Em que momento um projeto de país se transforma em um projeto de poder? A pergunta atravessa a literatura da venezuelana María Elena Morán, que encontrou na escrita uma maneira de compreender a crise de seu país e questionar as próprias escolhas.
“O que aconteceu? Onde a gente errou?”, indagou a autora durante uma das mesas mais aguardadas do último dia da 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), no último sábado (7).
Ao lado da ruandesa Scholastique Mukasonga, radicada na França, Morán participou da mesa “Diásporas literárias – passagens e permanências”, na Tenda Paraguaçu, com mediação da pesquisadora Edma de Góis. Duas escritoras de trajetórias distintas, aproximadas pela experiência de viver longe de seus países e pela necessidade de revisitar histórias que continuam presentes em suas vidas.
A responsabilidade de quem acreditou
Morando no Brasil desde 2012, Morán cursava mestrado na PUC quando a crise política, econômica e migratória da Venezuela se agravou. Enquanto levava uma vida confortável, milhares de compatriotas atravessavam fronteiras em busca de sobrevivência.
A escritora contou que esteve entre os que acreditaram na revolução venezuelana e passou a carregar um sentimento de responsabilidade pelo fracasso daquele projeto.
“Eu me vi numa posição totalmente privilegiada, sendo que eu tinha ajudado a construir aquele fracasso”, confessou.
Autora de “Voltar a quando”, romance ambientado no auge da crise migratória, ela conta que a experiência do exílio transformou até sua relação com a língua. “Eu sempre falo que eu sou uma pessoa mais doce em português”, contou, ao comparar o espanhol a uma roupa recebida dos pais e o português a uma escolha construída ao longo da vida.
A memória como dever
Para Scholastique Mukasonga, a escrita nasceu da necessidade de preservar a memória dos familiares assassinados no genocídio de 1994, em Ruanda. Sua história de perseguição começou ainda em 1960, quando a família foi deportada para Nyamata, uma região de savana seca, habitada por animais selvagens e infestada de moscas transmissoras da doença do sono. Durante 34 anos, enfrentou humilhações, privações e massacres sucessivos.
“Éramos chamados de baratas”, lembrou, ao explicar como a desumanização dos tutsis preparou o caminho para o genocídio.
Refugiada na França, acompanhou pela televisão o massacre que matou 37 integrantes de sua família. Em “A mulher de pés descalços”, prestou homenagem à mãe, Stefania, de quem herdou o gosto pelas histórias contadas oralmente.
“Muitas vezes, ainda hoje, digo a mim mesma que sou mais uma contadora de histórias do que uma escritora”, afirmou, em tradução do francês.
Ao escolher escrever nessa língua, e não em quiniaruanda, Mukasonga buscou alcançar leitores de outros países. “Eu queria tirar Ruanda do isolamento em que nos haviam encerrado”, explicou.
Reconciliação e acolhimento
Provocadas por Edma de Góis a refletir sobre discriminação e xenofobia, as escritoras também falaram sobre reconstrução e acolhimento.
Mukasonga destacou o papel da justiça tradicional ruandesa na reconciliação entre vítimas e responsáveis pelos massacres, sem esconder que o sofrimento permanece. Todos os anos, o país realiza as cerimônias de memória do genocídio, conhecidas como Kwibuka (“Lembre-se”), para que as novas gerações conheçam a própria história.
Morán, por sua vez, reconheceu as dificuldades enfrentadas pelos migrantes venezuelanos em diferentes países, mas ressaltou a experiência brasileira. “Eu gostaria de deixar muito claro que o Brasil tem sido um dos países que melhor tem acolhido os venezuelanos”.
Em Cachoeira, as experiências das duas autoras mostraram que a literatura não elimina as perdas nem resolve as contradições do passado, mas permite que suas histórias sejam contadas, questionadas e transmitidas a quem vem depois.