Pedro Almodóvar é um cineasta que está acostumado a colocar sua vida em suas belas obras cinematográficas. E, após dois anos de Quarto ao Lado, filme todo rodado em inglês, ele retorna para seu idioma nativo, o espanhol, com Natal Amargo, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 28.
A trama acompanha a história de dois cineastas, em um verdadeiro exercício de metalinguagem para o espectador. Em uma história, em 2004, temos Elsa (Bárbara Lennie), que abandonou o cinema após seu filme virar cult e se dedica à publicidade, e luto em meio à morte da mãe, enxaquecas, crises de ansiedade e um namorado stripper. Na outra, de 2025, acompanhamos Raúl (Leonardo Sbaraglia) um cineasta de renome, que só pensa em seu ofício, relegando até seu relacionamento, e tenta escrever um roteiro para colocá-lo de volta no mercado, e é a história que citei anteriormente, de Elsa, utilizando as histórias pessoais da assistente Mônica (Victoria Luengo).
Longe de ser novidade na filmografia de Almodóvar (basta vermos A Lei do Desejo (1987), Má Educação (2004) e Dor e Glória (2019)), a novidade aqui é colocar a figura que inspira, no caso, Mônica, tendo voz e mostrando o quanto o cineasta – Almodóvar e seu alter ego Raúl – só pensam em si mesmos.
E temos um autêntico filme Almodovariano: tecnicamente é brilhante, com suas cores, seus cenários que encantam, seu diálogos cortantes – onde sobra farpas até para a Netflix e para o próprio diretor “Você já fez seus melhores filmes, vamos aproveitar a vida” – e personagens intensos. Mas, desta vez, o resultado dessa mistura soa monótono. Sem dúvida, é o filme mais morno de Almodóvar.
Tem filmes que o final nem importa muito, já que toda a trajetória é o que encanta. Aqui, não temos nem uma coisa, nem outra. As alterações de tempo e personagens requerem uma atenção redobrada do espectador – e a edição, com o texto passando como se fosse o cineasta digitando o roteiro, ajuda. Mesmo assim, é entediante acompanhar as duas histórias, em que pese algum momento bom aqui ou ali, muito pouco para o que a gente espera do cineasta espanhol.
Natal Amargo era prometido pelo cineasta ser um dos seus filmes em que seria mais cruel consigo mesmo, mas essa promessa ficou perdida na sala do roteiro, quem sabe em um tratamento que não foi o que chegou às telas
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