Perder peso e, ainda assim, perceber que as pernas e os quadris continuam volumosos e desproporcionais em relação ao restante do corpo pode gerar dúvidas, especialmente quando o emagrecimento já é perceptível em outras regiões. Em alguns casos, essa diferença pode estar relacionada ao lipedema, condição caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente nos membros inferiores, que pode vir acompanhado de dor, sensibilidade, sensação de peso e facilidade para apresentar hematomas.
Para a médica Talita Lelis, que possui mais de 15 anos de atuação, formação em Obesidade e Emagrecimento pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pós-graduação em Nutrologia, Medicina e Gestão em Saúde, a persistência dessa desproporção após o emagrecimento precisa ser observada dentro de um contexto clínico, principalmente quando existem outros sintomas associados. À frente do Núcleo Dra. Talita Lelis, em Salvador, a médica desenvolve um trabalho voltado à saúde metabólica e hormonal e à composição corporal feminina.
“Quando uma mulher emagrece, reduz medidas no tronco, mas continua com as pernas desproporcionais, doloridas ou com hematomas frequentes, não devemos simplesmente dizer que ela precisa emagrecer mais. Precisamos investigar. O corpo pode estar sinalizando uma condição que exige um olhar clínico específico”, explica a médica.
Diferentemente do que acontece com a gordura corporal associada ao ganho de peso, o tecido adiposo afetado pelo lipedema pode apresentar uma resposta diferente ao emagrecimento. Por isso, mesmo quando há redução significativa do peso corporal, a proporção entre tronco e membros pode permanecer alterada. Isso não significa, entretanto, que toda dificuldade para reduzir medidas nas pernas seja provocada pela condição.
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico e considera a história da paciente, os sintomas e as características identificadas durante a avaliação. A distribuição desproporcional de gordura, isoladamente, não é suficiente para caracterizar a doença.
De acordo com o Consenso Brasileiro de Lipedema, o tratamento deve ser individualizado e pode envolver mudanças no estilo de vida e na alimentação, atividade física e acompanhamento multidisciplinar, entre outras estratégias definidas de acordo com as necessidades de cada paciente.
“A avaliação médica é fundamental não apenas para identificar o lipedema, mas também para diferenciá-lo de outras condições que podem provocar aumento de volume nos membros inferiores. O objetivo é entender o que está acontecendo com aquela paciente e, a partir disso, definir uma estratégia adequada para o caso”, destaca Talita.
Quando as tecnologias podem fazer parte do cuidado corporal
Durante o acompanhamento, alguns pacientes também podem apresentar queixas associadas, como flacidez, celulite, alterações na qualidade da pele, gordura localizada e mudanças no contorno corporal. Nesses casos, tecnologias podem ser incorporadas ao planejamento como recursos complementares, desde que exista indicação individualizada.
Entre as opções utilizadas está o Unyque Pro, tecnologia não invasiva que combina a emissão de radiofrequência para o aquecimento controlado dos tecidos com outras terapias simultâneas voltadas ao tratamento corporal e facial. A tecnologia, que ganhou visibilidade também por ser utilizada por famosas como Virgínia Fonseca e Bruna Biancardi, pode ser indicada para diferentes queixas relacionadas à flacidez, celulite, qualidade da pele e contorno corporal.
Outra possibilidade são tecnologias a laser, incluindo o endolaser, que pode ser utilizado em protocolos médicos para atuar em regiões específicas e nos tecidos subcutâneos. A indicação depende das características de cada paciente, da avaliação médica e do objetivo estabelecido para o tratamento.
Talita ressalta, entretanto, que esses recursos não devem ser apresentados como tratamento da causa do lipedema. “As tecnologias podem ser interessantes quando existem queixas corporais associadas, como flacidez, celulite ou alterações de contorno, mas não substituem o acompanhamento clínico e multidisciplinar do lipedema. É importante separar essas duas coisas para que a paciente tenha expectativas adequadas e receba um cuidado direcionado às suas reais necessidades”, explica.
Atendimento médico e diagnóstico
Diante de uma diferença persistente entre as medidas do tronco e dos membros inferiores, especialmente quando acompanhada de dor, sensibilidade, sensação de peso ou hematomas frequentes, a recomendação é buscar avaliação médica. A investigação permite identificar se as alterações estão relacionadas ao lipedema ou a outras condições e estabelecer uma estratégia de acompanhamento individualizada.
Para Talita, reconhecer esses sinais também ajuda a evitar que mulheres convivam durante anos com os sintomas acreditando que a única solução é perder mais peso. “O emagrecimento pode fazer parte do cuidado com a saúde e a composição corporal, mas não podemos reduzir todas as alterações do corpo ao peso. Quando existem sinais que fogem do esperado, precisamos investigar e compreender o que aquele corpo está mostrando”, reforça.