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Crítica – Jungle Cruise

Mesmo depois do fracasso de Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível (2015), a Disney continua a tentar reproduzir o sucesso da franquia Piratas do Caribe fazendo outros filmes baseados nas atrações de seus parques, desta vez se baseando em Jungle Cruise, que está disponível no Disney Plus. Aqui eles seguem mais próximos o modelo dos piratas, com uma aventura com cara de matinê de antigamente, ameaças sobrenaturais e artefatos místicos.

A trama se passa durante a Primeira Guerra Mundial, com a britânica Lily (Emily Blunt) decidindo partir em uma expedição para a Amazônia na esperança de encontrar uma lendária árvore cujas pétalas curam qualquer coisa. Chegando na cidade de Porto Velho ela contrata o barqueiro Frank (Dwayne “The Rock” Johnson) para levá-la através do rio. Ela, no entanto, não está sozinha na busca, já que o príncipe alemão Joachim (Jesse Plemons) também está atrás da árvore para usar seu poder como vantagem na guerra e também o espírito do colonizador Aguirre (Edgar Ramirez) busca os segredos da floresta.

O filme tem todo um clima despretensioso de aventura e romance que remete a produções como Tudo Por uma Esmeralda (1984) e A Joia do Nilo (1985), com essa leveza ajudando a dar uma certa autoconsciência em relação à natureza formulaica da narrativa que facilita que embarquemos na aventura. Claro, esse senso de humor, leveza e romance é também construído pelas ótimas interações entre Blunt e The Rock que criam personagens carismáticos mesmo presos aos clichês do “casal que se detesta, mas se ama”. Durante a divulgação do filme a Disney fez questão de pontuar como os dois protagonistas se tornaram grandes amigos durante as filmagens e essa cumplicidade é visível na tela.

Lily, inclusive, é a heroína de fato do filme, com Frank sendo mais um parceiro ou auxiliar do que o sujeito que salva a garota. A narrativa, aliás, nunca resume Lily a uma donzela em perigo, mostrando a personagem como uma mulher engenhosa e perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. Por outro lado, o texto derrapa na construção do irmão de Lily, MacGregor (Jack Whitehall), que deve ser o milésimo “primeiro personagem gay” da Disney.

Durante toda a trama MacGregor é ridicularizado por seus modos e condutas afeminadas, reduzido a um alívio cômico como se o fato dele não se adequar a certos padrões de “masculinidade” o tornassem inferior e só é tratado como igual pelos outros personagens quando decide lutar durante o clímax. Ou seja, é apenas quando ele deixa de lado seus modos afeminados e se conforma com certos padrões do que é “ser homem” que se torna digno de respeito, algo muito distante de um discurso inclusivo.

Era de se imaginar que uma trama na qual os personagens passam boa parte do tempo em um único espaço (o barco) fosse soar arrastada ou repetitiva, mas o diretor Jaume Collet-Serra, experiente em tramas confinadas a poucos espaços como Sem Escalas (2014), Águas Rasas (2016) ou O Passageiro (2018), consegue manter ritmo e a sensação de movimento e urgência. A condução das cenas de ação como as perseguições de barco ou correrias na selva tem energia e criatividade o bastante para compensar pela computação gráfica que em muitos momentos soa pouco convincente e deixa transparecer que os atores estão diante de um fundo verde.

Jesse Plemons diverte ao devorar o cenário como o exagerado nobre alemão. É o tipo de vilão que sente prazer em ser maligno e Plemons aproveita essa característica ao máximo. Já Edgar Ramirez consegue trazer uma presença ameaçadora a Aguirre, no entanto a ideia do espectro da colonização assombrando a Amazônia, algo que poderia render um subtexto interessante ao falar do impacto persistente da violência colonial, nunca é explorada de maneira a ter algo consistente a dizer. Na verdade, o texto ainda traz em si um ranço colonialista de apresentar a América do Sul como um espaço selvagem, perigoso, violento e primitivo que precisa ser cuidado e civilizado pelos inteligentes e audazes heróis da Europa e Estados Unidos.

Mesmo com esses problemas, Jungle Cruise é carismático o suficiente para divertir graças à sua mescla despretensiosa de aventura e romance.

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