O envelhecimento da população brasileira começa a transformar também a forma como as pessoas pensam onde e como desejam morar. Segundo o Censo 2022, o Brasil possui 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em 2010, esse grupo representava 10,8%.
Atenta a essa transformação, a arquiteta Carla Macedo desenvolve o conceito de um empreendimento residencial voltado para pessoas maduras que desejam manter autonomia, rotina ativa e qualidade de vida ao longo dos anos.
A proposta parte da percepção de que existe espaço, especialmente em Salvador, para novos modelos de moradia voltados à longevidade, pensados para uma etapa da vida em que autonomia, convivência, segurança e possibilidade de suporte passam a ter novos pesos.
“Estamos chegando aos 60 ou já passamos deles com uma perspectiva muito diferente daquela das gerações anteriores. Continuamos trabalhando, viajando, fazendo planos e querendo viver bem. Ao mesmo tempo, começamos a pensar onde e como desejamos morar daqui a dez ou vinte anos”, afirma Carla.
O movimento acompanha uma tendência internacional conhecida como senior living, ainda pouco difundida no Brasil. Levantamento realizado pela Brain Inteligência Estratégica em parceria com a Caio Calfat Real Estate Consulting ouviu 453 pessoas em São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza e Salvador. O estudo apontou que 93% dos entrevistados ainda não conheciam o conceito, enquanto 37% demonstraram interesse em morar ou investir em empreendimentos desse tipo.
Arquitetura que acompanha a vida
A reflexão sobre longevidade também aparece em decisões concretas do ambiente Recepção e Bilheteria, assinado por Carla Macedo na CASACOR Bahia 2026.
Inspirado no tema Mente e Coração, o projeto combina organização, segurança e acessibilidade com acolhimento, cor e personalidade. No ambiente, diferentes tonalidades do piso ajudam a indicar intuitivamente o percurso, recurso que também favorece pessoas com menor acuidade visual. Já o corrimão de acesso foi incorporado ao desenho arquitetônico atendendo às normas de acessibilidade sem assumir aparência institucional.
“Uma morada preparada para acompanhar o envelhecimento não precisa parecer adaptada. Precisa continuar sendo morada. Projetar para a longevidade não é apenas acrescentar itens de acessibilidade, mas criar espaços que continuem funcionando bem à medida que a vida muda”, explica a arquiteta.
A experiência de Carla em projetos de saúde também contribui para essa leitura, especialmente na compreensão de aspectos como segurança, fluxos, ergonomia e acessibilidade, incorporando esse conhecimento à arquitetura residencial sem transportar para a moradia uma linguagem hospitalar ou institucional.
Entre os princípios estudados para o empreendimento estão a acessibilidade universal desde a chegada até as unidades residenciais, circulações confortáveis, pisos seguros, iluminação adequada, ergonomia, áreas verdes e espaços destinados ao movimento e ao bem-estar.
A convivência também aparece como elemento importante, sem comprometer a privacidade dos moradores. A proposta considera ainda serviços de concierge capazes de facilitar atividades do cotidiano e conectar os residentes a serviços especializados, inclusive de apoio à saúde, quando desejado ou necessário.
“O grande diferencial é oferecer suporte sem retirar autonomia. A estrutura precisa estar disponível, mas não deve organizar a vida pelo morador”, afirma Carla.
Atualmente, o projeto está na fase de desenvolvimento do conceito e prospecção de terrenos em Salvador e regiões próximas. A definição da área será determinante para o desenho do empreendimento, considerando acesso a serviços, segurança, mobilidade, integração com a cidade e presença da natureza. Paralelamente, começam as conversas com agentes do mercado imobiliário e empresas de diferentes segmentos interessados em discutir novos modelos de moradia para a longevidade.