A notícia de que Avenida Brasil ganhará uma continuação, prevista para 2027, provocou comoção, curiosidade, desconfiança, entusiasmo e aquele medo perfeitamente compreensível de alguém mexer numa coisa que estava quieta no lugar dela. A nova novela terá novamente João Emanuel Carneiro à frente da história e prevê o retorno de personagens centrais como Carminha, Nina e Tufão, além da chegada de novos nomes e conflitos. Confesso que minha primeira reação foi menos “meu Deus, Carminha está de volta, será que isso vai dar certo?”.
Eu passei uma parte considerável da minha vida acadêmica tentando entender por que as séries estavam ficando parecidas com novelas. Eis que, quase vinte anos depois, Carminha resolveu aparecer para me informar que talvez esteja acontecendo o contrário. Quando fiz minha pesquisa de mestrado, uma das questões que me interessavam era justamente uma transformação que vinha acontecendo nas séries norte-americanas, especialmente a partir dos anos 2000. Durante muito tempo, a ideia mais convencional de série esteve associada a episódios com relativa independência. Porém, o que eu percebia é que as séries estavam cada vez mais abandonando esse modelos ao multiplicar personagens, prolongar conflitos e construir uma relação muito maior entre episódios e temporadas. Elas estavam se enovelando. Foi por isso que escolhi analisar Desperate Housewives, série lançada em 2004 e que, desde o primeiro episódio, terminava sem terminar, coisa que qualquer noveleiro brasileiro reconheceria sem precisar consultar bibliografia alguma.
Nada disso, evidentemente, havia sido inventado por Desperate Housewives. Minha pesquisa partia justamente da percepção de que aquelas séries recuperavam mecanismos presentes muito antes na literatura de folhetim, nas soap operas e, para nossa alegria nacional, nas telenovelas. O próprio gancho, essa pequena perversidade narrativa que consiste em interromper uma história exatamente quando ninguém gostaria que ela fosse interrompida, atravessa a história das narrativas populares e encontrou na novela brasileira uma de suas moradas mais confortáveis (nós não chamávamos de cliffhanger, chamávamos de capítulo de quinta-feira).
A novela sempre soube que era preciso fazer você voltar amanhã, depois de amanhã e na segunda-feira seguinte. O personagem abria a porta, arregalava os olhos, a câmera fechava em seu rosto, entrava a trilha sonora e nós éramos abandonados à própria sorte até o dia seguinte. Quando as séries americanas começaram a investir mais intensamente em tramas contínuas, mistérios atravessando temporadas, grandes elencos e conflitos que se recusavam a caber dentro de quarenta minutos, elas estavam sofisticando sua própria linguagem, claro, mas também se aproximando de uma tradição narrativa que nós conhecíamos intimamente. A diferença é que a série continuava, mas a novela acabava. A novela, por mais enrolada que estivesse (e algumas chegaram ao último capítulo com uma lista de pendências que exigiria uma força-tarefa do Ministério Público) precisava encerrar seu pacto com o espectador. O assassino era revelado, o vilão recebia alguma punição, os casais encontravam seus destinos, apareciam filhos, casamentos, viagens, prisões, redenções e, finalmente, aquele FIM. Era quase uma escritura registrada em cartório.
Entretanto, a Globo começou, nos últimos anos, a testar justamente essa fronteira e as novelas parecem ter descoberto o conceito de temporadas. Uma das primeiras experiências aconteceu com Novo Mundo, exibida em 2017. Em vez de simplesmente produzir outra novela histórica ambientada no período imperial brasileiro, a Globo decidiu retornar àquele universo com Nos Tempos do Imperador, dos mesmos autores, Thereza Falcão e Alessandro Marson. A história avançava cerca de vinte anos, chegava ao reinado de D. Pedro II e recuperava personagens e vínculos da trama anterior. Os próprios autores pensavam aquele projeto como uma continuidade e chegaram a falar numa trilogia.
No papel, a operação fazia sentido, pois não era necessário continuar exatamente a mesma história, mas preservar um universo ficcional reconhecível, permitir que o tempo passasse e descobrir o que havia acontecido depois daquele ponto em que o espectador havia se despedido – é uma lógica muito próxima daquilo que, na minha pesquisa, aparece na discussão sobre a saga, no qual personagens envelhecem, mudam, morrem, podem dar lugar a outra geração, enquanto o universo narrativo permanece. Só havia um pequeno detalhe e vou tentar explicar aqui. Nos Tempos do Imperador não conseguiu reproduzir o entusiasmo despertado por Novo Mundo. O afeto do público não vem no pacote da propriedade intelectual, ou seja, você pode recuperar universo, personagens, referências e até a equipe criativa, mas não existe transferência automática de paixão. Audiência não funciona como herança de família. A experiência seguinte tornou essa questão ainda mais interessante.
Em 2025, Êta Mundo Bom!, sucesso de 2016, também ganhou uma continuação, Êta Mundo Melhor!. Candinho voltou, personagens conhecidos reapareceram, novos foram incorporados e a novela assumiu sem grande cerimônia que aquela história podia continuar quase uma década depois. Mais uma vez, entretanto, o reencontro não significou repetição automática do fenômeno anterior, pois a continuação terminou sem alcançar o mesmo desempenho de audiência da obra original. Em resumo, essas duas experiências nos mostra que continuar uma história não significa simplesmente ligar novamente uma máquina que funcionou muito bem dez anos atrás. Há uma diferença enorme entre sentir saudade de uma personagem e querer acompanhá-la por mais duzentos capítulos.
O problema da continuação é que ela precisa justificar sua própria existência, precisa responder a uma pergunta muito mais difícil do que “o público gostava dessas personagens?”, e precisa descobrir se ainda existe história. Quando uma personagem conclui seu arco, quando uma vingança se realiza, quando uma vilã encontra seu destino, o final reorganiza retrospectivamente tudo aquilo que assistimos. Continuar significa, de alguma maneira, desarrumar o fim.
Dito tudo isso, quero agora chegar no coração desse texto. Avenida Brasil 2 me parece um caso muito mais delicado (e muito mais fascinante) do que as experiências anteriores. Não estamos falando apenas de uma novela bem-sucedida, mas de um fenômeno cultural daqueles que ultrapassam a audiência e entram no repertório coletivo. Nina e Carminha, durante meses, foram praticamente duas parentes inconvenientes frequentando a casa dos brasileiros. O lixão virou território mítico, Tufão tornou-se uma categoria particular de ingenuidade masculina e aquela imagem de Carminha abandonada no lixão, depois de tudo que havia feito, ajudou a construir um encerramento que permaneceu na memória porque parecia concluir uma longa operação de vingança, culpa e redenção. Agora alguém resolveu abrir novamente o processo.
As informações divulgadas nesta semana indicam que João Emanuel Carneiro retomará esse universo com personagens centrais da primeira novela e novos conflitos, enquanto a própria Carminha voltará a ocupar posição decisiva na história. E é impossível não perceber que essa escolha representa um passo bastante ousado na experiência brasileira com continuações, porque agora não estamos apenas prolongando um universo, estamos mexendo numa memória afetiva gigantesca. A memória é uma das palavras que mais apareceram quando estudei serialização. Em Desperate Housewives, percebi como a narrativa dependia da memória do espectador para recuperar conflitos anteriores, compreender os ganchos e estabelecer relações entre histórias separadas por semanas ou meses. A própria recapitulação no início dos episódios funcionava como mecanismo para selecionar aquilo que precisávamos lembrar, enquanto os finais nos avisavam que determinadas histórias ainda não haviam terminado.
Avenida Brasil 2 terá um desafio parecido, só que ligeiramente mais cruel, não precisará recuperar nossa memória da semana passada, precisará negociar com uma memória construída há quase quinze anos e a memória afetiva costuma editar muito bem. A gente pode perceber que a Carminha esteja ainda melhor na nossa lembrança do que estava em 2012, que determinados personagens tenham adquirido uma dimensão que só o tempo produz, que tenhamos esquecido capítulos ruins, barrigas e histórias secundárias que não funcionaram e preservado apenas aquilo que transformou a novela num fenômeno. A continuação não disputará apenas com outras novelas no ar em 2027, mas com a com a Avenida Brasil que existe na nossa cabeça. Essa é uma concorrente perigosíssima.
Portanto, é muito fácil olhar para Avenida Brasil 2, Êta Mundo Melhor! ou Nos Tempos do Imperador e concluir que a televisão ficou sem ideias. É uma crítica tentadora, principalmente porque exige aproximadamente sete segundos de reflexão e cabe perfeitamente num post indignado. Durante décadas, o remake foi nossa principal forma de reencontrar uma novela. Contávamos novamente a história, com outros atores, outra direção, outro contexto e adaptações ao tempo presente. Acho que estamos diante de uma mudança na própria ideia de telenovela como obra fechada. É uma mudança enorme e, se der errado, teremos aprendido que algumas histórias precisam ter um fim.
Quase vinte anos depois, olho para a televisão brasileira e encontro a pergunta caminhando na direção contrária. As séries passaram anos aprendendo conosco que uma boa história precisa fazer o público querer saber o que acontecerá amanhã. Agora somos nós que parecemos estar aprendendo com elas que amanhã pode durar outra temporada inteira.
Só espero que ninguém tenha a ideia de Vale Tudo 3 antes de eu terminar esta coluna.