Mais do que reconhecer uma solução arquitetônica, o 3º Prêmio PROJETO de Arquitetura destacou uma maneira de pensar e fazer arquitetura que parte da cidade real. Vencedor na categoria “Infraestrutura e Desenho Urbano”, o projeto de ocupação das áreas livres sob os viadutos do BRT de Salvador, desenvolvido pelo Sotero Arquitetos, escritório liderado por Adriano Mascarenhas, chamou a atenção do júri justamente por propor uma transformação possível para espaços que, historicamente, tendem a permanecer ociosos ou degradados.
Para Fernando Mungioli, diretor da Revista Projeto, o principal diferencial da proposta está em seu caráter público e propositivo. “É uma proposta que foi levada ao poder público como uma ideia para a ocupação daqueles espaços, e isso tem bastante valor. Mostra que o arquiteto também precisa ser propositivo e assumir um papel ativo na transformação da cidade”, afirma. A avaliação desloca o foco do prêmio do objeto arquitetônico para o processo que o originou. Em vez de esperar por uma demanda formal, Adriano identificou uma questão urbana, analisou as possibilidades daqueles espaços e apresentou uma alternativa ao poder público.
O projeto transformou os chamados “baixios” em áreas destinadas ao comércio, lazer, esporte e convivência, criando usos para locais que poderiam permanecer sem função. “Os baixios do BRT acabaram tendo um uso muito bacana, muito específico e aberto para a população, então existe também um interesse social muito forte por trás da proposta”, destaca Mungioli. Na visão do diretor da Revista Projeto, esse aspecto ganha ainda mais importância quando se observa a efetiva apropriação dos espaços pela população. “Um projeto não é nada se ele não atingir o seu objetivo final, que é o uso pela população. E, nesse caso, ele está sendo plenamente utilizado”, avalia.
A experiência de Salvador também evidencia uma discussão cada vez mais relevante para a arquitetura brasileira: como grandes obras de infraestrutura podem incorporar, desde sua concepção, espaços de convivência e usos que contribuam para a vida urbana. Viadutos, elevados e outras estruturas de mobilidade frequentemente criam áreas residuais que acabam separadas da dinâmica das cidades.
O projeto do Sotero Arquitetos parte justamente desse problema para propor uma outra possibilidade de ocupação. Para Mungioli, porém, a principal contribuição da proposta não está necessariamente em reproduzir sua solução formal em outras cidades, mas em estimular uma postura profissional. “Acredito que a principal referência esteja na própria proposição: na capacidade de identificar um problema, pensar uma solução e apresentá-la ao poder público”, explica. Essa postura também ajuda a situar o trabalho de Adriano Mascarenhas em uma trajetória mais ampla.
Segundo Mungioli, o arquiteto está entre os nomes de destaque da arquitetura nordestina e brasileira contemporânea, especialmente por uma produção que estabelece diálogo direto com o contexto urbano em que está inserida. “Eu gosto muito do trabalho do Adriano nesse viés propositivo junto ao poder público. Ele vai até o local, identifica a situação, faz uma análise, um diagnóstico e desenvolve um projeto”, afirma. Para o diretor, essa aproximação poderia ser mais frequente entre arquitetos brasileiros: “O Brasil estaria melhor se a maior parte dos arquitetos fizesse isso: buscasse o poder público e investisse tempo em tentar convencê-lo — o que não é nada fácil”.
A premiação, entregue no último dia 4 de setembro, no Memorial da América Latina, em São Paulo, diante de profissionais de diferentes regiões do país, reconhece, assim, não apenas um projeto realizado em Salvador, mas uma arquitetura que se coloca diante dos problemas concretos da cidade. Na leitura de Mungioli, essa capacidade de formular propostas e colocá-las em discussão com o poder público pode ser justamente uma das contribuições mais relevantes da arquitetura contemporânea para o futuro das cidades.