O corpo virou uma fonte permanente de dados. Relógios inteligentes, pulseiras, sensores e aplicativos coletam diariamente informações como frequência cardíaca, sono, atividade física, localização e padrões de comportamento, um universo de possibilidades para o autocuidado e para a evolução da saúde digital. Mas, em meio a tanto avanço, uma pergunta se impõe: quem controla tudo o que esses dispositivos sabem sobre nós?
A privacidade de dados na saúde digital está no centro desse debate. Para Gabriel Ferreira, advogado associado do Ruy Andrade Advocacia, especialista em compliance e operações de privacidade, professor e palestrante, a mudança é profunda. “O dado de saúde deixou de ser produzido apenas dentro de hospitais, clínicas e laboratórios. Agora, ele é gerado continuamente pelo próprio indivíduo, muitas vezes sem que exista uma percepção clara sobre a quantidade, a natureza e o destino dessas informações”, afirma.
A discussão se aproxima do conceito de capitalismo de vigilância, formulado pela professora de Harvard Shoshana Zuboff, no qual experiências humanas são transformadas em dados capazes de gerar previsões sobre comportamentos. Na saúde, porém, a questão ganha uma dimensão ainda mais sensível. “Uma informação sobre frequência cardíaca, sono, glicemia, localização ou padrões comportamentais pode revelar muito mais sobre uma pessoa do que ela própria imagina”, explica Gabriel.
Há ainda a falsa sensação de segurança criada pela anonimização. A combinação de diferentes bases pode permitir a reconstrução de padrões e até a identificação de indivíduos. Com o avanço da inteligência artificial, o volume de dados amplia também a capacidade de produzir previsões e recomendações personalizadas. Para Gabriel, o debate precisa ir além do que a tecnologia é capaz de fazer. “Na saúde, capacidade tecnológica e legitimidade para utilizar uma informação são coisas diferentes.”
O desafio, segundo ele, será fazer inovação e privacidade avançarem juntas. “Talvez a principal pergunta da saúde digital não seja apenas quanto conseguimos medir, mas quem pode acessar aquilo que medimos, para qual finalidade e sob quais limites.”