O Prêmio Jabuti 2026 coroou três autores ligados à Bahia na noite desta terça-feira (27), na Sala São Paulo, em São Paulo. O soteropolitano Ian Fraser venceu em Romance de Entretenimento com “Cartografia para caminhos incertos”, da Intrínseca. O também baiano Abáz levou a categoria Conto com “Massaranduba”, da Senac Rio. Também levou o prêmio a multiartista goiana radicada em Salvador Juliana Cajives foi a vencedora em Escritor Estreante – Poesia com “História a que ninguém deu nome”, da Mormaço Editorial.
A 68ª edição da principal premiação literária do país teve 23 categorias distribuídas em quatro eixos e 4.675 obras e projetos inscritos. O título de Livro do Ano ficou com Ruy Castro, por “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, da Companhia das Letras.
Ian Fraser vence Romance de Entretenimento com Cartografia
Nascido e criado em Salvador, Ian Fraser construiu um romance de realismo mágico ambientado em Redenção, cidade fictícia do interior baiano cujos limites são guardados por uma pedra enfeitiçada que a faz mudar de lugar — impedindo que qualquer invenção humana consiga localizá-la.
Publicado pela Intrínseca em 2025, o livro tem 192 páginas e acompanha Mané, um poeta que percorre o sertão. Antes dele, Fraser já havia publicado “O sangue é agreste”, “Noir carnavalesco” e a saga “Araruama”, além de “A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê”, finalista do Jabuti na mesma categoria.
A obra também foi adaptada para os palcos pelo próprio autor e recebeu o 28º Prêmio Braskem de Melhor Texto — um indicativo de que o texto circula para além da página.
Abáz leva Conto com Massaranduba e a periferia de Salvador
“Massaranduba” transforma em território literário o bairro onde Abáz cresceu, na periferia de Salvador. São 88 páginas de contos apoiados na oralidade, com histórias muitas vezes trágicas, contadas com humor e sarcasmo, em que esperança, fé e amizade se misturam a amores vividos e perdidos.
Formado em História pela UFBA e doutorando em Educação, Abáz é professor e começou a escrever ficção em agosto de 2024, em uma oficina literária. Em pouco mais de um ano, passou do primeiro conto ao Prêmio Sesc de Literatura 2025, na categoria Conto, com o mesmo livro — que agora chega ao Jabuti pela Senac Rio.
O caso é raro na premiação: um autor estreante, com um único título, vencendo duas das principais disputas literárias do país em edições consecutivas. A trajetória meteórica reforça um ponto que a crítica vem destacando: a periferia de Salvador deixou de ser tema para se tornar voz narrativa.
Juliana Cajives é a poeta estreante premiada
Juliana Cajives, multiartista goiana radicada em Salvador, venceu em Escritor Estreante – Poesia com “História a que ninguém deu nome”, publicado pela Mormaço Editorial, casa editorial baiana.
A vitória tem peso simbólico duplo: consagra uma poeta em início de trajetória e coloca uma editora independente da Bahia na lista de vencedoras do Jabuti, ao lado de nomes como Companhia das Letras, Intrínseca e Todavia.
Na mesma categoria, a lista de finalistas trazia Camila Paoletti, com “Lavra mareia”, e Kalu Coelho, com “O silêncio é a música mais antiga do mundo”, ambas pela Patuá — um retrato de como a poesia brasileira contemporânea se sustenta, hoje, em grande parte por selos independentes.
Ruy Castro é o Livro do Ano com Trincheira Tropical
O prêmio principal da noite ficou com Ruy Castro, jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras, por “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”. O livro reconstitui a capital federal da época entre espiões, torpedos alemães e a pressão do conflito sobre a vida cotidiana da cidade.
Castro, autor de “1968: o ano que não terminou”, também venceu na categoria Biografia e Reportagem. Ele morreu em 22 de setembro, aos 95 anos — o que deu ao troféu um tom de homenagem póstuma.
Entre os demais vencedores da noite estão Eliana Alves Cruz, em Romance Literário, com “Meridiana”; Humberto Werneck, em Crônica; Leo Cunha e Raquel Matsushita, em Infantil; e Luckas Iohanathan, em Histórias em Quadrinhos.
Por que a Bahia sai fortalecida desta edição
Três vitórias em categorias distintas de ficção e poesia não é um resultado casual. A edição de 2026 chegou à final com quatro representantes baianos: além de Abáz, Ian Fraser e Juliana Cajives, Itamar Vieira Junior concorreu em Romance Literário com “Coração Sem Medo”, e Claudio Leal também figurou entre os indicados.
O saldo é o de uma literatura que se organiza fora do eixo Rio–São Paulo com estrutura própria: editoras locais, oficinas de escrita, prêmios regionais que funcionam como etapa de lançamento e autores que circulam entre a academia, a sala de aula e a cena cultural.
Para Salvador, o efeito é direto. Um autor criado na periferia, uma poeta radicada na cidade e um romancista que transformou o interior baiano em geografia fantástica colocam três nomes baianos na principal vitrine do mercado editorial brasileiro no mesmo ano.