Enquanto boa parte dos leitores acompanha com expectativa a chegada de “Guanxuma”, novo romance de Eliane Marques, com lançamento previsto par esse anopela Autêntica Contemporânea, talvez valha a pena fazer aquilo que talvez seja um dos melhores prazeres da literatura, que é voltar alguns passos para entender de onde vem a voz que está prestes a nos conduzir para outro lugar. Antes de mergulhar em um livro novo, gosto de visitar os caminhos que levaram um autor até ele.
No caso de Eliane Marques, esse caminho passa inevitavelmente por “Louças de Família”, romance publicado em 2023. Confesso que poucas obras me deixaram com a sensação de estar diante de uma autora tão comprometida em desafiar as formas tradicionais de narrar uma história. Em tempos de um o mercado editorial que valoriza narrativas rápidas, facilmente classificáveis e prontas para serem resumidas como se fosse uma postagem de rede social, Eliane segue a direção oposta. Seus livros exigem disposição para entrar em territórios onde nem sempre encontraremos respostas organizadas. Mas, a recompensa é enorme!
Digo isso porque “Louças de Família” não é um romance que se oferece facilmente ao leitor, com uma estrutura confortável de uma trama linear, personagens conduzidos por grandes acontecimentos ou reviravoltas pensadas para nos manter virando páginas em busca do próximo capítulo. Eliane parece muito mais interessada em investigar do que em contar. Seu romance é quase como uma escavação arqueológica realizada dentro de uma família, onde cada memória ajuda a revelar camadas sucessivas de uma herança que atravessa gerações.
Tudo começa com a morte de tia Eluma. O que resta são contas de velório, dívidas parceladas e a precariedade final. A partir daí, Cuandu, a narradora, revisita a vida da tia como doméstica da mid-century, citando as louças da casa, especialmente o “serviço dos pavões”, como um eixo simbólico. A crítica parte da metáfora direta: a casa branca se mantém porque alguém a lustra, a empana, a conserva, sedo, portanto, a Tia Eluma responsável por manter intacta essa estrutura. O trabalho doméstico aparece como manutenção da hierarquia racial, no qual se repete o desgaste e a disciplina.
“Sobrou isto de sua morte. As contas impagas. Luzágua blusas calças saias camisetas jesus também te ama compradas a prazo de uma irmã da igreja, tão pobre quanto convicta da superioridade carola. Coisas pequenas tão enormes para aquelas que as suportam, para as que encaram com o dever de pagar, de manter limpo seu retrato. Conta de celular? Não sei, acho que não usava.”
Na segunda parte, o romance mergulha na linhagem, transcorrendo sobre o que ocorre com as mulheres da família que são deslocadas para o serviço, para a casa branca. A genealogia materna (Anastácia, Anagilda, Eluma, Alesọ) organiza-se em torno do trabalho doméstico, da cozinha, da lavagem, da conservação. A linhagem paterna está inserida na economia regional da carne: Nube trabalha na picada do charqueamento; tuba sai do frigorífico ensopado de sangue; Shatta é alugada para limpar as casas ligadas ao frigorífico. A palavra “alugada” traduz a ideia do corpo negro que gera renda mediada por terceiros, como se a estrutura colonial reaparece sob forma pós-escravista.
A terceira parte concentra-se no corpo de Cuandu, no qual ela revisita episódios de humilhação, deslocamento e inadequação, sendo o ponto de tensão da genealogia. Desde as primeiras páginas, sua posição é ambígua, pois ao mesmo tempo em que ela sente ausência (não esteve nos últimos dias de Eluma, nem Eluma esteve nos seus), é ela quem recolhe as contas, quem organiza o inventário da herança. Sua relação com a herança colonial também passa pelo confronto com a religião, ao observar a conversão de Eluma à “igreja dos comensais da mesa de deus”. Ela não aceita a narrativa da purificação total e vê na igreja a reencenação de uma nova autoridade, uma segunda submissão.
Cuandu fala de seus pés queimados, dos pés chatos da mãe, dos sapatos que não se encaixam. A história da bisavó que comprou sapatos após a abolição e não conseguiu usá-los. Cuandu reconhece, dessa maneira, que pisa num terreno onde o chão nunca é neutro, em que seus pés carregam o inchaço de tornozelos acorrentados. Com isso, ela não aceita que o pó continue sendo varrido para debaixo do tapete da casa branca.
As personagens femininas que compõem essa linhagem são carregadas por uma mesma corrente subterrânea. Há cozinheiras, empregadas domésticas, cuidadoras, mulheres que servem e sustentam estruturas que raramente lhes pertencem. Não estamos diante de uma sucessão de destinos individuais, mas de um sistema que se reproduz geração após geração, mudando de roupa sem necessariamente mudar de lógica. Mas, ao invés de de construir um discurso sociológico ou transformar suas personagens em exemplos de uma tese, Eliane escolhe fazer literatura – aquela capaz de produzir pensamento através da linguagem.
A língua de Louças de Família é uma experiência à parte. Ao fundir palavras (“minhanalista”, “minhancestra”, “expaimeu”) dissolve fronteiras entre sujeito e herança, com uma forma de insubordinação. E falando em linguagem, Eliane escreve uma obra profundamente fronteiriça, não apenas porque se situa no extremo sul do Brasil, mas porque faz da fronteira um princípio de memória e de estrutura social.
O romance trabalha a experiência negra no sul do país, uma experiência muitas vezes invisibilizada na literatura nacional, que costuma concentrar suas narrativas negras em outros espaços urbanos. É bonito ao trazer os nomes dos locais de forma quase enigmática, que acentua a geografia desses locais. Nomes como “país do rio dos pássaros pintados” (Uruguai), “cidade com nome de general” (Rivera/Uruguai), “cidade com nome de ana/santa” (Sant’Ana do Livramento/RS), “cidade com nome do crucificado” (Santa Cruz do Sul/RS), “cidade de açúcar” (Pelotas/RS) e “país das maravilhas” (Brasil), aparecem ironias de um passado que não respeitou o legado da diáspora africana.
Um dos pontos que chamam a atenção na escrita é a forma como a autora coloca os nomes masculinos com inicial minúscula, como “tuba”, mesmo a norma culta do português reservando a maiúscula aos nomes próprios. Entretanto, ao retirar essa marca gráfica, a narradora diminui simbolicamente o poder masculino, um rebaixamento deliberado (a autoridade patriarcal, que historicamente organizou a família, a religião e o Estado, é esvaziada também na gramática).
Enquanto isso, os nomes femininos (Anastácia, Anagilda, Alesọ, Eluma, Shatta, Redugéria, Nube) aparecem com densidade sonora e histórica, reforçando a importância dos nomes que sustentam linhagem, corpo e memória. Ainda sobre a linguagem, ou melhor, estilo linguístico, Eliane traz um texto recheado de misturas de idiomas. Temos o português popular e erudito, termos de origem africana, espanhol da fronteira, referências bíblicas, nomes científicos em latim, mitologia grega etc. Num país que construiu sua identidade sobre a ideia de pureza (racial e cultural), a linguagem do romance recusa qualquer purificação.
Em “Louças de Família”, a herança colonial é a estrutura que organiza o presente. Não há (aliás, espero que não haja nunca) uma tentativa de romantizar a narrativa confortável segundo a qual a abolição teria encerrado a lógica escravista. O que se revela é que a escravidão não desaparece. A hierarquia racial continua operando sob a aparência da intimidade doméstica, da caridade patronal e do vínculo afetivo – aquela frase célebre “ela está conosco há anos, é quase da família”. A patroa pode ser bondosa, pode doar restos, pode elogiar a dedicação da empregada, mas a assimetria permanece intacta. O que vemos é que as mulheres de “Louças de Família” estão por aí. São as mulheres negras que limpam, cozinham e perpetuam o ciclo.
Ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que Eliane Marques não escreveu apenas um romance sobre uma família. Escreveu um romance sobre o Brasil, mas não aquele que gosta de se enxergar em campanhas publicitárias, embalado pela fantasia da cordialidade, da miscigenação harmoniosa e da meritocracia redentora. É sobre um Brasil real, construído sobre uma engrenagem tão eficiente que atravessou séculos sem precisar mudar muito de funcionamento. O trabalho continua sendo feito pelos mesmos corpos e a limpeza continua sendo realizada pelas mesmas mãos.
Há algo profundamente irônico no fato de que um país tão apaixonado pela ideia de futuro continue organizando boa parte de suas relações sociais a partir de heranças que nunca teve coragem de enfrentar completamente. Enquanto celebramos inovação, inteligência artificial e economia criativa, ainda existem milhões de brasileiras cuja história poderia ser contada a partir das mesmas tarefas, dos mesmos espaços e das mesmas relações de poder que atravessam as mulheres de “Louças de Família”.