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Crítica – Grandes Hits

É curioso como as vezes cineastas diferentes chegam em ideias similares num mesmo período de tempo. Esse ano, com semanas de diferença, tivemos dois filmes sobre pessoas viajando no tempo com o poder da música. Aqui no Brasil tivemos Evidências do Amor enquanto que o cinema hollywoodiano produziu este Grandes Hits, que parte de uma premissa relativamente similar, ainda que faça coisas diferentes com ela.

Na trama, Harriet (Lucy Boynton) lida com a perda do namorado, Max (David Corenswet, que vai ser o próximo Superman), em um acidente de carro dois anos atrás. Por conta de um ferimento que sofreu na cabeça no acidente em que Max morreu ela consegue voltar no tempo toda vez que ouve alguma música que lhe remete a algum momento importante com o namorado. Ao mesmo tempo, Harriet conhece David (Justin H. Min) no grupo de terapia de luto que frequenta. Eles se aproximam, mas ela tem dificuldade de se permitir viver algo com ele porque cada música que ouve a transporta para seu passado com Max.

É uma narrativa sobre o poder da música e como ela pode nos fazer sentir como éramos em um momento específico de nossas vidas, transportando nossa memória ao passado, aqui encarado de forma literal. A seleção das canções usadas contribui para um clima de nostalgia, evocando uma memória do início dos anos 2000 através de músicas como I’m Like a Bird de Nelly Furtado ou Unwritten de  Natasha Bedingfield, sendo a segunda comédia romântica em questão de meses a usar essa canção, que também apareceu de modo proeminente em Todos Menos Você (2023). É também sobre luto e a dificuldade de reconstruir a vida ao lado de outra pessoa quando as memórias do passado ainda se impõem no nosso presente independente de nossa vontade.

A narrativa é eficiente em nos fazer entender o peso que a perda de Max na vida de Harriet, bem como a maneira com a qual sua incomum habilidade é para ela uma faca de dois gumes. De um lado permite a ela passar um pouco mais tempo com o namorado, revivendo esses momentos. Por outro, o fato dela não controlar essas viagens e como isso a faz querer recorrer a esse passado sempre que ela se sente mal significa que ela não consegue viver plenamente no presente.

São temas complexos que nem sempre recebem a devida nuance nos breves noventa minutos de duração, embora isso não impeça a produção de nos envolver na insólita jornada de Harriet ou de nos emocionarmos com ela, principalmente quando uma escolha difícil, mas necessária se impõe a ela próximo ao fim.  Assim, Grandes Hits é um romance competente que nos lembra do poder afetivo que a música carrega, ainda que fique na superfície de suas ideias complicadas

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