Eu percebo um fenômeno curioso que acontece toda vez que uma novela estreia e apresenta uma fotografia mais elaborada, uma direção mais cuidadosa ou uma cena visualmente impactante. Imediatamente surge alguém para dizer que aquilo “parece cinema”. É uma frase que sempre me diverte porque ela carrega uma crítica disfarçada que eu escuto há décadas, desde que comecei a estudar teledramaturgia. A ideia de que a novela só alcança excelência quando se aproxima de outra linguagem considerada mais nobre não sabe mais em 2026, como se novela fosse uma arte menor precisando constantemente de validação externa. Chega! Deu!
O primeiro capítulo de Quem Ama Cuida é lindo, extraordinariamente lindo. A sequência da enchente, os enquadramentos, a iluminação, a construção dos espaços, a forma como a câmera acompanha a tragédia e o desespero dos personagens revelam uma equipe técnica extremamente afinada (Amora Mautner, né gente?). É bonito porque parece novela das nove feita com dinheiro, planejamento, ambição estética e profissionais que sabem exatamente o que estão fazendo. Plim, plim! E, convenhamos, a Globo faz isso com os pés nas costas.
Mas, o que realmente me chamou atenção em Quem Ama Cuida não foi a fotografia e sim Walcyr Carrasco sendo Walcyr Carrasco em estado puro (e isso é simultaneamente um elogio e uma preocupação). Poucos autores populares entendem tão bem os mecanismos de captura emocional do público quanto ele. Ele sabe exatamente onde colocar uma tragédia, um segredo, uma injustiça, uma revelação ou uma humilhação pública para fazer o espectador voltar no dia seguinte. Seu texto pode não ser sofisticado, mas sua engenharia dramática é quase matemática. E aqui faço uma pequena confissão que provavelmente me colocará em desacordo com parte dos seus admiradores: nunca fui exatamente uma fã de sua escrita.
Sempre achei seus diálogos pouco afiados, suas construções verbais simplificadas e, muitas vezes, emocionalmente superficiais. Falta ao seu texto aquela lapidação que encontramos em autores que conseguem transformar uma conversa banal em algo memorável. Ele raramente escreve frases que ficam, mas, entretanto, o que fica são as situações. Enquanto muitos autores escrevem para críticos, Carrasco escreve para público. O homem saiu de Terra e Paixão, atravessou Êta Mundo Melhor! e agora engata Quem Ama Cuida com a mesma habilidade que o transformou num dos maiores sucessos comerciais da teledramaturgia brasileira. Basta lembrar o fenômeno de A Dona do Pedaço, novela que talvez sintetize perfeitamente suas qualidades e seus defeitos.
Walcyr tem uma característica peculiar em estabelecer contratos emocionais fortíssimos com quem assiste. O problema é que, às vezes, ele quebra esses contratos sem cerimônia alguma. Em Quem Ama Cuida, por exemplo, a família de Arthur é apresentada de forma tão ostensivamente interesseira, cruel e oportunista que o público rapidamente entende qual é a regra daquele universo. Carrasco praticamente aponta para cada personagem e diz: “Esse aqui não presta. Esse também não. Esse menos ainda. E esse vocês podem odiar sem culpa”. Só que quem acompanha a carreira do autor sabe que esse contrato tem prazo de validade.
Carrasco possui um histórico quase folclórico de se apaixonar por personagens que ele mesmo transformou em monstros e aí começa a confusão: personagens que passaram cem capítulos cometendo atrocidades subitamente descobrem sentimentos nobres, vilões profissionais desenvolvem consciência social, canalhas encontram redenção, criminosos ganham trilha romântica. Estou falando de personagens que muitas vezes fazem uma curva de noventa graus sem que a narrativa tenha preparado adequadamente esse caminho. É um vício antigo.
Na fase inicial de suas novelas, Carrasco costuma se empolgar tanto na construção da vilania que esquece de deixar portas abertas para futuros retornos. Ele pisa fundo no acelerador do mau-caratismo, da manipulação e da crueldade, criando figuras deliciosamente odiosas. Só que, meses depois, parece olhar para elas e pensar: “Talvez eu tenha exagerado” e aí começa a operação resgate. Novela é um território naturalmente elástico, mas até a elasticidade tem limites. Quando um personagem atravessa determinadas fronteiras morais sem que exista uma construção consistente para seu retorno, a regeneração deixa de parecer evolução e passa a soar como conveniência de roteiro.
Basta lembrar de Gael (Sérgio Guizzé), em O Outro Lado do Paraíso, que durante boa parte da novela, ele não era apenas um marido tóxico, mas um agressor violento, responsável por algumas das cenas mais brutais da trama. Ainda assim, conforme a narrativa avançava, Carrasco passou a tratá-lo como um homem ferido, vítima das circunstâncias e merecedor de uma segunda chance. Enquanto isso, Renato (Rafael Cardoso), que durante anos funcionou como contraponto ético e afetivo para Clara (Bianca Bin), foi progressivamente empurrado para a vilania para que a redenção de Gael parecesse mais aceitável.
O mesmo ele fez com Félix (Mateus Solano), em Amor à Vida. No início, ele abandona uma criança em uma caçamba de lixo, manipula a própria família, destrói relacionamentos e coleciona crueldades. Mas, o talento de Mateus Solano e o carisma do personagem acabaram produzindo um fenômeno curioso, em que a novela passou a girar em torno da necessidade de perdoá-lo. Félix foi absolvido pela narrativa e se tornou o coração emocional da história. O problema não está em personagens complexos mudarem, mas a redenção parecer que tem menos resultado de uma construção dramática consistente e mais consequência do fascínio do autor por suas próprias criaturas.
Por isso, observo essa primeira fase de Quem Ama Cuida com uma mistura de entusiasmo e cautela. Porque ela está funcionando (e está funcionando muito). No X (antigo Twitter) o público raramente tem paciência para acompanhar novelas sem transformar tudo em deboche, parece genuinamente envolvido. Há torcida por Adriana (Letícia Colin), paixão por Pedro (Chay Suede), memes sobre Pilar (Isabel Teixeira), discussões sobre heranças, assassinatos e vinganças. O público está comentando a trama não apenas para rir dela, mas para acompanhá-la. Enquanto alguns críticos discutem audiência, sotaques ou inconsistências, o público parece ocupado escolhendo lados, afinal novela sem torcida é apenas uma sucessão de capítulos.
Talvez seja cedo para saber se Quem Ama Cuida será lembrada entre as grandes obras de Walcyr ou se entrará para a categoria das novelas eficientes que cumprem seu papel e seguem viagem. No fundo, Walcyr Carrasco me faz de besta com uma frequência impressionante e o mais constrangedor é que quase sempre aceito o convite.