- Por Victor Barretto (@indicaoquessa) – especial para o Bahia Social Vip
Sétima edição do festival movimentou o Rio Vermelho com gastronomia italiana, música e cultura, mas também trouxe de volta uma antiga discussão: Salvador está preparada para oferecer grandes experiências gastronômicas ao público?
O Rio Vermelho voltou a ser palco, no último sábado (19), de uma das festas gastronômicas que já fazem parte do calendário de Salvador. Em sua sétima edição, a Festa de San Gennaro reuniu restaurantes, música, arte e referências à cultura italiana, desta vez com o tema Pop Rock e uma homenagem ao baiano Raul Seixas. A proposta do evento é justamente levar para as ruas a tradição italiana, criando uma grande celebração gastronômica a céu aberto.
Chegamos ao festival por volta das 12h30 e encontramos o Rio Vermelho já bastante movimentado. Restaurantes conhecidos do público, como Isola,Iryna, Vini Figueira, Di Lucca e Manga, apresentavam grande procura, com filas que mostravama força que o evento conquistou ao longo dos anos.Mas, para além da festa, existe uma reflexão que merece ser feita.
Depois de acompanhar mais uma edição do San Gennaro, algumas questões continuam presentes. As filas, a concentração das barracas, a dificuldade de circulação e a exposição às condições climáticas não são exatamente novidades. E, mais uma vez, a chuva apareceu.
A proposta de uma festa de rua tem justamente esse caráter espontâneo, popular e descontraído. Mas será que o crescimento do San Gennaro não pede também uma evolução proporcional de sua estrutura?
A gastronomia tem um papel cada vez mais importante na experiência turística e cultural das cidades. O próprio San Gennaro já demonstrou que existe público para esse tipo de iniciativa em Salvador. A edição de 2026 reuniu 12 restaurantes e apostou em pratos preparados especialmente para o festival, com valores anunciados entre R$ 15 e R$ 60.
O desafio, portanto, talvez não esteja mais em provar que o público existe. Ele existe. A questão passa a ser como oferecer a esse público uma experiência cada vez mais confortável. Estrutura também faz parte da experiência gastronômica
Uma das situações que mais chamaram atenção durante a chegada ao evento foi que, por volta do meio-dia, ainda havia equipes trabalhando na montagem de elementos da estrutura e da decoração. Em determinados momentos, o público precisou conviver com equipamentos e grades de proteção enquanto o espaço ainda recebia os últimos ajustes.
Somam-se a isso problemas pontuais de conexão de internet, filas extensas em algumas operações e uma estrutura bastante concentrada nas ruas do entorno do festival. E aqui surge uma pergunta que merece ser feita: será que o modelo de barracas utilizado há anos ainda é o mais adequado para um evento que cresceu tanto?
Uma possibilidade seria pensar em estruturas maiores, como trailers gastronômicos ou módulos mais robustos, além de tendas capazes de proteger o público do sol, do vento e, principalmente, da chuva, algo que não é exatamente uma surpresa em Salvador.
Não se trata de descaracterizar o San Gennaro ou transformar uma festa de rua em um evento fechado. Pelo contrário. A ideia seria preservar justamente a sua essência, mas oferecer ao público melhores condições para aproveitá-la.
O exemplo de outros grandes festivais
A reflexão fica ainda mais evidente quando olhamos para outros eventos gastronômicos realizados no país. No mesmo fim de semana, o Rio de Janeiro recebia o Rio Gastronomia, no Jockey Club Brasileiro. O festival conta com restaurantes, experiências gastronômicas, aulas-show, atrações musicais e uma estrutura planejada para receber o público ao longo de vários fins de semana.
A comparação não precisa significar que Salvador deva copiar o modelo carioca. São propostas diferentes, públicos diferentes e realidades diferentes. Mas serve para mostrar que gastronomia, entretenimento e conforto podem caminhar juntos.
E talvez seja justamente esse o próximo passo que eventos como o San Gennaro possam dar.
Salvador merece mais
Salvador é uma cidade reconhecida nacionalmente pela sua cultura, pela sua gastronomia e pelo potencial turístico. O Rio Vermelho, por sua vez, já se consolidou como um dos principais polos gastronômicos da cidade — razão pela qual o próprio San Gennaro escolheu o bairro como sua casa desde a primeira edição.
Por isso, é natural que o público passe a esperar mais.
Mais estrutura.
Mais conforto.
Mais organização.
Mais opções de acesso.
Mais transporte.
Mais segurança.
Mais participação de grandes marcas.
A presença de cervejarias como Amstel e Heineken mostra que existe espaço para a aproximação entre grandes patrocinadores e eventos gastronômicos sem necessariamente comprometer a identidade visual e cultural da festa.
O patrocínio institucional também pode ter um papel importante nesse processo. Não apenas para financiar uma estrutura maior, mas para ajudar a transformar o evento em uma experiência capaz de projetar ainda mais Salvador como destino gastronômico.
Público também precisa ser ouvido
Talvez uma das maiores forças do San Gennaro seja justamente a capacidade de reunir um público que deseja consumir gastronomia, cultura e entretenimento em um ambiente aberto e democrático.
E é justamente por isso que ouvir quem frequenta o evento é importante.
Muitas vezes, o público aceita determinadas dificuldades simplesmente porque existe uma carência de grandes festivais gastronômicos na cidade. Mas, quando essas experiências são discutidas, surgem relatos semelhantes sobre filas, acesso, estacionamento, chuva, circulação e estrutura.
Isso não diminui a importância do San Gennaro. Pelo contrário. É justamente porque a festa conquistou seu espaço que essas questões precisam entrar na conversa. O San Gennaro já provou que funciona. Já provou que tem público. Já provou que os restaurantes abraçam a proposta e que Salvador gosta de viver a gastronomia nas ruas.
Agora talvez seja hora de dar o próximo passo. Que venham mais patrocinadores, mais profissionalismo, mais estrutura e, principalmente, mais conforto para quem sai de casa, enfrenta trânsito, procura estacionamento e chega ao festival disposto a consumir e celebrar.
Porque gastronomia também é experiência. E quem paga por uma experiência tem o direito de esperar que comida, cultura, segurança e conforto estejam no mesmo prato. O San Gennaro já entrou para o calendário de Salvador. A expectativa, agora, é que a próxima edição mostre que a festa também está pronta para crescer.
Que venha o San Gennaro 2027.