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Crítica – Árvores da Paz

O massacre da população tutsi pela etnia hutu em Ruanda em 1994 é um dos maiores genocídios das últimas décadas, tendo deixado mais de um milhão de mortos. O evento já foi explorado antes pelo cinema em produções como Hotel Ruanda (2004) e é também o objeto deste Árvores da Paz, longa de estreia de Alanna Brown produzido pela Netflix.

A trama se baseia na história real de quatro mulheres que ficaram presas em um esconderijo subterrâneo durante meses, escondidas enquanto o genocídio acontecia em Ruanda. Essas mulheres tinham origens e pontos de vista diferentes, mas precisaram dialogar para sobreviverem juntas. Annick (Eliane Umihire) é uma mulher hutu em gestação avançada, ela e o marido moram na casa acima do esconderijo subterrâneo em que estão. Mutesi (Bola Koleosho) é uma mulher tutsi que passou a vida sendo considerada uma cidadã de segunda classe. Jeanette (Charmaine Bingwa) é uma freira e Peyton (Ella Cannon) é uma ativista estadunidense que estava em Ruanda como parte de um projeto social. 

Uma cartela inicial já deixa claro como esse conflito étnico é uma consequência da colonização de Ruanda, quando os Belgas colocaram os hutus e tutsis em diferentes funções dentro do país. Isso criou uma espécie de sistema de castas que acirrava as tensões entre os dois grupos, mantendo-os ocupados enfrentando uns aos outros ao invés dos colonizadores.


A trama, no entanto, se mantem praticamente todo o tempo dentro do esconderijo acompanhando as dificuldades e tensões entre as quatro protagonistas que emergem tanto da situação limite em que se encontram (logo no início elas levantam uma tábua do assoalho para usarem como latrina) como também das diferentes perspectivas de vida que cada uma tem. Com quatro pessoas de origens e intenções tão diversas, é inevitável que essas perspectivas se choquem, contribuindo para termos um panorama das relações étnicas e classe em Ruanda, ainda que esses diálogos por vezes soem muito expositivos.

A trama também explora um pouco do passado das personagens e como elas chegaram naquela situação. As atrizes são competentes em apresentar a dor e o trauma daquelas mulheres, com a câmera fixa nelas enquanto contam suas histórias, mas não deixo de pensar que o filme conta muito e mostra muito pouco. Talvez alternar as falas das personagens com imagens de flashbacks para dar mais peso e materialidade a esses eventos passados. Do jeito que está toda a maneira como a trama é contada soa muito estática e com o tempo fica redundante, já que apenas acompanhamos novos ciclos de sofrimento daquelas mulheres enquanto elas se preocupam com comida, água ou se o marido de Annick ainda está vivo para lhes trazer mantimentos.

A direção de arte faz um bom trabalho em ilustrar a passagem do tempo através do cenário, com desenhos, rabiscos e frases sendo escritos na parede do abrigo ao longo do tempo, contando a história de como a permanência naquele lugar afeta as protagonistas sem que o filme precise dizer algo explicitamente. Do mesmo modo, os figurinos trabalham para mostrar o gradual desgaste das roupas das personagens, que se degradam pelo constante uso e higiene limitada.

Ainda que peque pelo excesso de exposição e por soar redundante na exploração do sofrimento das personagens, Árvores da Paz tira sua força expressiva do quarteto de atrizes principais da importância em narrar as histórias de sobreviventes do genocídio em Ruanda.

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