Hoje eu quero falar sobre um assunto que foi tema das redes sociais, principalmente dos noveleiros. Sabe o que é química? E não estou falando daquela que a gente aprende na escola… Ninguém sabe exatamente onde ela mora, qual departamento da emissora é responsável por produzi-la. O fato é que quando a gente se depara com um par romântico em uma novela, essa é a primeira coisa que nos move: vai rolar química com esse casal?
É uma faca de dois gumes. Dois atores podem cumprir rigorosamente tudo o que estava previsto no roteiro (trocar olhares, encostar as mãos, dizer a frase certa, beijar sob a iluminação adequada e ao som de uma música escolhida justamente para nos comover) e, ainda assim, provocar no espectador a mesma excitação emocional de quem observa duas pessoas aguardando atendimento no cartório. Em compensação, basta que certos atores dividam o enquadramento para que alguma coisa aconteça e, de repente, milhões de brasileiros estejam emocionalmente envolvidos numa relação que sequer existe.
Foi mais ou menos isso que aconteceu esta semana em Quem Ama Cuida, quando Adriana (Letícia Colin) e Pedro (Chay Suede) se beijaram e devolveram às redes sociais uma discussão que acompanha os dois praticamente desde o início da novela. O público já tinha decidido havia algum tempo que eles deveriam ficar juntos e, como noveleiro é uma espécie de militante extremamente organizado quando o assunto é casal fictício, até nome já existe: Pedriana. O beijo foi suficiente para colocar novamente a torcida em estado de comoção coletiva, com gente comemorando a química e, naturalmente, exigindo que os obstáculos narrativos fossem retirados do caminho como se Walcyr Carrasco tivesse alguma obrigação constitucional de atender abaixo-assinado de fã-clube.
Adriana e Pedro funcionam porque a novela não começou mandando que funcionassem. Houve aproximação, desejo, recuo, desencontro, silêncio, passado mal resolvido e aquela demora que deixa o espectador progressivamente mais interessado em duas pessoas simplesmente dividindo uma sala. A relação foi sendo construída enquanto outras coisas aconteciam na vida dos personagens. Química não é apenas beijo bem executado. Antes dele, existe o olhar que demora meio segundo além do necessário, o corpo que muda quando o outro entra em cena, a intimidade que aparece numa conversa banal e, principalmente, a sensação de que existe alguma coisa acontecendo entre aqueles personagens mesmo quando o roteiro não está escrevendo em letras garrafais: ATENÇÃO, ELES ESTÃO APAIXONADOS.
Não precisa ser uma enciclopédia da teledramaturgia para relembrar que esses dois atores parecem que foram feitos um para o outro. A Globo pode parar de fingir surpresa e reconhecer que já realizou esse experimento anteriormente com Chay Suede e Letícia Colin. Em 2018, os dois foram Ícaro e Rosa em Segundo Sol e a reação foi praticamente a mesma. Depois da primeira noite dos personagens, as redes sociais se entusiasmaram com a química dos atores, criaram o ship Rosícaro e transformaram a parceria em um dos assuntos da trama. Letícia Colin dizia à época que era amiga de Chay havia muitos anos, o que pode explicar a confiança entre os dois em cena, embora amizade, por si só, não produza esse resultado (se produzisse, bastaria escalar melhores amigos e o problema dos pares românticos da televisão estaria definitivamente resolvido).
Aliás, Segundo Sol oferece uma pista ainda mais interessante porque Ícaro e Rosa não eram exatamente o casal mais simples de defender. A trajetória de Rosa provocou resistência em parte do público e houve momentos em que a própria construção da personagem trabalhou contra o romance, mas bastava colocar Chay e Letícia novamente juntos para aparecer alguém disposto a reconsiderar princípios, argumentos e provavelmente a própria dignidade. Meses depois da primeira repercussão, outra cena dos dois voltou a provocar comentários justamente sobre a química da dupla. Ou seja, química e torcida não são exatamente a mesma coisa. Podemos achar que duas personagens não deveriam ficar juntas e, ainda assim, perceber que alguma coisa acontece quando aqueles atores contracenam.
Essa é uma das coisas mais fascinantes do romance na telenovela. Um casal pode ser planejado durante meses, aprovado em sinopse, testado em laboratório, receber tema musical, pôr do sol, chuva cenográfica e viagem para Paris, mas nenhuma dessas providências administrativas garante que o público vá acreditar que aquelas duas pessoas sentem vontade de permanecer no mesmo ambiente. Química não é beleza, porque a televisão está cheia de pessoas lindíssimas que, colocadas juntas, produzem o equivalente dramatúrgico de água mineral. Também não é necessariamente qualidade individual de interpretação, porque dois excelentes atores podem simplesmente não produzir intimidade quando contracenam. E certamente não é apenas uma questão de beijo, embora existam beijos de novela capazes de resolver em quarenta segundos o que quinze capítulos de diálogo não conseguiram.
A história da telenovela brasileira é também uma história desses encontros que escaparam do planejamento. Raí e Babalu, vividos por Marcello Novaes e Letícia Spiller em Quatro por Quatro, são talvez um dos exemplos mais evidentes porque a relação tinha tudo aquilo que a novela popular sabe explorar maravilhosamente bem, como a provocação, briga, desejo, humor e reconciliação. Eles não precisavam declarar a paixão o tempo inteiro porque o público enxergava a atração até quando estavam discutindo. A química foi tão marcante que a dupla continuou associada no imaginário popular muito depois do fim da novela.
Outro caso quase obrigatório é Tancinha e Apolo, em Haja Coração. Mariana Ximenes e Malvino Salvador conseguiam produzir aquela familiaridade fundamental aos casais cuja história antecede o primeiro capítulo, pois havia entre eles a impressão de uma vida compartilhada. É diferente da química baseada exclusivamente no desejo. Alguns pares funcionam porque parecem prestes a arrancar a roupa um do outro, já outros funcionam porque convencem que sabem exatamente como o outro toma café, qual mania irrita, onde dói e qual frase usar para provocar uma briga. A intimidade também é uma forma de erotismo, embora a televisão às vezes se esqueça disso.
E existe, evidentemente, o território dos casais que não estavam destinados a ocupar o centro da história e acabaram obrigando autores a olhar novamente para a própria novela. A telenovela é uma obra aberta, escrita enquanto o público reage, e a química é uma das forças capazes de interferir nesse percurso. Quando uma combinação funciona inesperadamente, a audiência percebe antes de qualquer pesquisa qualitativa. O casal começa a aparecer mais, as cenas ganham duração, o texto passa a explorar aquela dinâmica e, quando percebemos, o planejamento original está discretamente sendo guardado numa gaveta. É o público dizendo ao autor, com a delicadeza habitual das redes sociais “não sei o que você planejou, mas agora vai ser isso aqui sim”.
O contrário também acontece. Existem casais que chegam à tela com currículo impecável, só esqueceram de combinar a química, física e biologia. A lista de pares que não convenceram o público é extensa justamente porque não existe engenharia narrativa capaz de resolver completamente essa ausência: Maya e Bahuan, de Caminho das Índias, por exemplo, eram apresentados inicialmente como um grande amor proibido, mas a recepção ao casal foi prejudicada e Raj, vivido por Rodrigo Lombardi, acabou ganhando outra dimensão na trajetória da protagonista; Babilônia também sofreu com a recepção ao casal formado por Regina e Vinícius; e Pega Pega viu o romance de Eric e Luiza ser frequentemente apontado como pouco convincente. Não faltavam cenas românticas, mas faltava aquilo que ninguém sabe encomendar.
Confessando uma atitude bem sadomasoquista, algumas vezes é até divertido acompanhar quando uma novela erra completamente a mão nesse departamento. O texto insiste que duas pessoas estão perdidamente apaixonadas e nós, do outro lado da tela, assistimos educadamente, esperando alguma evidência. Eles se beijam. Nada. Sofrem separados. Nada. Reatam ao som do tema romântico, continuamos firmes, porém emocionalmente indisponíveis. É quase constrangedor, porque parece que fomos convidados para o casamento de duas pessoas sobre as quais temos sérias dúvidas, mas já compramos o presente e agora não sabemos como sair.
A química também pode nos transformar em pessoas moralmente flexíveis. A telenovela apresenta adultério, diferença de caráter, mentira, vingança, incompatibilidade e razões objetivas para aquele relacionamento não existir, mas os atores entram em cena, trocam um olhar e imediatamente aparece uma parcela do público disposta a abrir uma comissão especial para avaliar circunstâncias atenuantes. Adriana e Pedro estão aí provando que não estou errada! Pedro tem uma vida construída fora daquela relação, e isso deveria bastar para que parte da audiência mantivesse alguma prudência. A internet, contudo, não é conhecida por deixar a prudência atrapalhar um bom ship.
Em outras palavras, e para começar a finalizar essa texto (grato a quem chegou aqui!), a química não pertence inteiramente ao ator, ao personagem, ao roteiro ou à direção, mas ao encontro entre essas quatro coisas e uma quinta, muito menos controlável que é o olhar do público. Química só existe plenamente quando alguém assiste e acredita. Não significa acreditar que aquele casal seja saudável, correto ou destinado à felicidade eterna e sim que aquelas duas pessoas desejam uma à outra, que alguma coisa muda quando estão juntas e que existe uma história acontecendo naquele espaço entre os dois.
É por isso que a química continua sendo uma das poucas coisas da telenovela que nenhum roteiro consegue prever. Podemos modernizar a dramaturgia, estudar audiência em tempo real, acompanhar redes sociais, fazer grupo de discussão, teste de elenco e pesquisa qualitativa. Ainda assim, dois atores entram em cena e alguma coisa acontece. Como parece acontecer novamente com Chay Suede e Letícia Colin, não adianta pedir calma ao noveleiro. Ele já criou o nome do casal, escolheu a música, separou os vídeos para editar e decidiu o final da novela.
O autor que lute.