A CASACOR Bahia 2026 dedica um pavimento inteiro da Casa Nossa Senhora das Mercês a uma exposição individual de Aurelino dos Santos, na primeira grande mostra da obra do artista depois de sua morte, em janeiro deste ano. São 30 telas inéditas, produzidas na última década de vida do mestre baiano e distribuídas por 17 paredes do segundo andar do casarão, entre sete arcos históricos monumentais e dez superfícies localizadas nos vãos de portas, num pavimento que permaneceu fechado ao público em 2025 e é revelado agora. A arquitetura setecentista funciona como moldura de um conjunto de forte impacto cromático, e a decisão de não dividir o espaço com nenhum outro artista dá à abertura do percurso o peso de uma consagração.
A exposição é a principal novidade da 32ª edição da mostra, que acontece de 7 de julho a 6 de setembro sob o tema “Mente e Coração” e coloca a cultura no centro da experiência. Se em 2025 o ineditismo estava no próprio endereço, o casarão da Avenida Sete de Setembro aberto à visitação depois de quase três séculos de clausura, em 2026 ele se desloca para o conteúdo. A CASACOR Bahia assume de forma deliberada o papel de polo cultural de Salvador durante os dois meses de mostra, com arte distribuída por todos os pavimentos, shows abertos ao público e ações que aproximam o evento da cidade.
Aurelino tinha começado a pintar por acaso, nos anos 1960, quando trabalhava como cobrador de ônibus e morava ao lado do escultor Agnaldo Manoel dos Santos, que o viu diante de uma tela em branco no Farol da Barra e foi o primeiro a comprar uma obra sua. Pouco depois veio Lina Bo Bardi, então diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, que lhe entregou 15 telas para pintar num gesto que tirou do anonimato um autodidata sem qualquer instrução formal, e que viria a se tornar um dos grandes nomes da arte baiana com paisagens urbanas construídas em planos geométricos, vistas de cima e de perfil ao mesmo tempo, numa paleta que atravessa referências do barroco, do concretismo e do neoconcretismo.
O andar é o primeiro trecho de uma galeria montada pela Ernesto Bitencourt Galeria de Arte, com curadoria de Ernesto Bitencourt e Wesley Lemos e expografia assinada por Lemos, Reunidas sob o programa Panorama da Arte Moderna e Contemporânea Baiana, as 190 obras de nomes da arte baiana e brasileira a partir de uma escolha pouco comum: em vez de construir salas, o projeto ocupa os corredores de circulação do antigo convento, de modo que espaços tratados normalmente como área de passagem se convertem em lugar de permanência, com as paredes recebendo pinturas e conteúdos curatoriais enquanto esculturas e objetos ficam nos eixos centrais, marcando a transição de um trecho para outro. A montagem dialoga com o masterplan da edição, assinado por David Bastos, que adotou um percurso perimetral para conduzir o visitante ao redor da edificação de forma contínua, evitando cruzamentos e concentrações de público.
Mais artistas
O circuito da galeria desce. Depois de Aurelino, o visitante chega ao primeiro pavimento, onde 60 obras se dividem em duas alas paralelas de circulação, uma delas com as esculturas de Jayme Fygura ocupando a área central ao lado de trabalhos de Deisi Rocha, Nilson Bastos, Hélio Bastos, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Leonel Mattos, Vauluizo Bezerra e Mirabeau Sampaio.
A outra ala, chamada Outros Olhares, convive com seis arandelas históricas originais do convento, e foi justamente ali que a expografia posicionou as obras de menor formato, para que a iluminação patrimonial entrasse na mostra em vez de ser neutralizada por ela. No eixo central desse corredor, a cadeira de Ramiro Bernabó assume caráter escultórico, entre trabalhos de Almira Reuter, Mario Cravo, Ranchinho, Nage Maron e Elvio Rocha.
O percurso se encerra no térreo, com 100 obras distribuídas por 13 paredes, duas delas de dimensão monumental, onde as esculturas de Mario Cravo ocupam o eixo do corredor e fecham a travessia. O núcleo reúne 15 obras de Almandrade, 16 de Carybé entre as Sete Lendas e a Coleção Clássica, além de trabalhos de Cesar Romero, Washington Sales, Antônio Maia, Jenner Augusto, José de Dome, Josilton Tonm, Justino Marinho, Fernando Coelho, Reinado Eckenberger, Ricardo Senna, Floriano Teixeira, Evandro Teixeira, Emanoel Araújo e Yêdamaria.
“Esta edição traduz o nosso desejo de fazer da CASACOR Bahia um ponto de encontro cultural para Salvador. A galeria que abrimos no segundo pavimento conduz essa proposta, e a programação que a acompanha leva cultura para a cidade ao longo de dois meses”, comenta Magali Santana, diretora da CASACOR Bahia.
Mais arte na CASACOR
A arte não se limita à galeria. Cada profissional desta edição montou a própria curadoria para o ambiente que assina.No Espaço de Convivência há três trabalhos de Vik Muniz, entre eles Fetiche de Pregos, inspirado nos nkisi nkondi da cultura bakongo. A Adega Latência, de Tays Mota e Silvia Leticia, reúne um Antoni Tàpies e três obras encomendadas especialmente para o projeto, de Syene Brito, Juliana Maria e Caroline Lopez.
O Lounge Entre Camadas, de Michele Wharton, recebeu a exposição Espelho dos Orixás, da galeria Casa Reina, com 22 artistas. No Loft A Rotina do Agora, Lucas Neder criou As Curas da Bahia, mostra feita exclusivamente para o ambiente, cuja obra de abertura é uma homenagem a Santa Dulce dos Pobres construída com areia de Ondina, terra da Chapada Diamantina, cacau e folhas de ouro. A sala de imprensa foi desenvolvida por alunos do LAB IV da Escola de Belas Artes da UFBA, com coordenação da professora Bruna Dória, inspirados nos anos 1950, período em que Lina Bo Bardi viveu na Bahia ao lado de nomes como Carybé e Pierre Verger, e reúne pesquisa, recortes de jornais da época e tapeçarias de Genaro de Carvalho.