O selo que o turismo baiano perseguia há anos chegou na terça-feira, 20 de outubro. A National Geographic divulgou a lista Best of the World 2027, que reúne 25 destinos distribuídos em cinco continentes, e incluiu Salvador entre os escolhidos. A seleção foi feita pela comunidade global de escritores e fotógrafos da publicação e privilegiou lugares marcados por grandes celebrações, roteiros recém-lançados e projetos de revitalização cultural. A capital baiana se encaixa nos três critérios.
Na justificativa assinada pelo jornalista Daniel Stables, a revista convida o leitor a participar da maior celebração da cultura afro-brasileira em uma das cidades mais históricas da América do Sul. O texto reconhece o que qualquer baiano sabe: Salvador não recebe o volume de turistas do Rio, mas está entre as cidades mais encantadoras do país. E sustenta que 2027 será o ano certo para corrigir essa distância.
Um calendário que não se repete há décadas
O motivo é um alinhamento que não acontecia havia décadas. Em fevereiro do ano que vem, o Carnaval de Salvador acontece imediatamente depois da Festa de Iemanjá, o maior festival do Candomblé, religião que funde tradições africanas e catolicismo. As duas maiores expressões da cidade vão se sobrepor em poucos dias e devem levar milhões de foliões e devotos às ruas, num dos maiores encontros da diáspora africana no planeta.
O calendário oficial, anunciado pela Prefeitura em fevereiro, confirma a sequência. O pré-Carnaval começa em 29 de janeiro, com o Pipoco de Léo Santana, antecipado justamente para não competir com a festa da orixá. Vêm o Furdunço no sábado, o Fuzuê no domingo e a Melhor Segunda-Feira do Mundo, com Xanddy Harmonia, no dia 1º de fevereiro. No dia 2, terça-feira, é Iemanjá. Na quarta, o Habeas Corpus. A abertura oficial do Carnaval está marcada para quinta-feira, 4 de fevereiro, com um dia a mais de folia em relação ao formato tradicional.
O que a revista viu no Pelourinho
A National Geographic descreve o que o visitante encontra nesse intervalo. O Carnaval, uma das maiores festas de rua do mundo, com trios de samba-reggae e axé desfilando pelo Pelourinho, conjunto arquitetônico barroco protegido pela Unesco e pintado em tons pastéis.
No Terreiro de Jesus, atletas e mestres exibem a capoeira, arte marcial que é dança e luta ao mesmo tempo. A revista chama a atenção para o fato de que a folia ocupa um território tombado, o que dá outra dimensão à experiência.
Iemanjá, o mar e as coroas de hortênsia
Na Festa de Iemanjá, devotos vestidos de branco e azul lançam ao mar coroas de rosas e hortênsias nas mesmas cores, como oferenda à deusa das águas. A reportagem trata o ritual como espetáculo público e como prática religiosa, sem reduzir um ao outro. Para quem vem de fora, é a chance de acompanhar de perto uma liturgia que estrutura a vida cultural da cidade há gerações.
Fora do circuito das festas, a publicação aponta um patrimônio em movimento. O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira acaba de incorporar ao acervo mais de 750 pinturas, xilogravuras e esculturas de artistas afro-brasileiros, parte delas repatriada dos Estados Unidos, num movimento de devolução de obras que ganha força no debate internacional sobre coleções coloniais.
A gastronomia baiana aparece como outra porta de entrada para essa herança. O acarajé, bolinho de feijão-fradinho frito no azeite de dendê e recheado com vatapá, caruru e camarão, é o ícone das ruas e também oferenda ritual no Candomblé. A revista registra que uma nova geração de restaurantes vem relendo pratos tradicionais afro-brasileiros com linguagem contemporânea. Um dos exemplos citados é o Manga, que serve o pato em três preparos, um deles sobre uma cama de penas, com inspiração direta nos alimentos rituais do Candomblé.
Salvador também entra em campo
Há ainda um terceiro motivo de ebulição para 2027. Salvador será uma das cidades-sede da Copa do Mundo Feminina, que o Brasil recebe no meio do ano, depois da Copa masculina de 2026 na América do Norte. A capital baiana entra no calendário esportivo global justamente no ano em que o país tenta capitalizar a exposição do torneio anterior.
Somados, os fatores colocam Salvador numa posição rara: a de destino que oferece, num único ano, celebração religiosa, festa de rua patrimonializada, devolução de acervo artístico e evento esportivo de escala planetária. A National Geographic não promete o melhor lugar do mundo. Promete o ano certo para ir.