Em menos de um dia, morreram Laura Cardoso e Glória Menezes e, no meio da avalanche de homenagens, fotografias antigas, cenas recuperadas e frases inevitáveis sobre “o fim de uma era”, fiquei presa a uma pergunta que talvez não tenha resposta: o que acontece com a arte quando morrem os grandes artistas?
Não estou falando do destino das obras, porque essa é a resposta fácil. As novelas continuam disponíveis, os filmes podem ser revistos, as peças sobrevivem na memória de quem teve o privilégio de assisti-las e, no caso de duas atrizes que atravessaram praticamente toda a história da televisão brasileira, há material suficiente para que Laura e Glória continuem aparecendo nas nossas telas durante muito tempo. Estou pensando sobre o o que desaparece quando morre alguém, cuja presença ajudou a construir a própria linguagem, com a qual aprendemos a reconhecer uma personagem.
Não perdemos apenas duas atrizes, perdemos duas mulheres que começaram a trabalhar quando a televisão brasileira ainda estava aprendendo a ser televisão. Em 1959, quando Glória Menezes estreou aos 25 anos, Laura Cardoso já tinha experiência no rádio e estava havia sete anos na TV. As duas se encontraram em Um Lugar ao Sol, teleteatro exibido pela TV Tupi, numa época em que ninguém podia prever que aquela experiência ainda bastante artesanal se transformaria na maior indústria de dramaturgia televisiva da América Latina. Décadas depois, voltariam a dividir trabalhos, inclusive Rainha da Sucata, em 1990.
Quando elas começaram, não existia um manual dizendo como se interpretava para a televisão brasileira, como se construía uma mocinha de novela, como uma vilã deveria olhar para a câmera, quanto de teatro precisava desaparecer de um gesto para que ele funcionasse no enquadramento ou qual era o tamanho de uma emoção capaz de chegar à sala de uma família sem parecer pequena demais ou teatral demais. Essa gramática foi sendo criada enquanto elas trabalhavam.
Glória Menezes desenhou uma trajetória de mais de quatro décadas de novelas e construiu uma galeria impressionante de mulheres que ajudaram a modificar a representação feminina na televisão. Esteve em Irmãos Coragem, Pai Herói, Guerra dos Sexos, Rainha da Sucata, A Próxima Vítima, Torre de Babel, Senhora do Destino e tantas outras histórias que, quando colocadas em sequência, parecem menos uma filmografia do que uma retrospectiva da própria televisão brasileira. Também fez cinema e, logo no início da carreira, ganhou a única Palma de Ouro concedida até hoje a uma atriz brasileira em Cannes, por O Pagador de Promessas.
Laura fez outro caminho, igualmente extraordinário. Foram mais de cem trabalhos, mais de sessenta novelas e uma sucessão de mulheres que dificilmente poderiam ser confundidas umas com as outras. Laura tinha um talento particular para fazer desaparecer Laura. Podia ser a amarga e inesquecível Isaura de Mulheres de Areia, a Zoraide de O Beijo do Vampiro, a divertida Carmem de Chocolate com Pimenta, a mãe de A Viagem, uma mulher humilde, uma matriarca, uma vilã, uma senhora aparentemente frágil que cinco minutos depois seria capaz de destruir emocionalmente alguém com uma frase.
Fico pensando sobre como a morte de grandes atores provoca uma sensação diferente da perda de outras figuras públicas. Quando morre um ator que acompanhamos durante décadas, não morre apenas aquela pessoa que, na maioria das vezes, sequer conhecemos. Eu não conheci Glória Menezes, muito menos a Laura Cardoso, mas conheci as suas personagens. E essa é uma relação estranhíssima que apenas a ficção consegue produzir. Elas entraram na minha casa inúmeras vezes sem nunca terem recebido meu endereço, estiveram em salas onde minha família jantava, provocaram raiva, riso, torcida, indignação (algumas personagens chegaram antes de mim e eu conheci nas reprises).
Até antes de suas mortes, elas estavam ligadas a uma possibilidade. Laura Cardoso poderia voltar e Glória Menezes poderia aparecer novamente em uma novela. Poderíamos abrir uma notícia qualquer e descobrir que uma delas tinha aceitado uma participação especial, que voltaria ao teatro ou simplesmente que havia dado uma entrevista reclamando, com toda razão, da falta de bons papéis para mulheres mais velhas. A morte encerra essa possibilidade e transforma tudo o que existe em arquivo. Aliás, peço perdão, arquivo é uma palavra fria demais para determinadas coisas, porque Isaura não é um arquivo, Laurinha Figueroa não é um arquivo. Zoraide também não.
Numa profissão historicamente cruel com as mulheres depois de determinada idade, as duas continuaram existindo diante das câmeras quando a indústria já poderia tê-las empurrado para aquela categoria condescendente chamada “grande dama da televisão”, expressão que às vezes significa simplesmente “mulher maravilhosa para quem ninguém mais escreve personagens interessantes”. Laura, especialmente, desafiou essa lógica até quase o fim da vida. Continuou trabalhando depois dos 90 anos e esteve recentemente em Dona Rosinha, produção de 2025. Elas nos fizeram olhar para mulheres velhas, não apenas avós decorativas sentadas no canto da sala esperando o protagonista chegar para oferecer um conselho, mas mulheres capazes de desejar, manipular, sofrer, mandar, brigar, rir, guardar segredos e movimentar histórias.
E então, volto à pergunta inicial: o que acontece com a arte quando os grandes artistas morrem? Grandes artistas deixam marcas e a arte possui uma insolência diante da morte, em se recusar a obedecer à biologia. O corpo termina, a voz se cala, a possibilidade de uma nova personagem desaparece e, ainda assim, basta alguém apertar o play para que Laura Cardoso entre novamente em cena. Basta uma reprise para Glória Menezes voltar a levantar uma sobrancelha e nos convencer de que aquela mulher existe. Elas estarão eternamente jovens em algumas novelas, maduras em outras, velhas em outras tantas, mas continuarão brigando, apaixonando-se, sendo mães, vilãs, mocinhas, milionárias, mulheres pobres, engraçadas e insuportáveis.
É uma espécie de imortalidade bastante peculiar.
Os artistas morrem, mas as personagens simplesmente não recebem a notícia.