Sempre acontece todas as vezes que termino um grande livro. Eu fecho a última página, permaneço alguns minutos olhando para o nada e, antes mesmo de organizar o que acabei de ler, já me pego pensando em uma única coisa: com quem eu vou conversar sobre isso?
É curioso perceber como a leitura nos coloca diante de um paradoxo. Acredito que ela seja a atividade mais solitária que existe, uma vez que ninguém pode ler por nós. Cada página é acompanha um silêncio, um encontro íntimo entre um leitor e um texto. Entretanto, os livros produzem um efeito contrário, pois eles nos devolvem ao mundo. Começam quando sentimos uma necessidade quase física de colocar em voz alta aquilo que ainda não conseguimos compreender sozinhos.
Hoje entendo que essa inquietação me acompanha desde a infância. Na época, eu não fazia ideia do que era um clube de leitura, mas já carregava dentro de mim a vontade de inventar um. Terminava um livro e queria desesperadamente encontrar alguém que tivesse vivido aquela mesma experiência. Queria perguntar se aquela personagem também tinha irritado os outros, se só eu tinha me emocionado com determinado capítulo, se aquele final era mesmo tão injusto quanto parecia. Só que isso quase nunca acontecia. Cada amigo lia um gênero diferente, quando lia. Alguns gostavam de aventura, outros de fantasia, outros sequer tinham interesse pelos livros que eu carregava debaixo do braço. Ou seja, a conversa morria antes de nascer e eu ficava com a estranha sensação de que certas histórias eram grandes demais para permanecerem presas dentro de uma única pessoa.
Foi em 2007, assistindo ao filme “O Clube de Leitura de Jane Austen” (a Sessão da Tarde clássica), que aquela sensação finalmente encontrou um nome. A maioria das pessoas olha para aquele filme e enxerga um grupo de pessoas discutindo romances de Jane Austen. Eu enxerguei muito mais que isso! Vi a possibilidade de uma comunidade ser construída a partir da literatura e percebi que aquelas mulheres não se reuniam porque gostavam da mesma autora e sim porque os livros lhes ofereciam uma linguagem para falar de si mesmas (Austen era apenas o caminho). O verdadeiro assunto eram os amores, os medos, as escolhas, os fracassos, as expectativas, as transformações de cada uma delas. Naquele momento eu ainda não imaginava que anos depois estaria criando clubes, mediando encontros e construindo comunidades de leitores. Mas, olhando para trás, percebo que aquela decisão começou ali, naquele sofá misturado com a preguiça da tarde, muito antes de existir “Beer and Book”, “Orí” ou “Sem Pregas na Língua”.
Tenho ouvido nos últimos tempos, as pessoas dizerem que os clubes de leitura estão “na moda”. Sinto informar que, neste caso, não estamos falando de uma tendência de consumo, mas de uma necessidade profundamente humana. Em uma época em que tudo nos empurra para experiências individuais e bolhas cuidadosamente organizadas para confirmar aquilo que já pensamos, um clube de leitura faz exatamente o movimento contrário. Pesquisas mostram que clubes crescem no mesmo momento quando tanta gente anuncia uma suposta crise dos leitores, previsões sobre a morte do livro impresso e sobre a incapacidade das novas gerações de sustentar a atenção por mais de alguns segundos.
Os números ajudam a desmontar esse discurso apocalíptico. Estima-se que mais de 2 milhões de brasileiros participem hoje de clubes de leitura, entre grupos presenciais e virtuais, movimentando não apenas o mercado editorial, mas também bibliotecas, livrarias, cafés, eventos literários e novas formas de circulação dos livros. Depois da pandemia, muitas dessas comunidades cresceram de forma acelerada, impulsionadas pelos encontros on-line, que aproximaram leitores de cidades e estados diferentes e provaram que uma boa conversa sobre literatura já não depende de dividir o mesmo CEP. Ao mesmo tempo, plataformas como o BookTok levaram uma nova geração às livrarias e transformaram a leitura em experiência compartilhada, mostrando que o livro continua encontrando maneiras de circular quando encontra pessoas dispostas a conversar sobre ele.
Mas, sinceramente, acho que existe um dado que nenhuma pesquisa consegue medir. É impossível colocar numa planilha quantas amizades começaram porque duas pessoas defenderam a mesma personagem, quantas mulheres recuperaram a confiança para falar em público depois de um encontro, quantos leitores descobriram autores que jamais escolheriam sozinhos ou quantas conversas continuaram muito depois que o café esfriou. O mercado editorial certamente comemora o crescimento dos clubes (eu também como escritora!). Eu comemoro porque eles devolvem à literatura aquilo que ela sempre teve de mais precioso: a capacidade de reunir pessoas em torno de uma boa história. Depois de tantos anos mediando encontros, desconfio das explicações estatísticas que ajudam a entender o fenômeno, mas não explicam o que acontece dentro de uma roda.
Ao longo desses anos, perdi a conta de quantas pessoas chegaram dizendo que eram tímidas, que nunca conseguiam terminar uma leitura, que tinham vergonha de falar em público ou que achavam que “não entendiam de literatura”. Essa frase desaparece depois de alguns encontros, depois de perceberem que não existe uma única maneira de ler um romance. Foi mediando clubes que aprendi que livros produzem boas conversas porque tornam o desacordo um espaço seguro. Já vi uma mesma personagem ser lida como heroína e como vilã, já vi alguém defender uma atitude que outra pessoa considerava imperdoável, já vi leitores mudarem completamente de opinião porque alguém contou uma experiência de vida que reorganizou o sentido daquele capítulo. O livro se transforma em uma espécie de território neutro onde pessoas diferentes conseguem conversar sobre assuntos que talvez nunca conseguissem abordar diretamente.
Foi por acreditar nessa potência da conversa que, sem perceber, fui construindo meus próprios lugares de encontro. O “Beer and Book” nasceu de uma amizade Eu e Renata já sabíamos que a vida adulta tem o estranho hábito de transformar encontros em promessas e amizades em mensagens de “precisamos marcar”. Queríamos encontrar um jeito de não deixar que isso acontecesse conosco. Então surgiu uma ideia tão simples quanto transformadora: “e se a gente criasse um motivo para se encontrar todos os meses?” O livro apareceu como essa desculpa perfeita. A cerveja veio para lembrar que a literatura não precisa estar cercada de solenidade para ser profunda. E foi assim que descobrimos que os clubes de leitura raramente permanecem do tamanho em que começam. O que nasceu para manter duas amigas próximas rapidamente se transformou numa comunidade de cerca de cinquenta mulheres que compartilham leituras, mas também aniversários, viagens, mudanças de trabalho, lutos, conquistas e tudo aquilo que acontece entre um livro e outro. Hoje tenho a certeza de que o Beer and Book se tornou um jeito de cultivar amizades.
O “Orí” surgiu de outra inquietação. Durante anos, percebi o quanto a literatura afrocentrada ainda era lida de forma solitária, muitas vezes sem um espaço onde fosse possível elaborar coletivamente questões de ancestralidade, racismo, espiritualidade, pertencimento e memória. Eu não queria apenas criar um clube que lesse autores negros, queria construir uma roda onde essas obras encontrassem leitores dispostos a reconhecer nelas também suas próprias histórias, seus silêncios e suas heranças. Cada encontro do “Orí” reforça uma convicção de que alguns livros não pedem apenas interpretação. Pedem comunidade.
Já o “Sem Pregas na Língua” veio de uma observação social (na verdade, mais do meu marido e sócio que é sexólogo). Sempre me impressionou o quanto ainda temos dificuldade de conversar sobre corpo, desejo, prazer e sexualidade sem recorrer ao constrangimento, à moralização ou aos clichês. A literatura oferece um caminho extraordinário para romper esse silêncio, porque cria a distância necessária para que possamos falar sobre os personagens e, sem perceber, acabemos falando sobre nós mesmos. O “Sem Pregas” é um clube sobre liberdade, sobre as maneiras como nossos corpos são educados, controlados, desejados, censurados e celebrados. Sobre o quanto nossos afetos também são construções culturais. E poucas experiências são tão bonitas quanto assistir a leitores descobrindo que existe inteligência, política, poesia e delicadeza em conversas que, durante tanto tempo, foram empurradas para o território do tabu.
Hoje percebo que, olhando de fora, parecem três clubes completamente diferentes. Mas quem participa deles sabe que todos nasceram da mesma pergunta que me acompanha desde a infância: o que acontece quando colocamos pessoas em torno de um mesmo livro e lhes damos tempo para conversar de verdade? Foi tentando responder a essa pergunta que deixei de ser apenas leitora para ocupar, quase sem perceber, o lugar de curadora e mediadora. E essa experiência transformou profundamente a minha forma de ler. Hoje, quando escolho um livro para um clube, penso menos na qualidade da obra e muito mais nas perguntas que ela será capaz de provocar. Penso nas conversas que ainda não aconteceram, nos encontros improváveis que ela pode promover, nas amizades que podem nascer, nas certezas que talvez precisem ser desmontadas e, principalmente, nas pessoas que sairão dali um pouco diferentes de como chegaram.
Descobri, ao longo desses anos, que um mediador não conduz uma conversa sobre literatura, mas cuida de um espaço onde diferentes maneiras de enxergar o mundo possam coexistir com respeito. E, em tempos em que qualquer discordância parece terminar em bloqueio, cancelamento ou silêncio, talvez essa seja uma das experiências mais revolucionárias que um livro ainda seja capaz de proporcionar.
E se você chegou até aqui, vou fechar esse texto de hoje com conselhos. Sempre que alguém me pergunta por onde começar a criar o hábito da leitura, minha resposta é quase sempre a mesma: não comece pelo livro, comece pelas pessoas. Procure um clube de leitura, não importa se ele acontece na mesa de um bar, na biblioteca da sua cidade, na livraria do bairro, na casa de alguém ou através de uma tela. O importante é encontrar uma roda onde exista espaço para escutar e ser escutado. Todo mundo deveria ter um clube de leitura para chamar de seu.