A literatura baiana vive um momento particularmente interessante e talvez uma das suas maiores virtudes esteja justamente na forma como ela tem olhado para o próprio território. Há uma produção cada vez mais consistente de autores e autoras que optam por narrar uma Salvador de forma contraditória, sensorial e política. Hoje, felizmente, há uma geração que escreve a cidade, ou a Bahia, de dentro para fora.
Itamar Vieira Junior tem reafirmado, livro após livro, sua capacidade de escrever uma Bahia que não se oferece como paisagem contemplativa, mas como estrutura de conflito e memória. Em Coração Sem Medo, assim como já acontecia em sua obra anterior, o território aparece como força que organiza subjetividades, relações de poder e ancestralidades. Bethânia Pires Amaro, em Ressalga, segue caminho semelhante, com uma cidade feminina e urbana, uma escrita que transforma a Ladeira da Montanha em personagem. E, num momento de honestidade criticamente suspeita, mas que esta coluna certamente me permite, arrisco incluir o meu primeiro romance, O Fiasco, nessa conversa. Fino Fiasco, personagem principal, sobrevive na Avenida Carlos Gomes, um pedaço de Salvador que já viveu seus momentos de glória.
Ladeira da Preguiça, de Evanilton Gonçalves, se revela potente nessa trajetória. A história acompanha Adelaide Presepeira e Zigue, figura errante, afetiva e inquieta, cuja presença reorganiza a percepção sobre a cidade. Iniciamos a história com Adelaide descendo a Ladeira da Montanha em direção à fonte, em um gesto cotidiano de buscar água, situando a personagem dentro de uma cidade marcada por desigualdades materiais e por uma geografia profundamente social. Zigue e Adelaide, um casal que se encontra no afeto, mas também no esquecimento social, se abrigam em um dos casarões abandonados das mediações da Preguiça e fazem daquele lugar o seu modo de se relacionar com a cidade.
O romance passa a discutir a própria Ladeira da Preguiça como território tensionado, no qual o bairro aparece como espaço historicamente negligenciado, marcado pelo abandono do poder público, pelo esvaziamento urbano e pela tentativa recorrente de apagamento de comunidades populares em nome de projetos de cidade que privilegiam a reorganização estética dos espaços centrais. Importantes personagens são responsáveis por essa tintura política dada ao romance, como o Milton, articulador comunitário e ativista, que mobiliza moradores em defesa da permanência e da revitalização da comunidade, e Cíntia, que enxerga na arte uma possibilidade de ocupação e pertencimento daquele lugar.
Evanilton Gonçalves constrói uma Salvador como uma experiência sinestésica, com textura, som, temperatura, densidade atmosférica. A sensação é ser estar sendo arrastado para dentro de uma cidade que se impõe pelos sentidos, como Salvador invariavelmente faz com quem vive nela. Sendo soteropolitana, talvez eu tenha me conectado de maneira especialmente imediata com isso, porque quem vive aqui sabe que Salvador nunca foi uma cidade horizontal (nem física, nem simbólica). Existe sempre uma subida a vencer, um desvio a calcular, um corpo que precisa negociar com a topografia e Evanilton transforma a geografia em sensação.
Mas, talvez, o elemento mais sofisticado dessa construção sensorial seja a água. Desde as primeiras páginas, a água não é apenas uma necessidade prática. Adelaide atravessa a cidade em direção à fonte da Preguiça e essa travessia carrega uma dimensão quase ritualística. A água aparece como alívio físico contra o calor, como recurso de sobrevivência, mas também como memória ancestral – não é por acaso que o romance retorna a ela tantas vezes. Em Salvador, e sobretudo numa narrativa com sensibilidades afrocentradas, a água purifica, convoca e conecta. Não posso esquecer como o cheiro está presente na leitura: o sal do mar, a umidade das pedras, o suor, a rua, a água doce da fonte contrastando com a cidade quente.
“A Ladeira da Preguiça formava uma espécie de ilha em pleno centro da velha Salvador. Não havia barreiras em seus acessos, e sim um bloqueio invisível, uma espécie de comunicação de medos que limitava a entrada das pessoas da própria cidade. Era preciso superar tudo isso para ver a ladeira vibrar e revelar por si mesma. Cercada de construções luxuosas erguidas lá em cima, entre a rua Chile e a Praça Castro Alves, e de vizinhos ricos na parte de baixo, a região sentia as pressões das disputas territoriais” – p. 24
Se me fizerem aquela pergunta básica (e rasa) “sobre o que fala esse romance? Tem uma tese central? Arriscaria a dizer que não, mas é inegável que ele deixa algumas perguntas: A quem pertence a cidade? Quem tem legitimidade para ocupar determinados territórios?
O que Ladeira da Preguiça nos leva a entender é que pertencimento não está ligado apenas ao afeto. É também uma disputa política. Evanilton questiona sobre quem tem o direito de permanecer numa cidade que frequentemente decide que certos corpos já não combinam mais com determinadas paisagens. Sendo soteropolitana, essa leitura me incomoda, mas não posso deixar de dizer que é real.
A Ladeira da Preguiça não é uma periferia distante, isolada da cidade oficial, escondida num canto improvável, ao contrário, ela está incrustada numa das geografias mais simbólicas de Salvador: entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, colada na Praça Castro Alves, próxima ao bairro 2 de Julho, de frente para a Baía de Todos os Santos e vizinha de estruturas de alto padrão como a Bahia Marina e o Trapiche Residence. A Ladeira existe num lugar profundamente desejável do ponto de vista imobiliário, mas historicamente indesejado quando o assunto é a permanência de seus moradores.
O romance de Evanilton é antes de tudo uma denúncia de uma área inserida no Centro Histórico, território de valor simbólico e econômico, que e, ainda assim, tem sido tratada durante décadas como ruína tolerável e seus habitantes como invisíveis. O debate recente sobre a elitização daquela região apenas escancara algo que o romance nos apresenta: certos projetos urbanos não removem pessoas com tratores, mas com abandono estratégico. Primeiro vem o esquecimento, depois a degradação, depois a narrativa de que aquele lugar “precisa ser recuperado” e, curiosamente, quase nunca se pergunta para quem está sendo recuperado. Como uma leitora que conhece Salvador, reconheço perfeitamente esse mecanismo perverso. Já diz a BaianaSystem, “tirem as construções da minha praia, não consigo respirar…”
É gosto ler essa reflexão no romance, pois ela não vem pronta ou de forma panfletária. Ladeira da Preguiça expõe pelas experiências dos personagens, da forma como todas as aquelas pessoas são colocadas à margem. A marginalização, aliás, aparece como mecanismo mais amplo de invisibilização. Adelaide é marginalizada pela forma como sua existência se torna funcional à cidade sem jamais ser plenamente reconhecida por ela. Zigue aprofunda essa reflexão, pois é um personagem que parece carregar liberdade e vulnerabilidade no mesmo gesto – o que me parece uma construção particularmente inteligente porque a cidade tolera sua circulação até decidir não tolerar mais. Já o Milton, encarna a luta pelo direito à permanência como ação coletiva.
Ele compreende que pertencimento é legitimidade territorial. Assim como Cíntia, que representa uma geração que se relaciona com a cidade por outras linguagens, entendendo a reinvenção dos espaços pelo encontro e presença. No fundo, cada personagem responde de forma diferente à pergunta central do romance: quem tem direito à cidade? Adelaide responde com o corpo, Zigue com a circulação, Milton com a luta política e Cíntia com a reinvenção cultural. Ao reunir essas experiências, o romance desassocia a ideia de que pertencimento urbano se define pela propriedade, por viver no local.
E, claro, sendo Salvador, esse romance não poderia nos deixar apenas na esfera do político, sensorial e espiritual sem nos empurrar também para o profano, afinal poucas cidades entendem com tanta naturalidade essa convivência entre o sagrado e a cerveja morna, entre a reza e o flerte, entre a ancestralidade e a completa falta de juízo de um uma ladeira em festa. Ladeira da Preguiça, assim como a própria Salvador, não se explica apenas pelos seus conflitos, ela também se revela no encontro improvável, nos corpos que circulam quando a formalidade finalmente baixa a guarda. Por isso, não surpreende que a narrativa nos conduza às festas de largo, a essa pedagogia muito baiana de transformar rua em território de convivência e performance social.
E talvez nenhum símbolo traduza melhor essa ironia do que o tradicional Banho de Mar à Fantasia da Ladeira da Preguiça, aquele momento em que as fronteiras sociais, pelo menos aparentemente, se embaralham sob o pretexto da celebração. Durante boa parte do ano, determinados corpos e territórios são tratados com desconfiança, medo ou, no melhor dos casos, invisibilidade. Mas, ao ganhar status de evento desejável, o mesmo espaço se torna palco de circulação elegante, curiosa e até performaticamente democrática. A ironia está justamente aí: quando a elite finalmente encontra, sem escolta, aqueles corpos e territórios que durante o resto do ano preferia imaginar à distância, enquadrados pela lente da decadência, do perigo ou da conveniência urbanística.
E é curioso pensar que talvez seja exatamente ali, entre suor, fantasia improvisada e maquiagem já derretendo sob o calor, que a cidade experimente seu raro momento de ocupação verdadeiramente compartilhada. Pela primeira vez, ainda que sob o verniz carnavalesco, todos parecem ocupar exatamente o mesmo território. Ainda que, como toda boa ironia soteropolitana, a manhã seguinte trate rapidamente de reorganizar quem volta para onde e qual cidade cada um acredita legitimamente lhe pertencer.