Encenada pela primeira vez há 20 anos, na Suíça, a premiada peça “O DEUS DA CARNIFICINA”, da francesa Yasmina Reza, segue tão atual que poderia ter sido escrita ontem — e esse foi um dos motivos que levou a atriz Anna Sophia Folch a idealizar uma nova montagem do texto, que depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, se apresenta em Salvador pelo projeto Catálogo Brasileiro de Teatro.
Dirigido por Rodrigo Portella, o espetáculo é estrelado por Anna, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Ângelo Paes Leme. Na trama, dois casais de elite marcam um jantar após o filho de um dar uma surra no do outro, mas a aparente harmonia rapidamente vira caos. As apresentações acontecerão dias 21, 22 e 23 de Agosto no Teatro Casa do Comércio, com ingressos à venda, a partir do meio-dia, no Sympla.
Adaptado em mais de 30 países —em elencos com nomes como Isabelle Huppert, Ralph Fiennes e Jeff Daniels, na gringa, e Orã Figueiredo, Julia Lemmertz, Paulo Betti e Deborah Evelyn, aqui (em 2010, com direção de Emílio de Mello)—, o texto que reflete sobre os limites entre civilidade e barbárie também virou filme de Roman Polanski em 2011, com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly.
“O texto (com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro) trata de um tema universal, e achamos que seria interessante trazê-lo para cá de novo. É uma crítica a pessoas de uma determinada classe social que são aparentemente muito civilizadas, mas escondem várias outras camadas por baixo da superfície”, comenta Anna, que produz o espetáculo com Felipe Valle. “Pensando nisso, a gente convidou o Rodrigo para dirigir, porque ele tem uma visão muito apurada, cuidadosa e política do ser humano”.
Sem ter assistido à montagem anterior e com as lembranças da época da estreia do filme de Polanski, Rodrigo cita como referências para a adaptação os filmes “O anjo exterminador” (1962), de Luís Buñuel, e “Triângulo da tristeza” (2022), de Ruben Östlund. Para ele, a peça ajuda a refletir sobre a condição humana: — Tenho me envolvido em espetáculos que tentam complexificar o ser humano e olhar para os indivíduos como figuras extremamente contraditórias. Nesta peça, os personagens são maus e bons. Não dá para ser maniqueísta, é como um apelo contra a polarização.
Premiado pelo trabalho em peças como “Tom na fazenda” e “(Um) ensaio sobre a cegueira”, o diretor busca cumprir um papel: — Estou tentando fugir de uma ideia de que a essência humana é a barbárie. Se a gente naturaliza que o ser humano é violento, isso serve ao discurso de ódio e à banalização dessas ações.
UMA PANELA DE PRESSÃO
Toda a ação ocorre na sala de jantar de Verônica (Bianca Byington) e Michel (Thelmo Fernandes), casal cujo filho foi agredido. Ela, escritora, culta e estudiosa das mazelas da África. Ele, um cara simples que ascendeu por meio do trabalho. Do outro lado, estão os pais do agressor: a recatada Ana (Anna Sophia Folch), e o advogado inescrupuloso Alan (Ângelo Paes Leme), interpretados por atores que são um casal na vida real.
Cada um a sua maneira, os personagens passam por um arco de transformação, em que emergem conflitos que vão muito além da briga entre os pré-adolescentes — de insatisfações com as próprias escolhas de vida a problemas no casamento e acordos antiéticos no trabalho. Da cordialidade inicial, o encontro vai degringolando para uma tragicomédia com agressões verbais, físicas e até cenas escatológicas, que rompem de vez com qualquer decoro e civilidade.
Michel e Ana assumem uma postura mais conciliatória — que logo cai por terra —, enquanto Alan e Verônica são mais combativos e se preocupam em defender cada um o seu lado na discussão. Representando arquétipos sociais opostos, os dois têm alguns dos diálogos mais interessantes da peça. — São alegorias que representam os nossos maiores desafios. A humanidade ainda recorre muito à violência como ferramenta de resolução de conflito. Ao mesmo tempo, muita gente acredita que o diálogo é a melhor maneira de transformar as coisas. O Alan acha que o mundo não tem jeito, já a Verônica diz que a gente precisa acreditar numa melhora possível. Ela representa esse desejo de mudança a partir do diálogo — diz Karine Teles, que conta se identificar com esse traço da personagem.
Corroborando a visão de Rodrigo, Ângelo Paes Leme complementa: — Existe um empobrecimento do discurso e das próprias relações. Cada vez mais estamos tendo uma visão simplista que busca definir o bom e o mau, e que não enxerga o que está no meio. A peça ressalta que existem outras tonalidades. Se as pessoas tiverem uma leitura mais profunda do ser humano, levando em conta as contradições, a gente começa a aceitar melhor o ponto de vista do outro.
Enquanto os personagens revelam suas camadas escondidas, o patriarcado também surge como grande tema de reflexão, que permeia as relações entre eles, e especialmente a construção de identidade dos pais, que, descobrimos, também tiveram comportamentos violentos na época de escola. Em tempos em que a misoginia pode vir a ser enquadrada como crime no país e que conteúdos redpill tomam conta da internet, o elenco e o diretor, todos com meninos adolescentes em casa, contam que o texto gerou horas de conversa sobre a criação dos jovens. — Queremos que nossos filhos venham assistir a um ensaio para debatermos com eles. A ideia é estender a conversa para essa garotada que estamos nos esforçando para criar de uma maneira diferente — finaliza Anna.
“O DEUS DA CARNIFICINA” será realizada na Capital Baiana pela 26ª Edição do projeto Catálogo Brasileiro de Teatro, uma iniciativa do diretor artístico Fred Soares, realizada pela DaGente Produções. Com patrocínio do Shopping da Bahia e incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o projeto realiza por ano 20 espetáculos do eixo Rio e São Paulo em Salvador, além de ações de formação e difusão, sendo considerando o maior projeto de circulação teatral do país.