A imagem de Charles Darwin (1809-1882) que se consolidou foi a do cientista de barba branca, consagrado, associada à Teoria da Evolução. Mas, antes de ficar famoso, um Darwin de 20 e poucos anos viajou pela Patagônia, região localizada entre a Argentina e o Chile, a bordo do navio HMS Beagle. E é esse personagem que interessa a Marcio Pimenta, explorador brasileiro, baiano, que, quase dois séculos depois, refez sozinho 11 mil quilômetros percorridos pelo naturalista, biólogo e geógrafo britânico.
Realizada em 2023, a excursão científica, financiada pela National Geographic Society, deu origem ao livro ‘Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo’, publicado pela editora Solisluna. Após lançamentos em São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, agora é a vez de Salvador, terra natal do autor, recebê-lo.
Será no dia 8 de outubro (quinta-feira), às 18h30, na livraria Terra Libris (Cine Glauber Rocha). Haverá sessão de autógrafos e bate-papo com Marcio Pimenta, mediado pelo professor Charbel El-Hani, do Instituto de Biologia da UFBA, onde coordena o Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEFHBio). O evento é aberto ao público.
Estreia literária de Marcio Pimenta, a obra questiona o que acontece quando permanecemos tempo suficiente em um território para permitir que ele modifique nossa maneira de enxergar o mundo. Darwin oferece uma chave fundamental para essa investigação – mas não o especialista, e sim o rapaz que carregava dúvidas e uma extraordinária disposição para observar.
“Eu não queria encontrar o homem que já conhecia as respostas. Queria compreender o jovem que estava aprendendo a fazer as perguntas. Darwin atravessou aqueles territórios e saiu deles diferente. Essa transformação acabou se tornando uma das questões centrais da minha própria viagem”, explica o escritor, que deixou a carreira de economista para trás e passou a desenvolver projetos de exploração, documentação e narrativa em zonas de guerra, desertos, geleiras e regiões remotas.
Fotojornalista da National Geographic, Pimenta realizou diversos trabalhos transformadores para a revista e outros veículos de imprensa, mas a expedição que deu origem ao livro lhe proporcionou uma experiência ainda mais especial:
“Estive na guerra do Iraque e vi o terror. Na Antártica, a paz plena. Na Amazônia e no deserto do Atacama, a força da vida. Mas a Patagônia me ofereceu algo diferente. Foi a primeira vez que viajei tendo um personagem histórico como guia. Darwin não me mostrou o caminho; mostrou uma maneira de olhar. Estava presente o tempo todo, nas páginas de seus diários e nas perguntas que surgiam diante da paisagem. Em vez de buscar apenas o desconhecido, a expedição se transformou em um diálogo entre passado e presente. Foi uma forma diferente de explorar.”
Uma viagem através de diferentes tempos
Encontrando Darwin combina literatura de viagem, história da ciência e observação contemporânea. A narrativa acompanha simultaneamente duas jornadas separadas por quase dois séculos: de um lado, Darwin percorre a América do Sul entre 1832 e 1835 e registra aquilo que encontra em seus cadernos; do outro, Marcio Pimenta atravessa alguns desses mesmos territórios em 2023 e pergunta o que mudou e o que permanece.
A comparação conduz o livro para além da história da ciência tradicional. Povos originários aparecem não como personagens periféricos da passagem europeia pela região, mas como parte fundamental da história desses territórios. Geologia, colonização, ciência, memória e transformação ambiental passam a coexistir na mesma paisagem, fazendo com que a Patagônia deixe de funcionar apenas como cenário e se torne parte do próprio argumento da obra.
“Quando viajamos rapidamente, um lugar tende a permanecer como paisagem. Quando diminuímos o ritmo e começamos a observar, percebemos que estamos atravessando diferentes camadas de tempo ao mesmo tempo. Há aquilo que vemos, aquilo que aconteceu antes de nós e aquilo que nossa própria presença naquele lugar começa a modificar”, analisa o explorador baiano.
A experiência também transforma o próprio autor. A solidão, a incerteza, as decisões tomadas longe de qualquer rede de apoio e os limites físicos e emocionais de uma longa expedição aparecem na narrativa sem a construção heroica ou romântica tradicionalmente associada à exploração. Para Pimenta, essa mudança de perspectiva é uma maneira de reconsiderar o significado contemporâneo do ato de explorar.
“A exploração não precisa ser uma história de conquista. O mundo está amplamente cartografado, mas isso não significa que esteja inteiramente compreendido. Ainda existem perguntas novas a fazer sobre lugares conhecidos”, garante.