Tenho certeza de que, se Pornopopéia, livro de Reinaldo Moraes, fosse lançado hoje, metade da internet não passaria da página cinquenta. Zeca, seu narrador, seria transformado em trend topic antes mesmo de chegar ao segundo porre. Seus comentários sobre mulheres renderiam dezenas de prints, haveria vídeos indignados no TikTok, notas de repúdio, pedidos de boicote e alguém, inevitavelmente, perguntaria como uma editora teve coragem de publicar “um personagem desses”. O problema é que essa indignação provavelmente impediria muita gente de perceber que uma das maiores qualidades do romance de Reinaldo Moraes é que ele nunca pediu que gostássemos de Zeca, mas que tivéssemos coragem de acompanhá-lo.
Publicado em 2009, o romance chega num momento em que a literatura brasileira parecia cada vez mais preocupada em produzir protagonistas reconhecíveis, emocionalmente identificáveis ou, no mínimo, capazes de despertar alguma simpatia. Reinaldo Moraes entregou ao leitor um narrador bêbado, arrogante, narcisista, machista, drogado, sexualmente compulsivo, moralmente duvidoso e completamente apaixonado pela própria voz. Em qualquer oficina de escrita criativa de hoje, alguém certamente sugeriria que ele fosse “humanizado”. O problema é que Zeca já é profundamente humano…ele só não é agradável.
Resumir Pornopopéia talvez seja tão eficiente quanto pedir a Zeca que termine uma tarefa sem interrompê-la com uma digressão. Mas, se for preciso tentar, acompanhamos um cineasta paulistano, aos quarenta e dois anos, que sonhava fazer cinema e acabou sobrevivendo de vídeos institucionais, publicidade e filmes pornôs. Diante da obrigação de escrever um roteiro corporativo para uma empresa de embutidos de frango, ele procrastina e é dessa incapacidade de trabalhar que nasce o romance. Enquanto deveria cumprir um prazo, Zeca se perde num fluxo ininterrupto de lembranças, drogas, sexo, humor e desastres, transformando uma simples fuga da responsabilidade numa das vozes narrativas mais exuberantes da literatura brasileira.
Uma das maiores armadilhas de Pornopopéia é acreditar que se trata de um romance sobre sexo, drogas e palavrões, já que o título sugere isso. Reinaldo Moraes não está interessado em narrar a libertinagem de um homem, mas em construir o retrato de uma subjetividade contemporânea sobre alguém brilhante, culto, criativo e espirituoso, entretanto completamente incapaz de estabelecer vínculos éticos com o mundo. A verdadeira protagonista do romance é a própria linguagem. Trocadilhos, neologismos, poemas, referências eruditas e populares, oralidade, publicidade, cinema e letras de música convivem numa escrita que nunca para de inventar. Acompanhamos as interrupções, as mudanças de assunto, os esquecimentos e as associações livres da mente de Zeca em tempo real. Essa voz é tão sedutora que nos faz permanecer ao lado de um narrador mentiroso, egoísta, machista, manipulador e profundamente pouco confiável. Rimos dele inúmeras vezes e, logo depois, percebemos que acabamos de rir de algo violento.
Darei um alerta, para você que está lendo esse texto. Se você procura uma literatura que oferece personagens exemplares ou, pelo menos, personagens comprometidos com algum tipo de evolução moral, digo para passar longe desse livro. Se você gosta de histórias em que personagens aprendem, reconheçem seus erros, pedem desculpas, revisam seus privilégios, fazem terapia e encerram a história ligeiramente melhores do que começaram. Fuja! Reinaldo Moraes ri dessa expectativa, afinal Zeca não quer melhorar, não quer ser compreendido, muito menos perdoado. Ele simplesmente fala sem filtros, sem vergonha e sem qualquer preocupação em parecer uma boa pessoa. O efeito disso é curioso, pois quanto mais ele tenta convencer o leitor de sua inteligência, de seu charme e de sua superioridade, mais revela suas fragilidades, suas inseguranças e seu monumental ridículo. Reinaldo Moraes recusa qualquer julgamento moral, não oferece redenção (nem castigo) e encerra a narrativa sem ensinar uma lição.
Por isso sempre me incomoda quando alguém resume Pornopopéia como “um livro machista”. Zeca é machista, o romance não. Parece uma diferença pequena, mas ela separa a literatura de um panfleto. Em sua recente participação na A Feira do Livro, evento promovido pela Quatro Cinco Um, Reinaldo de Moraes disse: “A literatura tem suas próprias metas, ela quer atingir coisas que estão dentro do universo estético. Não se pode esperar que a literatura seja um arauto de causas identitárias”. Nos últimos anos, consolidou-se uma curiosa tendência de confundir personagem com autor, opinião narrada com opinião defendida e representação com concordância. É um movimento compreensível num ambiente em que quase tudo passa por disputas morais permanentes, mas profundamente empobrecedor quando se trata de literatura. Se todo personagem precisar representar a posição ética do escritor, condenaremos a ficção a uma espécie de condomínio moral onde ninguém pode fazer muito barulho.
Mas há uma camada que hoje me interessa ainda mais do que quando li Pornopopéiapela primeira vez: a masculinidade. Em 2009, discutíamos pouco o assunto. A palavra “antimachismo” ainda circulava em espaços muito específicos, os debates sobre masculinidades eram restritos e o vocabulário da desconstrução masculina ainda não ocupava o centro da conversa pública. Hoje, felizmente, o cenário é outro. Falamos sobre violências, objetificação, privilégio masculino, masculinidade tóxica e responsabilização dos homens com uma frequência impensável quinze anos atrás. É tentador classificar Zeca como “machista”, “canalha”, “hedonista” ou “libertário” (ele certamente apresenta traços tudo isso). Mas o que está em jogo não é apenas uma crítica aos comportamentos masculinos, mas à própria cultura que ensina homens a existir através da potência e do desempenho. Zeca quase nunca demonstra fragilidade porque aprendeu que fragilidade compromete sua identidade. Seu corpo, seu desejo, sua inteligência, seu humor precisam funcionar. O fracasso, quando aparece, é imediatamente convertido em sarcasmo.
Ele representa um tipo de masculinidade que, embora hoje seja muito mais questionada, continua absolutamente reconhecível. O homem que mede seu valor pela quantidade de mulheres que conquista, que transforma inteligência em instrumento de sedução, que performa liberdade enquanto foge sistematicamente de qualquer responsabilidade emocional, que confunde cinismo com lucidez e que acredita exercer controle absoluto sobre a própria vida quando, na verdade, mal consegue administrar seus próprios impulsos. Conhecemos esse homem e hoje, em 2026, ele não fale mais exatamente da mesma maneira. Deve ter aprendido algumas palavras novas, frequente rodas de conversa sobre masculinidade, publique um ou outro texto no Dia Internacional da Mulher e até use a expressão “desconstrução” em alguma mesa de bar. Mas, ele continua existindo.
Reinaldo Moraes não constrói Zeca como um modelo de masculinidade, mas como um fracasso dela. Seu protagonista acredita ocupar o centro de todas as histórias, mas vive permanentemente à deriva. Acredita manipular as pessoas quando é continuamente manipulado pelos próprios desejos, julga dominar o mundo feminino enquanto revela uma dependência quase infantil da validação das mulheres. Seu discurso de liberdade absoluta esconde um sujeito profundamente incapaz de estabelecer vínculos consistentes. No fundo, Zeca é menos poderoso do que imagina e infinitamente mais patético do que gostaria de admitir.
Num momento em que boa parte da ficção parece preocupada em ensinar o leitor como pensar sobre masculinidade, o romance consegue produzir uma reflexão muito mais potente simplesmente deixando Zeca falar, até que sua própria voz revele aquilo que ele jamais conseguiria confessar. Temos um anti-herói que não oferece identificação, mas muito desconforto. Zeca ilumina experiências humanas com uma sinceridade brutal, inconveniente e, em muitos momentos, hilária.
Definitivamente, a literatura não foi feita para produzir cidadãos exemplares.
Foi feita para produzir boas histórias e, às vezes, elas são contadas pelas piores pessoas.
Zeca, certamente, seria cancelado hoje.