seja um dos poucos países do mundo capaz de exportar dramaturgia de forma tão consistente e por tanto tempo. Os Estados Unidos exportam séries, a Coreia do Sul exporta doramas, a Turquia e o México também exportam telenovelas. Mas a novela como nós conhecemos hoje — diária, longa, nacionalmente mobilizadora, capaz de misturar política, romance, humor, crítica social, merchandising e discussão pública no mesmo capítulo — é uma invenção que o Brasil ajudou a aperfeiçoar como poucos. E o curioso é que essa potência costuma ser mais reconhecida fora do que dentro do país.
Em Angola, por exemplo, existiu uma das homenagens mais extraordinárias que uma obra de ficção já recebeu. Durante décadas, o maior mercado popular do país se chamou Mercado Roque Santeiro, numa referência direta à novela de Dias Gomes. O local tornou-se uma instituição econômica e cultural de Luanda, sendo reconhecido como o maior mercado a céu aberto da África.
Quando morei em Angola, por 8 meses no ano de 2008, percebi que eles conheciam mais de telenovela que nós. Vi o quanto eles conheciam da cultura brasileira através das histórias que eles acompanhavam na TV, exibidas com 1 dia de atraso (ainda bem que não tinha redes sociais como hoje para dar spoiler dos capítulos finais). Voltando ao Mercado Roque Santeiro (que infelizmente deixou de existir), pensemos um instante sobre isso: estamos falando de um mercado real, com vendedores reais, clientes reais, milhares de trabalhadores reais e batizado com o nome de uma novela brasileira. Imagine explicar isso para alguém que ainda usa a expressão “é só uma novela”?
Aqui na Bahia, em Feira de Santana, existe um bairro inteiro cuja geografia foi organizada a partir da memória afetiva da televisão. O bairro Gabriela possui ruas chamadas Rei do Gado, Torre de Babel, Corpo Dourado, Vale Tudo, Laços de Família, Zazá, Salve Jorge e Flor do Caribe. Tudo começou porque os moradores decidiram homenagear a novela inspirada na obra de Jorge Amado e, a partir daí, seguiram batizando as ruas com títulos de outras tramas que marcaram suas vidas. Essas ruas são provas que as novelas não ficam apenas na tela. Quem nunca localizou uma fase da vida por uma novela? Quem nunca disse que estava no ensino médio na época de Avenida Brasil ou que assistia Vale Tudo com a avó? Quem nunca aprendeu alguma expressão, conheceu uma região do país ou descobriu uma música através de uma novela
Durante décadas, elas foram uma espécie de praça pública nacional, o lugar onde o Brasil se encontrava todas as noites. A novela é popular e acho que seja esse o motivo que incomode alguns setores que torcem o nariz para o gênero. Espia: quando um romance vende cem mil exemplares, ele vira fenômeno literário; quando uma série alcança milhões de espectadores, ela vira objeto de estudo; quando uma novela para o país, ela continua como entretenimento menor. A novela carregue um pecado imperdoável para certos círculos, pois ela não exige credenciais para ser apreciada. Ninguém precisa ler um ensaio de teoria cultural antes de assistir Quem Ama Cuida, ou seja, a novela democratiza repertório.
O caso de Vozinha é fascinante porque quebra essa hierarquia cultural de maneira involuntária. Estamos falando de um homem nascido em Cabo Verde, país africano de língua portuguesa, que cresceu consumindo cultura brasileira através da televisão. Um noveleiro, sim, no gênero masculino. Apesar de décadas de piadas preguiçosas e de um imaginário que insiste em classificar novela como “coisa de mulher”, os números contam uma história bem diferente. Há anos pesquisas de audiência mostram que os homens estão longe de ser visitantes ocasionais desse universo. Em alguns períodos, a novela chegou a superar o futebol entre os gêneros mais consumidos pelo público masculino na televisão aberta. Sim, o país que se autoproclama pátria de chuteiras frequentemente dedica mais tempo aos desencontros amorosos de uma protagonista do que aos esquemas táticos do seu time do coração. Quando o remake de Pantanal foi exibido, tornou-se a novela mais assistida por homens em uma década, a ponto de a própria emissora precisar desmistificar a ideia de que folhetins seriam um produto exclusivamente feminino. Em alguns momentos, a audiência masculina chegou a ultrapassar a feminina. Creiam! Tudo verdade.
A novela oferece muito mais do que romances impossíveis e casamentos interrompidos na porta da igreja. Ela fala de poder, dinheiro, disputa por terra, ambição, política, religião, família, vingança, futebol, coronelismo, ascensão social e identidade nacional. Em outras palavras, fala do Brasil. Acho que existe uma espécie de pacto silencioso em torno das telenovelas, em que quase ninguém admite com entusiasmo. Poucos se apresentam em público como noveleiros militantes, inclusive temos aqueles que mesmo assistindo religiosamente todos os capítulos, ainda faça questão de dizer que “não acompanha muito”. Outros sabem o nome de cada personagem, antecipam reviravoltas, comentam finais e identificam trilhas sonoras, mas continuam sustentando a ficção de que só passaram pela sala enquanto a televisão estava ligada. A novela brasileira talvez seja o único produto cultural do país consumido com tanta paixão e tanta negação, simultaneamente.
A capacidade de atravessar oceanos sem pedir licença, de construir pontes sem precisar anunciar que está construindo, de criar familiaridade entre pessoas que nunca se encontraram…tudo isso por conta de umas histórias ficcionais exibidas depois do telejornal. Enquanto parte do Brasil ainda debate se a telenovela merece ser levada a sério, um goleiro cabo-verdiano chamado Vozinha já resolveu a questão. Ele aprendeu a gostar da música brasileira, aproximou-se da cultura brasileira e acabou conquistando milhões de brasileiros justamente por causa dessa identificação. Olha aí outra prova de que a novela nunca foi apenas uma novela!
Mas, claro, ninguém gosta de novela.
Só o Brasil inteiro e uma parte considerável do resto do mundo.