Depois de anos frequentando, criando e mediando clubes de leitura, posso dizer que muitas mulheres entram numa roda para falar sobre um livro e, em algum momento, descobrem que estão falando sobre elas mesmas. Não acontece porque alguém programou uma sessão coletiva de análise, muito menos porque existe qualquer obrigação de transformar literatura em terapia (Deus nos free de colocar mais uma função nas costas dos livros, que já precisam salvar a educação, melhorar o vocabulário, formar cidadãos, aumentar a empatia e, aparentemente, impedir o colapso completo da civilização ocidental).
Quem participa de clubes formados majoritariamente por mulheres conhece o momento quando o livro deixa de estar no centro da roda sem jamais ter saído dela. Tenho pensado muito nisso porque já escrevi aqui sobre o crescimento dos clubes de leitura, sobre a importância de ler coletivamente e sobre o quanto conversar sobre um livro modifica nossa experiência com ele. Mas existe uma dimensão desse fenômeno que me interessa cada vez mais e que talvez explique por que tantas mulheres não apenas participam desses grupos, como os criam, organizam, sustentam e fazem deles uma parte importante de suas vida. As mulheres, como sempre, sábias mulheres, entendem que a leitura pode ser também uma tecnologia de encontro.
Os números ajudam a mostrar que não se trata apenas de uma impressão de quem frequenta essas rodas. Um levantamento citado pelo projeto Literatura Brasileira no XXI, que mapeou 382 ações de incentivo à leitura espalhadas por 24 estados brasileiros, descobriu que mulheres lideravam 74% delas. O mesmo material apontava mulheres como maioria entre leitores e compradores de livros. Em outra frente, uma reportagem recente sobre a expansão dos clubes de leitura aponta crescimento de 35% dessas iniciativas nas últimas décadas, justamente enquanto os indicadores nacionais mostram retração no número de leitores. O grupo “Leia Mulheres”, criado no Brasil em 2015 a partir do movimento internacional #ReadWomen2014, começou com encontros em São Paulo se espalhou pelo país e já registra mais de 400 mediadoras distribuídas por mais de cem cidades brasileiras e do exterior. É evidentemente uma história sobre circulação da literatura escrita por mulheres, sobre cânone, mercado editorial e representatividade, mas também é uma história sobre uma capacidade impressionante de organização em torno da conversa.
Falando em conversa…nós nos acostumamos a tratar a conversa como aquilo que acontece quando nada mais importante está acontecendo, aquele intervalo simpático entre uma obrigação e outra. Entretanto, boa parte da vida emocional humana depende justamente dessa atividade aparentemente improdutiva de sentar diante de alguém e dizer o que aconteceu conosco. Mulheres sabem disso há bastante tempo, ainda que historicamente esse saber tenha sido usado para nos diminuir. Mulheres “falam demais”, mulheres “fofocam”, mulheres “contam tudo umas às outras”, mulheres “fazem drama”, mulheres passam horas no telefone, mulheres precisam conversar sobre a relação. Há um repertório inteiro de piadas construído em torno da ideia de que nós temos uma necessidade quase patológica de transformar experiência em palavra. Não estou romantizando uma suposta natureza feminina comunicativa, como se nascêssemos geneticamente programadas para formar uma roda, servir café e compartilhar sentimentos enquanto os homens recebem no nascimento o cromossomo do silêncio (isso seria apenas trocar um estereótipo por outro). Mulheres aprendem a conversar porque constroem espaços onde determinadas conversas são possíveis, assim como homens são frequentemente socializados para evitar vulnerabilidade, sobretudo diante de outros homens. A diferença não está numa essência feminina misteriosa, mas nas permissões que aprendemos a dar umas às outras. Um clube de leitura oferece uma permissão extraordinária de pode falar de si sem precisar começar falando de si.
É muito mais fácil perguntar “por que essa mulher não foi embora?” quando estamos falando de uma personagem. O problema é que, depois de quarenta minutos discutindo a personagem, alguém percebe que conhece uma mulher que também não foi embora ou outra percebe que já foi essa mulher, uma terceira lembra que perguntou exatamente a mesma coisa a uma amiga sem compreender o medo, a dependência financeira, os filhos, o afeto, a vergonha, a esperança absurda de que alguém mude. Quando percebemos, aquela personagem que vivia confortavelmente dentro de duzentas páginas trouxe para a mesa violência doméstica, casamento, dinheiro, maternidade, desejo e culpa. Sem PowerPoint. A literatura tem essa deselegância maravilhosa de entrar pela porta dos fundos.
E tenho visto isso acontecer muitas vezes e, por isso, que me incomoda um pouco quando clubes femininos de leitura são descritos apenas como espaços de “acolhimento”. Eles são. Porém, acolhimento virou uma palavra tão dócil que às vezes parece significar almofadas confortáveis, chá e ausência absoluta de conflito. Gente, uma roda de mulheres falando sinceramente sobre suas vidas pode ser tudo, menos dócil. Ela pode ser, na verdade, profundamente desorganizadora. Esses encontros fazem emergir conversas sobre extremismo, consumismo, identidade feminina e política, ao mesmo tempo em que constroem vínculos afetivos, sensação de pertencimento, e aquilo que uma mulher não conseguia dizer sozinha pode aparecer numa conversa coletiva provocada por uma leitura. A literatura não entrega necessariamente essas respostas, ela cria condições para que as perguntas apareçam.
































Foi exatamente essa experiência que comecei a entender, na prática, com o Beer and Book. Quando criamos o clube, em 2022, havia uma ideia muito simples por trás dele que era reunir mulheres que gostavam de ler, mas que também queriam se divertir juntas, colocar o livro no meio de uma mesa de bar, pedir uma cerveja e conversar sem transformar a literatura em cerimônia ou prova de conhecimento. Queríamos falar sobre os livros, claro, mas também queríamos falar sobre nós, rir, discordar, contar histórias, fazer daquele momento um intervalo na rotina. O que eu não imaginava era a proporção que isso ganharia. A mesa cresceu, chegaram mulheres que não se conheciam, depois vieram outras, e outras, e aquilo que começou como um encontro em torno de uma leitura foi produzindo relações que já não cabiam apenas no dia do clube. Nasceram amizades, redes de apoio, viagens, comemorações, confidências, uma vontade genuína de estar juntas e, sobretudo, novas formas de enxergar questões que cada uma talvez tivesse passado a vida inteira olhando apenas do seu próprio lugar. E o mais interessante é que essas conversas não acontecem porque eu, como mediadora, decido previamente onde devemos chegar. Meu trabalho é construir os caminhos, formular perguntas, provocar incômodos, recuperar passagens e perceber quando uma questão aparentemente literária abriu uma porta que merece permanecer aberta. A partir daí, cada mulher traz para a mesa aquilo que sua própria história lhe permite enxergar naquele livro, e é nesse cruzamento que uma leitura se torna muitas.
O Beer and Book não cresceu apenas em número de mulheres, de encontros ou de livros lidos; crescemos umas diante das outras. E tudo isso acontece entre uma cerveja, uma gargalhada, uma discordância e outra. Há pensamentos muito sérios que nascem com um copo na mão e uma amiga dizendo: “menina, eu nunca tinha pensado nisso desse jeito.” Há, também, algo igualmente bonito no fato de mulheres reservarem tempo para isso, uma vez que o tempo feminino sempre foi extraordinariamente disponível para os outros, para o trabalho, para os filhos, para companheiros, para pais envelhecendo, para tarefas domésticas, para resolver o problema que ninguém percebeu que existia até que alguma mulher o resolvesse. Uma mulher compra um livro, combina um encontro, senta com outras mulheres e passa duas horas falando sobre literatura, nada explode, nenhum governo cai, o capitalismo continua funcionando normalmente na manhã seguinte. Durante algumas horas, pensamos juntas sobre aquilo que normalmente tentamos resolver sozinhas.
O livro importa profundamente, mas ele não encerra a experiência, por isso, quando vejo uma roda de mulheres discutindo um romance, já não consigo enxergar apenas um clube de leitura. Vejo mulheres fazendo uma coisa que durante muito tempo lhes foi negada de diferentes maneiras, ou seja, elas podem produzir interpretações sobre o mundo a partir da própria experiência e reconhecendo a experiência umas das outras como conhecimento.
E, quando mulheres começam a dar nome ao que vivem, fica um pouco mais difícil convencê-las de que aquilo que sentem é apenas problema delas.