Entre julho e agosto de 2026, Paris recebe o Brésil à La Samaritaine – Bold Summer Edition, ocupação dedicada à produção criativa brasileira. Instalado no Atrium central e em espaços reservados a convidados e clientes de um dos mais emblemáticos destinos de luxo de Paris, o projeto reúne moda, design, arte, gastronomia, arquitetura e beleza em uma programação que acompanha o verão europeu.
A proposta nasce de uma constatação simples: parte da produção brasileira recente tem deslocado o olhar internacional sobre o país. Menos associada ao exotismo e mais ligada à construção de linguagem e ao legado modernista, essa produção aproxima sofisticação e informalidade, rigor e liberdade, artesania e circulação internacional. Na moda, isso aparece em roupas e acessórios que refletem um comportamento. No design e na arte, surge no uso de materiais, no desenho dos objetos, na pesquisa de superfícies e na relação entre interiores, cidade e paisagem.

A curadoria de arte e design parte do modernismo brasileiro como eixo central do projeto. A seleção reúne artistas e designers que reinterpretam esse legado a partir de práticas ligadas ao design colecionável, às artes visuais e aos métiers d’art. O interesse está na maneira como cada participante traduz esse repertório em materiais, processos e escalas distintas: fotografia, cerâmica, papel, metal, fibras, pedra, mobiliário e instalação.
A seleção reúne marcas de moda, acessórios, gastronomia e beleza como Lapima, La Sirène, FARM Rio, Água de Coco, Insider, Glorinha Paranaguá, Venera, Viv Beauty, Manolita, Missinclof, Vehr, Granado, Phebo e Dengo, ao lado de artistas e designers brasileiros como Jay Boggo, Maximiliano, Papelaria, Maritza Caneca, Fernanda Froes, Lilian Malta e Pedro Yossef. Ao longo da temporada, estão previstos encontros, ativações, experiências privadas e conteúdos editoriais voltados aos universos da moda, gastronomia, design e cultura.

A escolha da La Samaritaine não é casual. Reaberta em 2021, após mais de quinze anos fechada para restauração, a loja retomou sua posição como um dos principais destinos do varejo de luxo parisiense ao combinar marcas internacionais, gastronomia, hospitalidade e programação cultural em um mesmo endereço, entre o Sena e a Rue de Rivoli. Integrante do grupo LVMH, tornou-se também um espaço para projetos ligados à arte e ao lifestyle.
Renovação
A Samaritaine, ícone parisiense fundada em 1870 por Ernest Cognacq e Marie-Louise Jaÿ, reabriu em 2021 após um amplo processo de renovação conduzido pelo grupo LVMH. Fechada desde 2005 por questões de segurança, a loja passou por uma restauração que devolveu vida ao edifício histórico Art Nouveau e Art Déco, preservando elementos como a verrière, a escadaria monumental, a fachada em lave émaillée e a grande pintura dos pavões.
O projeto marcou também uma atualização urbana e arquitetônica: além da recuperação patrimonial, a Samaritaine ganhou um novo edifício contemporâneo na rue de Rivoli, assinado pelo escritório japonês Sanaa. A reabertura reposicionou o grand magasin como uma destination parisienne de 20 mil m², reunindo moda, beleza, joalheria, gastronomia, serviços personalizados, hotel, escritórios, habitação social e creche, em diálogo entre memória histórica e experiência contemporânea.
O Brasil entra nesse contexto por um caminho particular. O projeto parte de uma produção que historicamente aprendeu a trabalhar sofisticação sem rigidez, combinando cultura erudita e popular, desenho e improvisação, formalidade e cotidiano. Essa leitura aparece na roupa pensada para o corpo em movimento, no objeto ligado ao uso, na cor relacionada à luz e ao ambiente, e em uma ideia de elegância construída mais pela maneira de usar do que pela formalidade.
Arte e design: o modernismo brasileiro reinterpretado
Na curadoria de arte e design, esse recorte ganha forma por meio de artistas e designers brasileiros cuja produção atravessa mobiliário, objeto, cerâmica, superfície, imagem e instalação. Maximiliano participa com peças que partem do mobiliário, mas se aproximam da escultura. Em parceria com o ateliê criativo Papelaria, o designer apresenta uma intervenção sobre a cadeira Giancarlo, revestida com um papel resistente à água e às intempéries, tratando o mobiliário como uma superfície a ser vestida.
O ateliê Papelaria, fundado por Fabiola e Christian Pentagna, também assina um paisagismo em papel concebido como um jardim tropical. A instalação aproxima cenografia e natureza reinterpretada, ao mesmo tempo em que reafirma o papel como matéria autônoma, trabalhada por meio de dobras, cortes e construções de caráter escultórico.
Maritza Caneca desenvolve uma intervenção cenográfica a partir de azulejos de piscinas, elemento recorrente em sua pesquisa. A artista, que construiu uma trajetória de três décadas como diretora de fotografia antes de se dedicar às artes visuais, trabalha a piscina como espaço de memória, geometria e reflexão, criando uma relação direta entre arquitetura modernista, cor, superfície e imagem.
Jay Boggo apresenta trabalhos que cruzam objeto e construção manual, em diálogo com repertórios da moda e da cultura visual. Com o Banco Cacau, criado originalmente em 2023 e agora desenvolvido em pedra em parceria com a Maqstone, o artista e designer traduz formas orgânicas em uma peça de presença escultórica, produzida em edição limitada de oito exemplares numerados.
A curadoria inclui ainda a instalação Utopia Botânica, de Fernanda Froes, desenvolvida a partir de pesquisas com fibras e pigmentos ligados à história material do Brasil; obras de Lilian Malta, cuja produção em Bone China explora os limites da cerâmica entre técnica, controle e experimentação; e Float, de Pedro Yossef, instalação situada entre joalheria, objeto e escultura, na qual o metal é trabalhado em relação com leveza, deslocamento e presença espacial.