Tem uma frase muitas vezes dita por quem não é noveleiro que, geralmente vem acompanhada de um sorriso de superioridade intelectual e de uma leve torção de nariz. “É só novela”. Eu adoro essa frase porque ela costuma aparecer nos momentos em que a novela transformar um assunto privado em conversa nacional. Foi assim durante décadas com alcoolismo, AIDS, violência doméstica, dependência química, doação de medula, racismo, pessoas desaparecidas, esquizofrenia, autismo, transplantes, tráfico humano.
Sempre que a telenovela escolhe colocar um tema social dentro da sala de estar dos brasileiros, reaparece alguém para lembrar que aquilo “não passa de entretenimento”. Curiosamente (contém ironia!), poucos dias depois, o tema já está nos telejornais, nas rodas de conversa, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp da família e, inevitavelmente, na mesa do almoço de domingo. É quase um milagre sociológico.
A novela continua sendo tratada como um produto menor justamente porque é um produto popular. Parece existir uma dificuldade enorme de admitir que uma obra capaz de reunir milhões de pessoas diante da televisão também possa produzir reflexão – como se Shakespeare tivesse escrito tragédias para um clube exclusivo de doutores, e não para um teatro lotado de gente comum. A academia já resolveu essa discussão há bastante tempo.
Pesquisas sobre merchandising social mostram que a telenovela não muda automaticamente o comportamento das pessoas, mas consegue pautar conversas, colcoar em destaque temas antes restritos à esfera privada e ampliar o espaço público para determinados debates. Em outras palavras, ela não diz necessariamente o que pensar, mas ajuda a definir sobre o que a sociedade passa a pensar.
Quando a ficção obriga o país a olhar para o que ignora
Não é um fenômeno novo e sim uma das maiores especialidades da dramaturgia brasileira. Quando Laços de Família colocou Camila diante da leucemia, o país viu disparar o número de cadastros de doadores de medula óssea, transformando um procedimento praticamente desconhecido em pauta nacional. Mulheres Apaixonadas fez com que a violência contra a pessoa idosa deixasse de ser um problema escondido entre quatro paredes para ocupar reportagens, campanhas e debates sobre o Estatuto do Idoso.
Mais tarde, Páginas da Vida colocou a síndrome de Down no centro da narrativa e ajudou a ampliar a discussão sobre inclusão e preconceito. Viver a Vida fez milhares de brasileiros acompanharem a rotina de uma mulher tetraplégica e refletirem sobre acessibilidade, autonomia e capacitismo. Todas elas de Manoel Dias, mestre em usar esse recurso.
Glória Perez também se tornou a rainha dele (algumas vezes de forma, exagerada, mas prefiro que abuse do recurso ao silencio social): em Barriga de Aluguel, levou a reprodução assistida para a sala de milhões de brasileiros quando o assunto ainda parecia ficção científica; Explode Coração (lembram do cigano Igor?) ela mobilizou campanhas para encontrar crianças desaparecidas; O Clone, a dependência química deixou de ser tratada apenas como “falta de caráter” e passou a ser discutida como questão de saúde pública, enquanto a novela também abriu espaço para conversas sobre clonagem, islamismo e bioética em pleno horário nobre; Salve Jorge, que transformou o tráfico internacional de pessoas em tema cotidiano; e A Força do Querer, colocou a identidade de gênero, a compulsão por jogos e a violência urbana em circulação. Em todos esses casos, a novela não ofereceu respostas definitivas, mas obrigou o país a olhar para perguntas que, até então, muita gente preferia fingir que não existiam.
Nem sempre o impacto aparece associado a um tema tradicionalmente chamado de “social”. Falei sobre Mulheres Apaixonadas e o Estatuto do Idoso e preciso ressaltar que nesse caso estamos falando de políticas públicas. Cheias de Charme, ao colocar Penha, Rosário e Cida no centro da história, a novela transformou milhões de trabalhadoras domésticas em protagonistas do horário das 19h. Pela primeira vez em muito tempo, o país passou a discutir, entre uma cena e outra, jornadas exaustivas, relações abusivas, preconceito e a falsa ideia de que afeto dispensava direitos trabalhistas.
“As Empreguetes” ajudou a colocar a valorização do trabalho doméstico na conversa nacional justamente quando o Brasil discutia mudanças que, pouco depois, seriam consolidadas pela PEC das Domésticas. A ficção não escreveu a lei, evidentemente, mas contribuiu para que milhões de brasileiros passassem a enxergar uma categoria profissional que, durante décadas, permaneceu naturalizada dentro das casas e praticamente invisível no debate público. Em todos esses casos, a novela não ofereceu respostas definitivas, mas obrigou o país a olhar para perguntas que, até então, muita gente preferia fingir que não existiam.
Quando a novela escancara a violência que o Brasil insiste em esconder
Atualmente temos Quem Ama Cuida colocando o holofote em temas espinhosos, porém sempre contemporâneos: homofobia, machismo, assédio sexual. O que a trama fez foi oferecer rosto e voz para uma violência que costuma acontecer longe das câmeras.
Mau Mau vive aquilo uma das formas mais comuns de violência contra jovens LGBTQIAPN+, que é a homofobia doméstica, aquela que chega disfarçada de preocupação, daquele famoso “estou fazendo isso para o seu bem”. As cenas entre o rapaz e o avô Otoniel mostram um jovem em processo de descoberta da própria sexualidade e um patriarca incapaz de enxergar que seu afeto também machuca.
A novela não transformou Otoniel em um monstro de desenho animado. Em vez disso, apresentou um homem que ama a família enquanto reproduz preconceitos profundamente violentos. Um personagem que acredita estar protegendo o neto justamente quando é responsável pelo seu maior sofrimento. Na mesma hora, as redes sociais não ficaram discutindo apenas quem tinha razão.
Milhares de pessoas passaram a dizer algo muito mais significativo, como “essa conversa aconteceu na minha casa”, “Meu avô dizia exatamente isso”, “Minha irmã foi a Adriana da minha família”, “Eu fui o Mau Mau”. Gil do Vigor fez um vídeo emocionante compartilhando nas suas redes sociais como contanto com foi o seu processo de descoberta e as inúmeras situações ele chorou no banheiro por falta de acolhimento, tal e qual a cena da personagem. Quando milhões de pessoas assistem simultaneamente à mesma cena, aquela experiência deixa de parecer um problema individual e passa a ser percebida como um fenômeno social. O adolescente que sempre acreditou viver um conflito exclusivamente seu descobre que existem milhares de outros “Mau Maus” espalhados pelo país.
E se Mau Mau faz o público olhar para a homofobia, Tom obriga a novela a enfrentar outro tema igualmente cotidiano que é como o machismo se instala dentro das relações afetivas. Tom manipula, controla, isola, culpa, faz a companheira duvidar de si mesma e transforma afeto em mecanismo de dominação. É um tipo de violência que começa muito antes de um tapa e sim nas pequenas concessões, nas justificativas, no “eu só quero cuidar de você”, no “você está exagerando”.
Em entrevista ao “Notícias da TV”, o ator Allan Souza Lima, que faz o personagem, contou que aceitou o papel com medo da responsabilidade que ele carregava. Segundo o ator, a preocupação da equipe nunca foi apenas retratar um homem violento, mas compreender os mecanismos emocionais que sustentam uma relação abusiva, inclusive a dependência afetiva que faz tantas mulheres permanecerem ao lado de seus agressores.
O delicado equilíbrio da novela que quer mudar o mundo
Existem riscos? Falando em teledramaturgia, sim…existem! Toda pauta social pode escorregar para o panfleto, especialmente quando o personagem deixa de existir para se transformar apenas em porta-voz de uma mensagem. O espectador percebe imediatamente quando o autor está mais interessado em dar uma aula do que em contar uma boa história (e novela ruim, por mais bem-intencionada que seja, dificilmente convence alguém). Mas quando o conflito nasce organicamente dos personagens, acontece outra coisa.
Quando uma novela faz milhões de pessoas perceberem que aquela cena parece mais um espelho do que uma invenção de roteiro, ela deixa de ser apenas ficção e passa a oferecer linguagem para que muita gente reconheça violências – eu sempre sei que a novela faz bem esse papel quando vejo as pessoas comentarem nos locais que circulo, do consultório médico ao salão de beleza.
Sejamos menos Poliana, também! Sabemos que as pessoas raramente mudam de ideia porque ouviram uma palestra de cinquenta minutos. Mas elas podem começar a enxergar o mundo de outro jeito depois de acompanhar, durante seis meses, o sofrimento de um personagem que aprenderam a amar. E, convenhamos, conseguir colocar uma conversa sobre homofobia, entre o intervalo do Jornal Nacional e a sobremesa do jantar de uma família brasileira, provoca um feito muito maior do que muita gente que ainda repete “é só novela” está disposta a admitir.