As barracas de festa de largo sempre foram mais do que estruturas provisórias montadas para celebrar os santos do calendário baiano. Elas formaram cenários, criaram identidades e ajudaram a construir a memória afetiva de gerações. É esse universo que o livro ‘Saudade daquelas Barracas – Longing for those Lovely Stalls’ , de Dimitri Ganzelevitch, revisita ao reunir histórias, reflexões e imagens sobre um dos símbolos mais marcantes da cultura popular de Salvador. O lançamento acontece no próximo dia 25 de março, às 17h, na Aliança Francesa.
Francês radicado na capital baiana desde 1975, Ganzelevitch acompanha há cinco décadas as transformações das festas de largo. No livro, ele relembra a efervescência das celebrações nos anos 1970, 1980 e 1990 período em que abriu uma galeria no Mercado Modelo e passou a observar de perto o impacto cultural e econômico dessas festas. “Pouco após a minha instalação no Mercado Modelo, comecei a me interessar pelas festas de largo. Havia uma efervescência prazerosa na montagem das barracas, uma criatividade que tomava conta da cidade”, recorda o autor.
Entre memórias e análises, ele destaca a criatividade estética das antigas barracas, que possuíam nomes próprios, fachadas elaboradas e forte vínculo afetivo com seus proprietários. “Com o tempo, as coisas mudam. Têm mesmo que mudar. Mas não para pior”, afirma. Barracas como No Embalo, Carinhoso, Sultão das Matas, Iracema, Senhor dos Navegantes, Minha Vidinha, Top Model e Espigão tornaram-se parte da paisagem simbólica da cidade. “Elas tinham orgulho da própria identidade. Havia uma relação afetiva dos barraqueiros com aqueles espaços”, completa.
A obra também aborda o processo de padronização iniciado nas décadas seguintes, que alterou o visual das festas e, segundo o autor, contribuiu para a perda de identidade desses espaços. “As barracas perderam sua beleza e a tradição que carregavam. Salvador perdeu uma parte de sua alma”, pontua. O livro propõe ainda uma reflexão sobre pertencimento, tradição e os impactos da mercantilização e da publicidade excessiva na paisagem cultural do verão soteropolitano. “O mercantilismo irresponsável e a poluição visual estão canibalizando aquilo que fez dessas festas um patrimônio cultural”, observa.
Dimitri Ganzelevitch amplia o debate ao reunir contribuições do antropólogo Ordep Serra, do arquiteto Wesley Pontes e da cordelista Gildete Virgins, oferecendo diferentes olhares sobre o fenômeno das festas de largo, sob as perspectivas social, urbana e simbólica. O registro visual da publicação inclui fotografias de Marcel Gautherot (Instituto Moreira Salles), Voltaire Fraga (MAB), Pierre Verger (Fundação Pierre Verger), Louis Tardy, Maria-Helena Pereira da Silva, Valéria Simões, Lúcia Guanaes, Isabel Gouvêa, Ameris Paolini, Márcio Lima e três ilustrações de Carybé, compondo um mosaico de imagens que atravessam décadas de celebrações populares. A programação visual é assinada por Maria Helena Pereira da Silva.




















