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Crítica – Sugar

Foto | Reprodução

Uma trama detetivesca evocando os noir das décadas de 40 e 50 protagonizada por um investigador particular excêntrico e cinéfilo parecia uma proposta curiosa por si só para me atrair a Sugar, série protagonizada por Colin Farrell e produzida pela AppleTV. O que eu não imaginava era a guinada maluca que a série tomaria em seu sexto episódio, ressignificando tudo que vimos antes. Como é praticamente impossível falar sobre a série sem mencionar suas principais reviravoltas, aviso que o texto contém SPOILERS. 

O detetive particular John Sugar (Colin Farrell) atua na cidade de Los Angeles e trabalha exclusivamente encontrando pessoas desaparecidas. Ele é contratado pelo lendário diretor de cinema Jonathan Siegel (James Cromwell) para encontrar Olivia (Sydney Chandler), neta do diretor que está desaparecida há algum tempo. O contato com o cliente acontece por fora da agenciadora habitual de Sugar, Ruby (Kirby, que fez a Morte e Sandman), que não aprova o novo cliente. Ruby e Sugar parecem partilhar um passado misterioso e ambos exibem habilidades e conhecimentos muito além do que se esperaria de investigadores no ramo deles. 


Ao curso da investigação, Sugar descobre que o filho de Jonathan, Bernie (Dennis Boutsikaris), um diretor menos talentoso e que vive à sombra do pai, parece estar acobertando atividades do filho David (Nate Corddry), meio-irmão de Olivia. É uma estrutura bem típica do noir no qual o detetive, ao puxar o fio de um crime, encontra um emaranhado de outras tramas criminais que se misturam ao ponto de ficar tudo confuso como é o caso de filmes tipo O Falcão Maltês (1941) e À Beira do Abismo (1946). Uma narrativa que mostra como a cidade está mergulhada no caos e na corrupção e apenas um detetive com um código de conduta bastante particular consegue navegar e sobreviver nessas ruas perigosas.

Sugar é de fato um personagem peculiar. Cinéfilo inveterado, Sugar tem uma predileção pelo noir e por filmes feitos nos anos 40 e 50, citando-os constantemente. A influência desses filmes se faz perceber também em seus monólogos nos quais ele fala (ou narra) com um fatalismo similar a detetives como Sam Spade ou Philip Marlowe embora Sugar mantenha um relativo grau de esperança. Como detetives do noir Sugar tem um código de conduta bastante particular, aceitando apenas casos que envolvam pessoas desaparecidas e abominando o uso de violência. Apesar de sempre apelar a seus interlocutores de não querer violência e demostrar certa repulsa a esse tipo de conduta, Sugar acaba recorrendo a ela quando se sente genuinamente em perigo e nesses momentos age com extrema brutalidade contra seus inimigos. É o tipo de coisa que nos faz pensar que ele pode ser um ex-militar traumatizado e que sua rede de contatos altamente qualificada provavelmente são antigos companheiros de farda. 

Seguindo a tradição do noir em que o mundo é corrupto e ninguém está acima de suspeita, a progressão da trama também aponta para o envolvimento desses aliados com a rede de crimes ao redor do sumiço de Olivia, o que ressalta a ideia de Sugar como um sujeito lutando sozinho contra um sistema corrupto e a importância de um código de honra para navegar por esses ambientes corrompidos. A principal revelação, porém, vem no sexto e antepenúltimo episódio e, mais uma vez, ressalto que irei comentar essa guinada que muda tudo na série, então se você quer evitar ter essa mudança estragada, essa é a última chance de parar de ler. SPOILERS a seguir.

No sexto episódio Sugar se fere gravemente ao confrontar Stallings (Eric Lange), chefe de uma quadrilha de tráfico de pessoas que parece estar envolvido com o sumiço de Olivia. Com suspeita do envolvimento de Ruby, ele pede ajuda ao amigo Henry (Jason Butler Harner), que lhe presta socorro. Ao final descobrimos que Sugar, Henry e toda sua rede de aliados são, na verdade, alienígenas. Se antes pensávamos estar diante de um neo noir, a revelação nos joga diretamente no terreno da ficção científica, algo que nunca foi indicado em nenhum material de divulgação da série. É algo que muda tudo e que muitos podem rechaçar de imediato já que vai num caminho totalmente oposto ao que se esperava de uma trama detetivesca como Sugar se apresentava. A guinada, embora radical, não é gratuita se prestarmos atenção e desde o primeiro episódio a série já apresentava pistas. 

Nos primeiros episódios vemos Sugar usar uma estranha seringa no pescoço. De início pensamos ser algum vício em drogas, algo comum nesse tipo de personagem, mas depois entendemos o que ela realmente. A fala dele para Melanie (Amy Ryan) sobre ter um metabolismo tão rápido para processar álcool que não consegue ficar bêbado parece inicialmente apenas uma peculiaridade, mas já era um indicativo de sua fisiologia não humana. A linguagem distante de suas narrações, usando expressões tipo “esse lugar” ou “essas pessoas”, remete ao niilismo típico do noir, mas também já evidencia, através da linguagem escolhida por Sugar, seu não pertencimento ao nosso mundo. A capacidade dele imediatamente detectar quando alguém está mentindo parece se dever a sua argúcia como investigador, mas, em retrospecto, pode ser alguma habilidade de sua espécie. 

No sexto episódio, antes da revelação, fica ainda mais evidente que há algo diferente com Sugar quando ele aparentemente desvia (ou deflete) uma bala usando apenas o braço ou quando Henry chega com uma bolsa de sangue que parece esquisita demais para ser sangue humano. A própria cinefilia do personagem e sua predileção por filmes de outrora se conecta com a ideia dele ser um alienígena querendo estudar e entender a humanidade, já que os noir são repletos de uma complexidade moral que mostra os vários extremos da experiência humana, de como podemos ser sórdidos e de como podemos navegar em meio a tudo isso com alguma medida de honra. Na verdade, o motivo da reviravolta nos pegar tão de surpresa é justamente pelo modo como a trama usa nossas expectativas contra nós. Vemos as pistas não pelo que elas querem comunicar, mas pelo que acreditamos serem elementos que confiram que estamos diante de um noir típico. 

Mesmo com a presença de alienígenas, a trama não deixa de ser um noir que pondera sobre a condição humana e a nossa capacidade de (talvez teimosamente) enfrentar a corrupção que nos circula. O fato dos personagens serem criaturas extraterrestres tentando nos estudar só deixa ainda mais evidente o embate moral no cerne do noir simbolizado pelo antagonismo final entre Sugar e Henry. Se um consegue manter a honra e a esperança diante de um mundo em que praticamente ninguém é inocente (mesmo o benevolente Jonathan Siegel esconde um segredo digno do filme Chinatown), Henry vê a humanidade pelo seu pior, abraçando a crueldade e a violência como aquilo que nos define.

Com uma reviravolta que vai dividir opiniões, a série Sugar é um envolvente neo noir que usa seu protagonista excêntrico e cinéfilo para ponderar sobre a moralidade humana.

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