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Crítica – O Presidente Surdo

O documentário é capaz de resgatar eventos que não ficaram na memória coletiva, nos abrir a realidades que não conhecíamos. O Presidente Surdo , produção da AppleTV+, faz exatamente isso ao contar a história de uma mobilização estudantil da universidade Gallaudet na década de oitenta.

O som do silêncio

O filme acompanha eventos ocorridos em 1988 na Universidade Gallaudet, a primeira universidade dedicada à educação de pessoas surdas criada nos Estados Unidos ainda no século XIX. Os estudantes estavam mobilizados pela eleição de um presidente que fosse surdo, mas quando o conselho gestor da universidade aponta uma presidente que não é surda e se mostra insensível às demandas e questões do corpo discente, os estudantes se organizam para exigir mudanças.


Recorrendo a imagens de arquivo e a entrevistas com as lideranças estudantis da época, o filme tenta recriar a agitação e efervescência do período com uma montagem ágil, que dá a impressão do movimento constante dos estudantes mobilizados. Como os entrevistados são surdos, eles se comunicam em linguagem de sinais que é traduzida por intérpretes falantes e não sei se é a melhor escolha de como tornar essa linguagem acessível a quem não a domina. Fico me perguntando se talvez não fosse melhor recorrer apenas a legendas e não a vozes, já que isso daria um clima mais próximo do que é se comunicar com pessoas surdas.

A ausência de som, no entanto, é um recurso que o filme usa durante as imagens de arquivo, como na cena do discurso da nova presidente aos estudantes. Insistindo em falar ao invés de usar língua de sinais, a escolha de tirar o som da cena revela o descompasso da conduta dela com os alunos que deveria dialogar. É uma cena que revela como essa gestão queria que os surdos se adequassem a ela ao invés de se adequar aos surdos e um exemplo de como o filme poderia explorar mais essa imersão no universo sensorial dos surdos, mas nem sempre o faz.

O que é inclusão?

Nesse sentido, o filme usa essa mobilização para discutir a natureza da educação inclusiva e como durante muito tempo o discurso sobre educação para surdos tinha um cunho paternalista, tratando os surdos como inferiores e incapazes, e como o que se construía como inclusão era relativamente problemático. O documentário resgata a história do pioneirismo de Alexander Graham Bell (inventor do telefone) na educação de surdos e como, na verdade, sua técnica era violenta, tentando forçar os surdos a aprenderem a falar (inclusive rejeitando o uso de língua de sinais), obrigando-os a se conformar com o resto da sociedade, ao invés de lhes dar ferramentas para navegar pelo mundo em seus termos.

A manifestação dos estudantes em 88 acaba sendo narrada como inevitável revolta contra esse modelo de educação feito por pessoas ouvintes e imposto aos surdos sem realmente pensar em suas demandas ou necessidades. Ao acompanhar a história do movimento, o filme pondera sobre a importância da mobilização organizada conforme o movimento elege lideranças, porta-vozes, uma lista bem específica de demandas, se organizando para negociar suas exigências. É um lembrete de que qualquer movimento social precisa ser bem estruturado para ser capaz de ganhar visibilidade e construir um discurso coeso para ganhar apoio de outros setores da sociedade, ganhando força para fazer suas demandas serem ouvidas. A narrativa de O Presidente Surdo é carregada de energia e esperança ao nos mostrar como grupos minoritários podem se fazer ouvir e transformarem as coisas em seu favor.

O Presidente Surdo
7 /10
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