Tenho uma relação um pouco desconfiada com planos públicos. Não com a ideia de planejar, evidentemente, mas com aquele gênero documental muito brasileiro em que dezenas de pessoas passam meses discutindo problemas reais, produzem um PDF de algumas centenas de páginas, fazem uma cerimônia bonita de lançamento e, algum tempo depois, descobrimos que o documento foi morar naquele lugar misterioso onde vivem os planos que ninguém mais consulta. Talvez exista um enorme arquivo secreto da administração pública reservado exclusivamente a boas intenções.
Por isso, acompanhei com bastante interesse a iniciativa da Fundação Pedro Calmon de iniciar a construção do novo Plano Estadual do Livro e da Leitura da Bahia, o PELL-BA, começando justamente por aquilo que deveria anteceder qualquer política pública séria: escutar. A proposta apresentada pela Fundação prevê um processo de participação da sociedade civil, com escutas dirigidas a leitores, escritores, bibliotecários, editoras, instituições, pesquisadores, coletivos e diferentes agentes ligados ao livro e à leitura nos territórios baianos. A intenção é que o novo Plano seja construído de forma democrática e participativa e considere a diversidade do estado (o que, convenhamos, tratando-se da Bahia, não é exatamente um detalhe operacional, é praticamente o ponto de partida).
Tive o prazer de participar de algumas dessas reuniões e saí delas com uma sensação que considero especialmente importante de que havia ali menos vontade de apresentar respostas prontas e mais disposição para formular as perguntas certas. E políticas públicas começam melhor quando alguém admite que não sabe tudo. Não pretendo transformar esta coluna numa apresentação do PELL-BA, já que a Fundação Pedro Calmon pode fazer isso muito melhor do que eu. O que quero é aproveitar a conversa que ele abriu para pensar, a partir da minha experiência com literatura, formação de leitores, mediação e projetos culturais, quais são algumas das necessidades reais que uma política pública de leitura precisa enfrentar para chegar à vida das pessoas.
Fique muito feliz em ver pessoas de lugares muito diferentes dessa cadeia, cada uma trazendo não apenas ideias, mas as dores concretas de seu trabalho e de sua comunidade. Bibliotecários, escritores, leitores, produtores, representantes de instituições, coletivos e iniciativas independentes falando a partir daquilo que vivem todos os dias, mostrando que o problema do acesso ao livro muda radicalmente dependendo do território, da estrutura disponível e de quem estamos tentando alcançar. Foi bonito perceber tanta gente engajada em pensar a leitura como uma questão coletiva e, sobretudo, disposta a disputar o que ela pode ser na Bahia.
Entre as perguntas, intrigantes, uma ficou em minha cabeça: o que significa, afinal, ampliar o acesso ao livro? Colocar livros à disposição das pessoas é indispensável, mas não suficiente. Um livro numa estante não forma automaticamente um leitor da mesma maneira que uma bicicleta parada numa garagem não transforma ninguém em ciclista. Existe um percurso entre disponibilidade e desejo, entre acesso e apropriação, entre ter um livro perto e descobrir que aquilo pode fazer parte da sua vida. E isso exige uma mudança importante na forma como pensamos formação de leitores.
Como escritora, leitora e mediadora de alguns clube de livros, penso sempre que existe uma tendência quase automática de associar leitura à escola (e isso faz total sentido). Professores, estudantes e bibliotecas escolares são fundamentais e precisam estar no centro de qualquer política séria para o livro. Mas não podem estar sozinhos. Quando falamos em formar leitores, existe uma parcela imensa da população que desaparece da conversa simplesmente porque já terminou a escola. Entretanto, quem convida essa pessoa a continuar lendo? O que acontece com aquele adolescente que teve contato com literatura até os 17 anos e, aos 25, está trabalhando oito horas por dia, pegando dois ônibus para chegar em casa e não possui mais nenhuma instituição responsável por aproximá-lo dos livros? E a mulher de 43 anos que nunca se considerou leitora? E o homem de 60 que gostaria de voltar a ler, mas não sabe por onde começar? O aposentado, comerciante, motorista, a mãe que acompanha o filho na atividade cultural, mas nunca foi convidada a participar de uma? Uma das perguntas mais importantes que o PELL-BA possa fazer seja: “como formamos leitores depois que termina a escola?”
Se essas pessoas não estão chegando espontaneamente ao livro, talvez seja hora de o livro fazer o caminho contrário. Por isso, penso que uma política estadual precisa considerar seriamente ações itinerantes e a ocupação de espaços não tradicionalmente associados à literatura. Não apenas levar caixas de livros, fazer uma fotografia bonita e ir embora. Criar acontecimentos de leitura, levar junto escritores, mediadores, artistas, contadores de histórias, clubes, agentes culturais locais. A literatura precisa circular como circula a música.
Aliás, esta é outra questão que sempre me intriga. Nós compreendemos perfeitamente a ideia de uma turnê musical. Um cantor lança um disco e percorre dez cidades, no teatro, companhias circulam com espetáculos, na dança também. Mas, quando se trata de literatura, parece que decidimos que o escritor deve permanecer elegantemente parado, aguardando que um leitor apareça numa feira literária. Por que escritores baianos não podem fazer turnês pela Bahia? Imagine um autor percorrendo, ao longo de algumas semanas, bibliotecas, escolas, universidades, clubes de leitura e centros culturais de diferentes municípios. Imagine um escritor de Barreiras sendo lido em Ilhéus, uma autora de Vitória da Conquista encontrando leitores em Juazeiro, alguém do Recôncavo circulando pelo oeste do estado. Isso é política de formação de leitores e, ao mesmo tempo, política de valorização de quem escreve. Criar leitores significa também fortalecer um setor produtivo.
Além disso, existe alguém nesse processo cuja importância frequentemente só percebemos quando falta. Podemos comprar milhares de livros, montar acervos excelentes e distribuir exemplares por todo o estado, mas alguém precisa construir a ponte. Esse alguém pode ser professor ou bibliotecário e pode, também, ser uma liderança comunitária, um agente cultural, alguém que organiza um clube de leitura independente, uma pessoa de uma associação de bairro, um estudante universitário, uma mãe, um coletivo, uma biblioteca comunitária ou um integrante de um terreiros. Há uma enorme rede de mediação de leitura acontecendo fora das instituições educacionais e uma política pública precisa enxergá-la. Precisamos formar essas pessoas continuamente, remunerá-las quando for o caso, oferecer ferramentas, repertório e condições para que façam aquilo que tantas já realizam, quase intuitivamente, que é colocar um livro no caminho de alguém.
A leitura também precisa ser comunicação pública. O Estado faz campanhas de vacinação, segurança no trânsito, combate à dengue, novos serviços e equipamentos de saúde (e deve fazer!) Só que eu não me recordo quando foi a última vez que você viu uma campanha pública dizendo “tem uma biblioteca perto da sua casa, entre“. Se queremos ampliar o número de leitores, precisamos disputar também o imaginário. A literatura precisa aparecer na televisão, no rádio, nos ônibus, nas ruas, nos equipamentos culturais, nas redes sociais, nos outdoors. Não apenas durante a Semana do Livro, quando todos nos lembramos coletivamente de que ler é maravilhoso, fazemos uma postagem e seguimos a vida até o ano seguinte. Precisamos normalizar socialmente a leitura como normalizamos cinema, música, futebol e séries.
A chamada pública para construção do PELL-BA reconhece diferentes segmentos e propõe que a atualização das políticas do setor seja construída ouvindo quem vive essas experiências no cotidiano. É um bom começo e a participação social não pode funcionar como decoração democrática. Afinal, escutar cria responsabilidade sobre aquilo que foi ouvido. Saí das reuniões pensando sobre a necessidade de parar de imaginar um “leitor ideal” esperando pela política pública. Uma política estadual do livro e da leitura não pode ser construída apenas para quem já encontrou o caminho. Sua maior ambição precisa ser alcançar justamente quem ainda não chegou.
E, se o novo PELL-BA conseguir transformar essa ideia em política permanente, talvez daqui a alguns anos não precisemos mais perguntar quantos baianos têm acesso aos livros e sim quantos descobriram que a leitura também lhes pertence.