Considero Tom Cruise um dos grandes atores de cinema. Com grandes papéis na carreira, como o de Ron Kovic (Nascido em 4 de Julho), Jerry Maguire (Jerry Maguire: A Grande Virada), Frank T.J. Mackey (Magnólia), além é claro de Ethan Hunt (da franquia Missão Impossível) e Maverick (da franquia Top Gun), dentre outros.
Mesmo interpretando esses personagens, o ator nunca ganhou o Oscar (sendo agraciado com uma estatueta pelo conjunto da obra, em 2025). Parece que isso vai mudar com Digger, novo longa de Alejandro González Iñárritu, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 1o de outubro.
Na trama, acompanhamos Digger (Cruise), um homem poderoso e bilionário responsável por cavar poços de petróleo para os Estados Unidos. Quando sua empresa é responsável por um acidente de proporções catastróficas, ele, ao lado do cientista Dr. Ganesh (Riz Ahmed) deve se encontrar com o presidente americano Compson (John Goodman) para evitar a tragédia (ou pelo menos livrar-se da culpa).
Acostumado a filmes mais duros como Bardo, Biutiful, O Regresso e suas grandes obras Babel, Amores Brutos e 21 Gramas, Iñárritu criar Digger como uma sátira, bem parecida com Birdman (A Inesperada Virtude da Ignorância). Há a a teatralidade na expressão exagerada dos atores e nos diálogos, muitas vezes gritados. O que muda é que, aqui, a sátira é puramente política – e, infelizmente, parece até algo possível de acontecer, com o absurdo que está o mundo atual. Com alguns elementos de loucura que lembram Dr. Strangelove – Como eu Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba, obra-prima de Stanley Kubrick.
O diretor também grava dezenas de cenas em plano sequência e duas, em especial, faz os atores brilharem. Uma em que Cruise tem que se explicar numa espécie de Parlamento europeu e outra na qual John Goodman sabe de uma determinada situação depois que ele faz uma cirurgia.
Aliás, não só Cruise e Goodman brilham. O elenco todo está afinado. Riz Ahmed, e ainda Sandra Hüller (uma espécie de Ricardo Darín da Alemanha), Michael Stuhlbarg (vice-presidente americano), Jesse Plemons (o pastor Kenny), Robert John Burke (o general Fitzgerald). Todos têm seus momentos.
Digger é cinema grande, de verdade. Iñárritu assume o risco da sátira política e sai vencedor, costurando o absurdo do mundo atual com a precisão de um relojoeiro e a fúria de quem entende que a tragédia e a farsa hoje caminham de mãos dadas.
E Tom Cruise, enfim, encontra o papel que faltava em sua trajetória: não o herói invulnerável das telas gigantes, mas um homem diante do desastre que ajudou a cavar (daí vem o título do filme, Digger, “escavador”, em inglês) e é nessa fragilidade que ele entrega a atuação mais madura e devastadora da carreira. O Oscar que a Academia lhe negou por décadas agora parece uma questão de calendário. John Goodman também certamente vai levar a estatueta para casa como Ator Coadjuvante. E Iñárritu mostra porque é um dos grandes diretores de sua geração (e também deve levar o Oscar).
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