Antes das cores vibrantes, das galerias e das obras que chegaram a mais de 100 países, Romero Britto conheceu a fome. Na autobiografia A arte da felicidade, o artista plástico nascido em Recife relembra a infância marcada pela pobreza, incluindo momentos em que não havia comida em casa e até chegou a desmaiar na escola por falta de alimentação. Nesta publicação da Citadel Editora, o pernambucano percorre diferentes fases da própria trajetória e mostra como a arte esteve presente desde seus primeiros anos de vida.
Entre as lembranças da infância, estão as noites em que acompanhava a mãe e os irmãos para pescar na praia em busca de comida para a família. Foi também nesse cenário que começou a desenhar e se interessar por pintura e, aos 14 anos, vendeu seu primeiro trabalho para a Organização dos Estados Americanos (OEA). Com 17 anos, ingressou na faculdade de Direito, mas pouco depois partiu para uma temporada na Europa com o objetivo de ampliar o repertório. Nos anos 1980 muda-se para Miami com poucos recursos e um ateliê improvisado na sala de um apartamento, onde passou a desenvolver a linguagem que posteriormente o levaria ao reconhecimento internacional.
O livro reúne ainda bastidores de uma carreira que colocou o brasileiro em contato com algumas das maiores marcas e personalidades do mundo. Entre as histórias, estão a participação na campanha da Absolut, ao lado de Andy Warhol e Keith Haring, colaborações com empresas como Disney, Coca-Cola, Pepsi e IBM, além de encontros como o que teve com Muhammad Ali em um elevador de hotel e a amizade com Michael Jackson. Criador do Happy Art Movement, em 1992, Britto também revisita episódios polêmicos que ultrapassaram o universo das artes e tomaram as redes sociais.
A trajetória do autor também é apresentada como um exemplo de construção de carreira e visão empreendedora. No livro, ele compartilha decisões, mudanças de estratégia e aprendizados que ajudaram a transformar seu nome em uma marca global. Hoje, o ecossistema formado por suas marcas movimenta cerca de US$ 250 milhões por ano com a venda de obras de arte, produtos licenciados e itens de marca própria. Ao mesmo tempo em que algumas de suas telas e esculturas chegam a milhões de dólares, o artista mantém produtos autorais abaixo de US$ 100, estratégia que, segundo ele, permite ampliar o acesso à sua produção. Entre os episódios que ajudam a dimensionar essa transformação está a lembrança de quando vendia pinturas nas ruas de Miami por cerca de US$ 50 para conseguir se manter. Anos depois, uma obra dessa mesma série chegou a ser comercializada por US$ 1,5 milhão.
Mais do que uma retrospectiva de obras e exposições, A arte da felicidade inclui memórias de diferentes momentos de uma trajetória que passou por dificuldades, mudanças de país, reconhecimento internacional, amizades com celebridades e episódios de grande repercussão pública. Ao revisitar essas experiências, Romero Britto apresenta a própria visão sobre arte, sucesso e felicidade para mostrar como a linguagem de cores e formas que se tornou sua marca registrada nasceu de uma história muito diferente daquela que suas criações podem sugerir à primeira vista.