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Crítica – Spree

De certa maneira, Spree não chega a falar nada sobre nossa relação pouco saudável com as redes sociais que já não tenha sido tido antes. Ainda assim, a produção dirigida por Eugene Kotlyarenko (que chegou no Brasil via HBO Max) consegue envolver por sua mistura entre suspense e sátira social.

A trama segue Kurt (Joe Keery), um jovem que há uma década tenta emplacar como digital influencer, mas não consegue ter mais do que uma dúzia de seguidores. Desesperado por atenção, Kurt decide por um insano experimento social no qual ele resolve matar os passageiros do aplicativo para o qual dirige, transmitindo tudo ao vivo pelas redes sociais. Em um dado momento, Kurt pega uma comediante de sucesso, Jessie (Sasheer Zamata), e se torna obcecado em interagir com ela.

O filme é todo contado através dessas câmeras que Kurt instala em seu carro, além de outras câmeras de celulares e outros dispositivos. Eventualmente o filme acaba se tornando refém desse formato de found footage, com as pessoas continuando a filmar mesmo em situações que seria implausível que alguém continuasse a se preocupar em filmar com o celular ao invés da própria sobrevivência.


O texto também depende de uma série de conveniências para manter a trama funcionando ou nosso interesse em Kurt. Um exemplo é o fato de todos os passageiros que ele pega durante os primeiros minutos serem pessoas desprezíveis tipo um supremacista branco ou um misógino. Com isso fica fácil não sentir imediata repulsa pelo personagem, já que ele está matando pessoas horríveis, o que soa como um expediente covarde para tentar suavizar a loucura do protagonista. Não que a trama tente relativizar a futilidade de Kurt, já que ao final é bem evidente que ele um sujeito instável, homicida e desesperado por atenção, mas fazer todas as suas vítimas iniciais serem o pior, o filme parece querer que aceitemos o que Kurt faz.

De todo modo, mesmo quando o roteiro depende de coincidências ou eventos convenientemente acontecendo ao redor do personagem, é o trabalho de Joe Keery, o tempo todo diante da câmera, que sustenta a narrativa. Keery consegue evocar o desespero por atenção, a instabilidade e a dissonância cognitiva entre o modo como Kurt age e o modo como o personagem se vê. É um sujeito que poderia descambar para uma caricatura, mas o trabalho de Keery torna Kurt um indivíduo crível. Kurt é alguém que acredita ser especial simplesmente por postar conteúdo em redes sociais e que por isso deveria ser visto e admirado, como ele não consegue o que quer, age de maneira mais desesperada e violento.

O protagonista parece não ver diferença entre interações no mundo virtual e no mundo real, se comportando como se estivesse o tempo todo em uma rede social e analisando as pessoas a sua volta por esses critérios de likes e seguidores, algo evidente na cena em que ele comenta sobre como mendigos não se importam em não obterem visibilidade online. A jornada de Kurt e Jessie serve para mostrar como a “realidade” ou o “cotidiano” divulgado por influencers é tão construído, tão falso, que já não conseguimos mais discernir vida real de encenação, como o simulacro de vida que exibimos nas redes se estende para nossas ações no mundo real.

Isso é transmitido com muita clareza pelas cenas finais, que mostram manchetes e fóruns de discussão repercutindo as ações dos personagens. É um sinistro lembrete da sociedade do espetáculo na qual vivemos, onde tudo, nossos medos, preocupações ou demandas políticas, são reduzidas a produtos comunicacionais a serem consumidos para aumentar nossa indignação, mas que em nada transformam a sociedade. No fim, tudo é reduzido a possibilidades de ganho financeiro ou de visibilidade online.

Mesmo quando a narrativa se apoia em conveniências de roteiro, Spree ainda assim consegue funcionar como uma ponderação sombria sobre a sociedade do espetáculo na qual vivemos, sustentado principalmente pela performance de Joe Keery.

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