Existe uma regra silenciosa da televisão que talvez as novas gerações nem saibam que existe. Durante décadas, as telenovelas organizaram o hábito de milhões de brasileiros. A Globo entendeu cedo que, se “sanduichasse” suas novelas entre os telejornais, não estaria apenas organizando sua programação, mas organizando também o tempo doméstico dos brasileiros. O jantar (para mim, aquele horário da sopinha com a avó) começava enquanto a novela das seis ainda desenrolava seus primeiros conflitos, às sete, a família se reunia diante de uma história mais leve, muitas vezes acompanhada das crianças e, às nove, depois do Jornal Nacional, vinha o grande ritual coletivo, aquele em que cada um tinha um palpite sobre o vilão, uma torcida pelo casal principal ou uma teoria sobre o capítulo seguinte.
O horário da novela se tornava uma instituição da vida brasileira. Havia quem marcasse compromissos “depois da novela”, quem só fosse dormir quando subissem os créditos finais e quem organizasse a rotina da casa para não perder o capítulo. Antes de existirem algoritmos tentando prever nossos hábitos de consumo, a televisão já havia conseguido algo muito mais sofisticado, que era transformar uma obra de ficção em relógio social. A grade de programação da televisão aberta foi construída como um grande dominó. Um programa precisava entregar audiência para o outro, que precisava entregar para o seguinte, numa corrente contínua em que desligar a televisão parecia exigir um esforço maior do que simplesmente deixá-la ligada. Era um tempo em que o controle remoto ainda não era tão inquieto e em que o streaming atendia pelo nome de “esperar a reprise de sábado”.
Durante muito tempo, a novela das sete foi talvez a peça mais eficiente dessa engrenagem. Ela não carregava o peso histórico das novelas das seis nem a responsabilidade de discutir os grandes dilemas nacionais como as das nove. Seu compromisso era divertir. Era a faixa da leveza, da comédia romântica, das trapalhadas familiares, dos personagens extravagantes, dos casais improváveis e das histórias que permitiam ao espectador respirar antes do telejornal. Era também, curiosamente, a faixa mais livre da televisão brasileira. Foi ali que a Globo experimentou realismo fantástico, musicais, sátiras, aventuras medievais, romances policiais, histórias de época e até protagonistas que roubavam, mentiam e enganavam sem perder o carisma. As novelas das sete sempre pareceram um laboratório onde quase tudo era permitido, desde que o público tivesse vontade de voltar no dia seguinte. E ele voltava.
Embora eu não acredite que números do IBOPE sejam índice de sucesso de uma novela, mas Totalmente Demais, Haja Coração, Rock Story, Pega Pega, Bom Sucesso e, mais recentemente, Vai na Fé, transformaram o horário em um dos maiores consumos da faixa de horário na última década, frequentemente superando os 25 pontos de audiência e mostrando que havia, sim, um público disposto a acompanhar esse tipo de narrativa. Por isso, me parece precipitado dizer que as novelas das sete morreram. Acredito que elas tenham desaparecido. Em uma análise rápida poderia concluir que o streaming matou esse tipo de produto, que o público perdeu o hábito de assistir televisão ou que ninguém mais tem paciência para acompanhar histórias diárias. Mas, então, aparece Vai na Fé. depois aparece Dona de Mim, alcançando um dos melhores desempenhos da década, e a tese começa a balançar (não vamos usar o termo coincidência para dizer que ambas as novelas são da mesma autora…falo mais sobre isso logo mais). Acho que o problema nunca tenha sido o horário e sim a história. As críticas publicadas nas últimas semanas sobre Coração Acelerado são curiosamente parecidas entre si, quase todos apontam que o problema não estaria na produção, nem no elenco, muito menos na direção, mas no que costuma ser o coração de qualquer novela, o roteiro.
É difícil encontrar alguém que critique Isadora Cruz, Isabelle Drummond, Filipe Bragança ou Marcos Caruso. A sensação recorrente é que existe um bom elenco tentando convencer o público de uma história que ainda não decidiu exatamente o que quer contar. E já que estamos falando dela, vou até pegar minha linha para tricotar com vocês. Há um detalhe sobre Coração Acelerado que talvez seja apenas fruto da minha imaginação de noveleira (e faço questão de dizer isso antes que algum executivo da Globo resolva me mandar uma nota oficial). Mas a impressão que tive, desde os primeiros capítulos, é que a novela parece menos interessada em contar uma história do que em convencer o Brasil a gostar ainda mais de sertanejo. Não me entendam mal, por favor! Sei que música sempre fez parte da dramaturgia brasileira, mas em Coração Acelerado, tenho a sensação que a história parece consequência da música. Outra coisa, talvez eu esteja exagerando (vai saber!), especulo que não seja mera coincidência que a novela tenha sido batizada justamente de AC, as mesmas iniciais de Ana Castela, principal nome da nova geração do sertanejo e artista que simboliza exatamente esse universo que a novela tenta transformar em imaginário nacional (Pronto! Falei!). Mas, voltando, li uma crítica do Rodrigo Otávio, publicada no portal Heloisa Tolipan, que resumo um pouco sobre o motivo de AC (ops!) não estar dialogando bem com a audiência. Segundo ele, nada do que a novela faz parece produzir um verdadeiro impacto popular. Essa observação me chamou atenção porque esse é o grande problema da faixa das sete hoje. As novelas das sete sempre foram especialistas em criar personagens que escapavam da televisão e passavam a frequentar o cotidiano.
As Empreguetes, de Cheias de Charme, viraram um fenômeno musical. “Vida de Empreguete” tocava em festas, crianças decoravam a coreografia, o trio estampava camisetas e transformou uma história sobre trabalhadoras domésticas em um dos maiores sucessos populares da década. Fedora Abdala, em Haja Coração, elevou a figura da influenciadora digital ao delírio cômico muito antes de boa parte dos criadores de conteúdo entenderem a própria lógica das redes sociais, tornando-se fantasia de Carnaval e uma inesgotável fábrica de memes. Já Tancinha, interpretada por Mariana Ximenes na mesma novela, recuperou o sotaque ítalo-paulistano herdado da versão original de Sassaricando, fazendo expressões como “Apolo, seu lindjo!” escaparem da tela e invadirem as conversas do dia a dia. Antes delas, Totalmente Demais fez o país torcer por Eliza como se um concurso de modelos fosse assunto de interesse nacional. A lista é longa! Gostássemos, ou não dessas novelas, seus personagens deixavam de pertencer ao horário das sete para ocupar a cultura popular. Hoje, curiosamente, a nostalgia parece gerar mais engajamento do que as próprias novelas. A cena mais comentada envolvendo Coração Acelerado não foi uma reviravolta do roteiro, mas um vídeo dos atores cantando “Vida de Empreguete”. O passado mobilizou mais o público do que o presente.
A faixa das sete exige um equilíbrio dificílimo, quase uma matemática: ela precisa ser engraçada sem virar sitcom, romântica sem ser ingênua, popular sem ser simplória, ágil sem parecer apressada, leve sem renunciar à inteligência. Rosane Svartman foi quem mais se aproximou disso, com Vai na Fé, uma novela que discutia racismo, religião, mercado de trabalho, violência doméstica e desigualdade sem jamais esquecer que sua primeira obrigação era contar uma boa história. As pautas vinham porque os personagens existiam. Dito isso, posso afirmar, com toda a minha certeza novelística, que a faixa das 19h não está enfrentando uma crise de audiência e sim de identidade. Ok, a televisão brasileira mudou, assim como o público mudou e a forma de consumir histórias mudou. Mas as pessoas continuam querendo personagens memoráveis, continuam querendo rir, comentar o capítulo do dia seguinte, torcer por casais, odiar vilões…continuam querendo interromper o jantar para perguntar: “Você viu o que aconteceu ontem?”. No fundo, ninguém sente falta apenas de uma novela das sete, mas da experiência que ela produzia. Aquela sensação deliciosa de ligar a televisão sem grandes pretensões e, quarenta minutos depois, perceber que você já estava emocionalmente envolvido com a vida de pessoas que nem existem.
É curioso pensar que a Globo precise voltar a procurar justamente aquilo que um dia ensinou o país inteiro a fazer. A julgar pelas últimas tentativas, o anúncio continua valendo: procura-se a novela das 19h (que seja divertida sem ser boba, popular sem pedir desculpas por isso e, se possível, que nos faça esquecer, por alguns capítulos, que existe um controle remoto na sala).
Seria um desperdício deixá-la virar apenas uma boa lembrança. apenas uma boa lembrança.