A primeira imagem que aparece em Feito Pipa, longa nacional que estreia quinta, 5 de novembro, é uma pipa colorida desenhada por uma criança. Logo depois, conhecemos Gugu (o ator soteropolitano Yuri Gomes), uma criança que não esconde a própria homossexualidade e aparece com alguns acessórios colados no rosto, como uma espécie de maquiagem, dançando em sua casa. Nesses poucos segundos de filme, a desenvoltura de Gugu já nos conquista.
Na trama do longa, acompanhamos as relações de Gugu com a avó Dilma (Teca Pereira), os colegas de classe e o pai Batista (Lázaro Ramos) no interior do Ceará. E Feito Pipa foi o escolhido pela Academia Brasileira de Cinema como representante do Brasil na disputa por uma vaga em Melhor Filme Internacional no Oscar 2027, após ganhar prêmios em Berlim e Gramado.
Feito Pipa é, no fundo, um filme sobre duas pipas. Uma é o menino: colorida, levada pelo vento, feita para subir. A outra é o carro do pai de Gugu, que corta o sertão carregando água, a mesma pipa, só que de lata e de sede. Entre as duas, a corda: a mão de Dilma, que segura Gugu no chão enquanto a memória dela vai soltando o nó com a doença. É por isso que o filme dói sem nunca apelar.
Quando a avó começa a esquecer, o menino não perde o chão, descobre que vai precisar aprender a voar sozinho, e que aquele homem calado ao volante talvez seja a única corda que restou.
O diretor Allan Deberton (que já tinha feito o lindo Pacarrete, disponível na Netflix) filma essa descoberta com a delicadeza de quem entende que alegria de criança não é o contrário da dor: é o jeito que ela encontrou de continuar. E Yuri Gomes, com apenas 12 anos, o rosto pintado e um futebol inteiro no corpo, é a prova de que o cinema brasileiro ainda sabe fazer o espectador sair da sala querendo ser melhor, em uma atuação cativante. A pipa não pede licença ao céu. Ela só precisa de alguém que acredite no vento, e Feito Pipa acredita, com uma convicção que nenhum Oscar é capaz de medir.
Já o roteiro de André Araújo é um verdadeiro bálsamo para a alma, ainda mais por mostrar que Gugu não tem problema nenhum com relação à sua homossexualidade. Pelo contrário, ele é um garoto super seguro, divertido, audacioso e grande jogador de futebol. Claro que sofre bullying de colegas, mas sempre tem outros amigos que o defendem (a cena de uma espécie de interrogatório no colégio é hilária!). O que o longa deixa em dívida é a pressa na relação com o pai e o Alzheimer de Dilma. Com mais trinta minutos, os dois arcos respirariam. Com 90 minutos de filme, sobra a sensação de que tudo passou rápido demais.
Porém, terminar sem resolver tudo talvez seja uma grande virtude de Feito Pipa. Se o filme parece curto, é porque a infância na casa de uma avó que esquece também é. Dura o tempo de um verão, de uma partida de futebol, de uma pipa no ar antes de a linha ceder. Deberton não filma a doença da avó como sentença, filma o intervalo, os dias em que Gugu ainda pode ser inteiro, antes que o mundo exija que ele vire adulto de uma vez. O longa consegue a proeza de nos fazer querer assisti-lo novamente só para passar mais um pouco de tempo com aquela família. (fica a dica de que poderia se tornar uma série, hein?).