Literatura

Ambientalista e escultor Frans Kracjberg ganha biografia

Nascido na Polônia e sobrevivente do Holocausto, o artista fez da arte sua trincheira na luta pela conservação ambiental

Foto | Camila Maia - Divulgação

Lançada em coedição pelas Edições Sesc São Paulo e pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp)Frans Krajcberg: a natureza como cultura,é resultado da “encomenda” que o escultor, pintor, fotógrafo e ativista ambiental Frans Krajcberg (1921-2017) fez ao ativista, amigo e colaborador João Meirelles, em 1985. Quase 40 anos após o pedido e muita pesquisa, finalmente a biografia de Krajcberg vem a público. Com fotos exclusivas e depoimentos inéditos, o livro apresenta a vida e a obra deste que é considerado um dos maiores artistas plásticos do século 20, nascido na Polônia em uma família judaica e naturalizado brasileiro.

Krajcberg e seu futuro biógrafo se conheceram em 1984 na casa do artista Sepp Baendereck. No ano seguinte, a ‘encomenda’ foi feita no sítio Natura, em Nova Viçosa (BA), onde o artista vivia. Um profundo trabalho de pesquisa remonta à infância e à adolescência, à experiência-limite nos campos de concentração nazistas e conta como Krajcberg redescobriu a vida ao se estabelecer no Brasil, fazendo da denúncia da destruição do meio ambiente o grande tema de sua arte.

Frans Krajcberg é considerado um dos maiores artistas plásticos de seu tempo. Como escultor, fotógrafo e pintor, acumulou centenas de prêmios, participou de mais de 200 exposições coletivas e 92 individuais, sendo presença constante nas Bienais de São Paulo e no circuito de arte nacional e internacional. Ao final da vida, doou seu acervo pessoal de obras e objetos, bem como seu sítio em Nova Viçosa, ao Governo do Estado da Bahia, responsável por seu legado.

Destaca-se também, na Nota dos Editores contida no livro, a extensa pesquisa, com “registros documentais, seus diários de campos e entrevistas com pessoas próximas a Krajcberg”, e o fato de que Meirelles “conseguiu manter o distanciamento emocional necessário para produzir uma obra equilibrada, sem julgamentos nem louvores infundados”. Krajcberg, nascido em uma comunidade judaica na Polônia, tinha 18 anos quando as tropas nazistas invadiram o país, dando início à 2ª Guerra Mundial, “idade suficiente para que os horrores da guerra e do Holocausto ficassem impressos em sua alma”. Escravizado em um campo de trabalhos forçados, conseguiu escapar e lutou ao lado do Exército Popular da Polônia, ligado à União Soviética, para derrotar os nazistas.

O grito de Krajcberg contra as queimadas

A maioria de seus familiares próximos (com exceção de uma irmã) foram mortos nos campos de concentração. Em 1948, Krajcberg emigrou para o Brasil, onde foi acolhido pela família de um tio.  Não conseguiu sossegar. “Os traumas da juventude o fizeram desgostar da convivência com as pessoas”. Junto à natureza, “se sentia mais verdadeiro, mais inteiro”. Viajou por todo o Brasil e se apaixonou pela natureza dos diversos biomas brasileiros, das araucárias do Paraná à Mata Atlântica e os campos de Minas Gerais. Ao se deparar com as queimadas na viagem a Juruena, no Mato Grosso, “as árvores calcinadas devem ter evocado memórias de guerra em Krajcberg, que começou a gritar, e continuou gritando até o mundo escutar sua voz contra as queimadas e a devastação, pela proteção aos biomas brasileiros”.

Meirelles, na Introdução, relembra a primeira viagem que fez com Frans, de Nova Viçosa a Juruena, um percurso de 3 mil quilômetros. Ali, a Floresta Amazônica começava a ser destruída pelas queimadas para a criação de gado. O biógrafo relata uma experiência definidora de sua vida – acompanhar Krajcberg em meio à floresta ardente: “Naquela manhã de calor, ele finalmente decidiu vencer o ciclope de uma grande queimada. Estancou a camionete e saiu correndo em direção às chamas. O fogo consumia os troncos, que choravam e chiavam, exaustos… Frans, revoltado, discursou para as grandes castanheiras que testemunhavam tudo, em pé, desoladas de dor. Gritava, gritava até enrouquecer”.

O biógrafo lembra que a história em comum dele com o biografado pode ser dividida em três tempos. De 1984 a 1988, uma intensa convivência, “tão relevante para forjar minha carreira como ativista ambiental”. Depois, um “longo hiato de quase duas décadas”. O terceiro momento vai de 2011, quando Frans comemorou 90 anos, até sua morte, em 2017. “A biografia foi escrita principalmente neste último período, e seguiu até o presente momento”, conta Meirelles.

O intenso trabalho de pesquisa sobre o artista

No texto de orelha da edição, Jacques Marcovitch, ex-reitor e professor emérito da Universidade de São Paulo, conta que o autor teve dificuldades ao confrontar as informações prestadas em vida, pelo biografado, com os dados documentais da pesquisa. Marcovitch considera que, para Meirelles, intelectual experiente, não deve ter sido novidade o comportamento mitômano do artista, “cuja sensibilidade manifestava-se de forma tão criativa que, às vezes, atropelava a verdade”. Ele ressalta “a corajosa honestidade intelectual do biógrafo ao comentar informações que lhe foram passadas por Krajcberg e que checagens posteriores não confirmaram”.

No prefácio, Jacques Leenhardt, diretor de pesquisas da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), Paris, afirma que a biografia é “sustentada por um enorme trabalho de documentação, mas também por uma longa amizade e convivência com o artista”, e que em geral esses dois tipos de fontes “não dão uma boa liga”. Porém, para Leenhardt, o autor não teve essa dificuldade. “Ele lida com os testemunhos mais críticos com a mesma naturalidade e simplicidade com que lida com os mais elogiosos”.

Leenhardt afirma que, desde que começou a se afastar do ofício convencional de artista para abraçar sua vocação de testemunha de acusação no grande processo contra a destruição da floresta, Krajcberg buscou uma linguagem plástica adequada à vocação de manifesto que atribuía a sua obra. “Diante das imensas queimadas de Juruena, Krajcberg compreendeu que elas ofereciam o que ele procurava: a vegetação queimada fundia a mensagem da qual ele se sentia investido com o objeto que transmitiria essa mensagem aos outros. Poderíamos dizer que ele encontrou na madeira carbonizada um símbolo icônico: a coalescência do objeto-suporte com a consciência ecológica”.

Além dos 34 capítulos que compõem um quadro completo dos 96 anos de vida de Krajcberg, de sua obra e evolução artística, e de seu ativismo ambiental, esta edição traz 32 páginas coloridas com obras selecionadas e um anexo com manifestos do artista, além de cerca de 50 imagens de arquivo em preto e branco que retratam o artista e sua história.

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