Toda busca esconde uma armadilha. É a partir dessa provocação que Luiz Marfuz constrói “Ratoeira Perfumada”, seu primeiro livro de prosa de ficção, que será lançado no dia 23 de setembro de 2026, no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BAHIA), em Salvador. Publicada pela Editora Patuá, a obra reúne contos em que situações aparentemente comuns abrem frestas para o inesperado, colocando personagens diante de suas próprias contradições, desejos, medos e descobertas.
Dramaturgo, encenador, pesquisador e professor da Escola de Teatro da UFBA, Marfuz chega à prosa de ficção justamente no ano em que completa 50 anos de dedicação ao teatro. “Foi uma feliz coincidência. O livro era para sair em 2024, quando comecei a escrever a peça sobre Padre Pinto, que estreou com atores e atrizes do Teatro Oficina em 2025. Não à toa, dois contos têm religiosos como personagens: ‘Serpente na cabeça’ e ‘Ataque dos pombos’”, conta Marfuz.
A nova publicação amplia uma trajetória construída entre a criação artística, a pesquisa e a reflexão sobre a cultura, sem abandonar a escuta atenta do cotidiano que atravessa sua produção. “Embora haja esse percurso exploratório de múltiplas linguagens, talvez o aspecto da busca, das armadilhas do autoengano, é o que mais me interessa. Essa ideia de que você nem sempre encontra o que está procurando, mas uma outra coisa que ainda não sabe, por vezes desembocar num lugar desconhecido, ou improvável, e ter de lidar com uma realidade que desconhece. É a atração pelo fascínio e o medo que move descobertas”, analisa o autor.
“Ratoeira Perfumada” nasce desse território entre o real e o insólito. Um professor é lançado ao reino dos mortos do Egito Antigo, um viajante se perde entre as ruínas de Machu Picchu e os labirintos da própria mente, um questionário on-line desencadeia reviravoltas na sexualidade de um rapaz e um padre desesperado procura respostas junto a uma jovem yalorixá. São histórias de pessoas comuns atravessadas por acontecimentos que desafiam suas certezas e revelam conflitos que estavam escondidos.
Mistério, espiritualidade, erotismo, humor e estranhamento se encontram nos contos, em uma escrita que transforma perdas, desencontros e fantasmas em matéria de encantamento. O insólito, na obra, não aparece como fuga da realidade, mas como uma maneira de iluminá-la por ângulos inesperados. É também no humor e na autoironia que Marfuz encontra uma chave para tratar de temas delicados sem submetê-los a uma leitura excessivamente trágica.