Durante semanas, eu resisti a Três Graças. E não foi aquela resistência performática de quem anuncia nas redes sociais que “não vê a novela”, mas continua sabendo absolutamente tudo o que aconteceu no capítulo da noite anterior. Foi resistência real. Daquelas em que você liga a televisão, olha, reconhece a engrenagem, entende a proposta, respeita a carpintaria… e, ainda assim, não sente vontade de ficar.
No começo, a novela me pareceu excessivamente consciente. Como aquela pessoa elegantíssima numa festa que claramente sabe que está bem-vestida, mas ainda não relaxou o suficiente para se divertir. Tudo estava no lugar: a protagonista sofrida, a vilã pronta para humilhar alguém antes do intervalo comercial, os dramas familiares, a promessa de segredos, traições, revelações e acertos de contas. O problema não era a falta de competência, talvez houvesse competência demais e espontaneidade de menos.
Mas aí aconteceu aquilo que, convenhamos, talvez seja um dos fenômenos mais curiosos da televisão contemporânea: eu comecei a assistir porque a internet me perturbou, mas diferente de todas as outras reações que já vi com a relação telenovela e internet. Não havia uma torcida histérica comparável àquelas guerras digitais que transformam casais em seitas e personagens em entidades mitológicas, como vimos em outros momentos da teledramaturgia recente, como em Vale Tudo (a versão ruim, não a maravilhosa da década de 1980), em que metade do país parecia trabalhar informalmente como assessoria de imprensa.
Três Graças não teve exatamente esse tipo de frenesi. Mas havia comentários insistentes, memes a curiosidade recorrente sobre uma vilã surtando com elegância, uma protagonista que aparentemente estava carregando o peso do mundo nas costas e personagens paralelos que, aos poucos, começaram a ganhar uma vida própria. Foi assim, quase por “FOMO noveleiro” (FOMO = a sigla em inglês para Fear of Missing Out, medo de ficar de fora), que eu entrei. E preciso admitir que entrar tardiamente em uma novela às vezes oferece uma experiência curiosamente mais honesta. Você chega sem o peso da expectativa e sem a obrigação emocional de defender suas primeiras impressões equivocadas. Por isso, o que vou dizer aqui é mais sincero que as críticas pagas para falar bem e gerar buzz para a audiência.
O primeiro mérito de Três Graças foi me lembrar que Aguinaldo Silva continua entendendo profundamente um tipo muito específico de Brasil dramatúrgico em que as pessoas falam como pessoas, em que vilões não precisam de traumas explicados por flashbacks didáticos para serem interessantes. Eles simplesmente são deliciosamente problemáticos (e bote problema nisso!). E já que estamos falando de vilões, vamos a eles. Ferette e Arminda não eram apenas antagonistas, era entretenimento. Murilo Benício faz esse tipo de personagem com a naturalidade de quem parece ter nascido para manipular gente com um copo de whisky na mão e um olhar de “eu sei algo que você não sabe”. Há nele um pouco daquele prazer performático dos grandes canalhas televisivos que a gente ama odiar, uma linhagem que conversa com personagens que entenderam que vilania sem charme é apenas burocracia.
Já Arminda… ah, Arminda. Grazi Massafera encontrou aqui um território especialmente divertido porque sua personagem parecia reunir a arrogância patronal de certas vilãs clássicas, a teatralidade de quem acredita ser protagonista da própria ópera pessoal e um componente deliciosamente patético que sempre torna uma vilã mais humana e, paradoxalmente, mais cruel. Ela não era uma Nazaré Tedesco, porque Nazaré operava no campo do delírio absoluto e da iconografia pop. Também não era exatamente uma Carminha, cuja crueldade vinha acompanhada daquela energia suburbana elétrica. Arminda parecia outra espécie de criatura.
Três Graças não me pegou, mas tive um prazer quase antropológico de observar gente terrível fazendo escolhas péssimas com convicção. Isso não significa, claro, que Gerluce não tenha funcionado. Sophie Charlotte construiu uma protagonista competente, sólida, dessas mulheres que apanham da vida com regularidade industrial, mas mantêm algum tipo de dignidade operacional. Havia algo nela que conversava com a tradição das heroínas urbanas da teledramaturgia brasileira, mulheres que carregam filhos, contas, tragédias, mães adoecidas, crises existenciais e ainda encontram tempo para continuar de pé. Mas, talvez justamente aí estivesse uma das minhas pequenas resistências iniciais, pois a Gerluce me parecia correta demais para ser fascinante logo de saída.
Curiosamente, isso mudou porque a novela teve inteligência para permitir que seu universo respirasse além da protagonista. Quando personagens paralelos começam a render assunto por conta própria, a novela deixa de ser apenas trama e vira ecossistema. O casal “Loquinha”, por exemplo, surgiu sem aquele didatismo constrangedor que frequentemente transforma representatividade em cartilha dramatizada (teve até spin off de novela vertical). A história simplesmente aconteceu, encontrou público, gerou afeto e seguiu seu curso. Isso vale para outros núcleos que ganharam espessura sem parecer obrigação protocolar. Ainda assim, nem tudo funcionou com a mesma potência.
Li algumas críticas sobre a novela e concordo sobre um ponto dito em algumas delas, quando apontam certa limitação em Três Graças em não ser leve, gostosa. Faltou, de fato, uma malemolência dramatúrgica que transforma um novelão em obsessão coletiva. Faltou um pouco daquela alegria cafajeste que Aguinaldo já manejou tão bem em outros momentos. Faltou mais deboche, calor, aquela sensação de que, além de acompanhar, estamos nos divertindo. Três Graças foi boa em vários momentos, mas raramente delirante. Talvez por isso explique um fenômeno curioso: ela deu audiência, gerou repercussão, encontrou público, mas não se converteu naquele tipo de acontecimento movido por torcidas organizadas, como se cada capítulo fosse final de campeonato.
Talvez porque a televisão tenha mudado. Talvez porque o comportamento das audiências seja outro. Ou talvez porque certas novelas inflam paixões e outras oferecem companhia consistente. Afinal, nem todo amor precisa ser histérico. Aproveitei e perguntei a um grande amigo noveleiro sobre o que ele achou desse novelão. Ele me respondeu: “Foi uma novela organizada, que dignificou a trajetória da Globo após Vale Tudo, mas ainda não era uma grande novela. No geral, primou pela coerência, pela qualidade do texto e pelo respeito ao intelecto do público. A Globo tentou vender a ideia de que a novela foi mania nacional, e chegou a forçar a barra com uma estranha turnê musical. Mas, Três Graças é apenas uma novela ‘ok’”.
E sabe de uma coisa? Talvez ele tenha razão. Mas digo isso sem qualquer crueldade, porque existe um preconceito curioso contra o “ok”, como se tudo precisasse ser fenômeno, evento histórico ou pauta obrigatória de grupo de WhatsApp com teorias mirabolantes sobre troca de bebês, gêmeos secretos e personagens que claramente não morreram porque ninguém morre de verdade em novela.
Nem toda trama será Avenida Brasil, nem toda vilã vai virar fantasia de Carnaval, nem todo casal vai mobilizar mutirões emocionais nas redes sociais como se dependesse disso a estabilidade da República. Às vezes, a novela apenas cumpre bem seu papel: entra na sala, faz companhia, entrega bons personagens, algumas cenas memoráveis, um punhado de absurdos muito bem-vindos e segue seu caminho com dignidade. E está tudo bem.
Bons noveleiros se reconhecem na capacidade de amar os fenômenos, mas também de respeitar honestamente aquela novela que talvez não tenha mudado a história da televisão brasileira, mas que esteve ali, firme, toda noite, fazendo aquilo que novela sabe fazer como ninguém. E convenhamos, uma novela “ok” ainda é infinitamente melhor do que muita coisa que insiste em se vender como imperdível.