Socorro Acioli, Eliana Alves Cruz, Carla Madeira, Aline Bei, Mariana Salomão Carrara, Natalia Timerman, Eliane Marques… Eu poderia continuar acrescentando nomes por algumas boas linhas e, ainda assim, terminaria esta lista com a sensação de ter cometido injustiças. Basta acompanhar minimamente as livrarias, os prêmios, as feiras, os clubes de leitura e aquilo que circula entre leitores para perceber que parte considerável da literatura brasileira contemporânea que tem provocado conversas, formado comunidades e disputado espaço nas listas de mais vendidos está sendo escrita por mulheres. Elas escrevem sobre família, violência, desejo, morte, maternidade, abandono, racismo, memória, trabalho, envelhecimento, dinheiro, sexo, solidão, cidade, religião, relações de classe, loucura, infância e todos esses pequenos assuntos de mulher que, por alguma coincidência curiosíssima, costumamos também chamar de vida. Ainda assim, em algum momento alguém inventou uma categoria chamada “literatura feminina”.
Nunca descobri exatamente quem foi, mas gostaria de conversar com essa pessoa. Não me incomoda pensar em uma tradição literária produzida por mulheres, estudar como determinadas experiências aparecem em suas obras ou reconhecer as condições históricas profundamente desiguais sob as quais elas escreveram. Tudo isso não apenas faz sentido como é fundamental para compreendermos a literatura. O que me intriga é em que momento o gênero de quem escreve passou a funcionar como gênero daquilo que é escrito? Veja bem, eu nunca entrei numa livraria e encontrei uma placa indicando “literatura masculina”. Nunca ouvi alguém explicar que está lendo Machado de Assis porque anda numa fase muito interessada em literatura de homem. Dostoiévski, Kafka, Hemingway, García Márquez, Saramago e tantos outros tiveram a sorte extraordinária de nascer homens (que, por sinal, escrevem sobre ciúme, família, casamento, angústia, desejo, fracasso, velhice, medo e morte e estão investigando a condição humana).
A ironia é que mulheres não chegaram agora à literatura. O que aconteceu durante muito é que as mulheres estavam nas histórias antes de terem o mesmo direito de escrevê-las. Segundo pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, formado por um coletivo de pesquisadores e pesquisadoras vinculados à Universidade de Brasília, 570 obras do cânone brasileiro publicadas entre 1965 e 2014 e encontrou mais de 70% de autoria masculina. E digo mais, ainda segundo a mesma pesquisa, durante os anos de 2005 e 2014, 70,6% das obras publicadas pelas editoras Rocco, Record e Companhia das Letras, teriam sido de autoria masculina, enquanto apenas 29,4% destas teriam sido escritas por mulheres. Durante boa parte da nossa história literária, portanto, homens não apenas ocuparam majoritariamente o lugar de autor, mas também ocuparam também o confortável lugar de explicar quem eram as mulheres. Não estou sugerindo, obviamente, que homens sejam incapazes de escrever grandes personagens femininas, assim como seria ridículo defender que mulheres só pudessem escrever mulheres. Literatura não exige carteira de identidade correspondente à personagem. O problema começa quando praticamente um único grupo detém, durante séculos, o poder de narrar os outros e depois nós confundimos o resultado dessa seleção histórica com uma espécie de ordem natural das coisas.
Depois de séculos lendo livros escritos por homens, as mulheres aparentemente aprenderam a habilidade extraordinária de ler homens. Entretanto, os homens, pelo visto, ainda estão estudando o procedimento inverso. Um levantamento da Nielsen BookData (2024) encontrou um comportamento revelador entre leitores do Reino Unido, no qual os dez autores mais vendidos entre os homens analisados eram homens e entre as leitoras havia circulação muito maior entre autores e autoras. Outro levantamento é de que entre os compradores das autoras mais populares, menos de 20% eram homens, enquanto mulheres representavam aproximadamente metade dos leitores de livros escritos por homens. Ou seja, nós passamos séculos acompanhando crises existenciais masculinas e conseguimos sobreviver, mas eles, aparentemente, ainda estão avaliando se suportam uma protagonista chamada Ana.
É evidente que estou provocando, mas o problema por trás da piada é bastante sério. Existe uma resistência masculina à literatura escrita por mulheres que não pode ser explicada apenas por preferência individual, porque preferências também são socialmente construídas. Desde cedo aprendemos quais livros parecem “para menino” e quais parecem “para menina”, quais assuntos são considerados universais e quais recebem o carimbo de femininos. Depois crescemos, sofisticamos o vocabulário e chamamos o resultado disso de gosto pessoal. Essa mesma pesquisa da Nielsen BookData, fala que leitores ainda associam romances escritos por mulheres a assuntos exclusivamente femininos e como gêneros ligados à política, à história ou às biografias tendem a ser percebidos como mais masculinos, pressupondo que homens possam escrever sobre mulheres e continuar universais, mas mulheres que escrevem sobre mulheres correm o risco de se tornar específicas demais.
É difícil imaginar mecanismo mais eficiente para transformar metade da humanidade em nicho. A expressão “literatura feminina” sempre me provoca certo incômodo, pois quando falamos de senso comum e mercado, frequentemente deixa de significar literatura produzida por mulheres para sugerir literatura destinada a mulheres (e essas duas coisas são completamente diferentes). No Brasil, a contradição ganha outra camada porque as mulheres são justamente a grande força da leitura. O levantamento recente da 6ª edição do Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, aponta ampla predominância feminina entre leitores. Basta entrar em muitos clubes de leitura, acompanhar comunidades literárias ou observar quem está discutindo livros nas redes para perceber que essa presença não é exatamente discreta.
Reparem nisso aqui: mulheres passam séculos entrando em universidades, academias, bibliotecas, círculos intelectuais e ambientes construídos majoritariamente por homens, aprendem a circular nesses espaços mesmo quando não foram pensados para elas e, quando finalmente ocupam majoritariamente determinada comunidade, o problema passa a ser que o ambiente ficou feminino demais para que os homens se sintam confortáveis. E existe ainda outra ferida. Não basta uma escritora conseguir publicar e encontrar leitores, a mulher frequentemente precisa enfrentar um tipo de julgamento que ultrapassa sua obra, no qual determinadas autoras ainda recebem comentários sobre aparência, vida pessoal e comportamento, como se junto ao romance viesse anexado o direito de avaliar a mulher que o escreveu (o machismo possui essa habilidade fascinante de mudar de roupa sem abandonar o endereço).
Se um homem percebe que passou dez, vinte, trinta anos lendo quase exclusivamente outros homens, isso não significa necessariamente que seja um misógino literário escondendo exemplares de Virginia Woolf no fundo da gaveta. Significa apenas que talvez seja interessante perguntar como seu repertório foi construído. Quem lhe disseram que eram os grandes autores? Quem aparecia nas listas escolares? Quem os críticos que ele acompanha costumam recomendar? Quantas vezes pegou um romance escrito por uma mulher sem previamente classificá-lo como uma experiência feminina?
As mulheres foram treinadas desde muito cedo para compreender que o masculino também lhes diz respeito, enquanto muitos homens ainda acreditam que o feminino pertence exclusivamente às mulheres. Esse é o verdadeiro problema por trás da chamada “literatura feminina”. Não precisamos convencer ninguém de que mulheres sabem escrever, né? Quero apenas saber quando criaremos, com o mesmo entusiasmo classificatório, a literatura masculina. Poderíamos reunir numa prateleira especial todos aqueles romances sobre homens em crise, pais emocionalmente indisponíveis, maridos infiéis, sujeitos atormentados pelo próprio desejo, homens solitários bebendo em bares, rapazes tentando entender a relação com o pai e senhores de meia-idade descobrindo que a existência não aconteceu exatamente como imaginaram. Colocaríamos uma placa em cima: LITERATURA MASCULINA — histórias sobre os dilemas particulares dos homens.
Talvez parecesse absurdo.
E é justamente esse o ponto.