A presença de próteses de silicone nas mamas ainda gera dúvidas entre mulheres que desejam realizar cirurgias estéticas ou que já possuem implantes. A principal preocupação é a possível relação entre o silicone e o câncer de mama, além dos efeitos das próteses na identificação de nódulos e na realização de exames preventivos, como mamografia e ultrassonografia.
A resposta curta: as evidências científicas disponíveis não identificaram associação entre implantes mamários de silicone e o aumento do risco do câncer de mama convencional. O FDA, agência reguladora norte-americana, também afirma não ter detectado essa relação. Isso, no entanto, não significa que as próteses sejam isentas de riscos.
Prótese de silicone e câncer de mama: o que dizem as evidências
Existem doenças raras associadas aos implantes que merecem atenção. A mais conhecida é o linfoma anaplásico de grandes células associado a implantes mamários, identificado pela sigla BIA-ALCL.
“A doença não é um câncer do tecido mamário, mas um tipo de linfoma que pode se desenvolver na cápsula de tecido cicatricial ou no líquido ao redor da prótese. O risco é maior em implantes com superfície texturizada”, explica a médica Carolina Argolo (CRM/BA 14197 – RQE 6465), coordenadora de Mastologia do Hospital Mater Dei, idealizadora do projeto Seio que Cuido e cofundadora do Instituto Elas.
Revisões sistemáticas já publicadas estimam esse risco em menos de 3 casos por mil pacientes com implantes texturizados, proporção considerada baixa, mas que justifica acompanhamento. Vale registrar que parte da literatura mais recente ainda debate o papel exato da textura da superfície na origem do BIA-ALCL.
Prótese provoca ou esconde nódulos?
De acordo com a mastologista Carolina Argolo, a presença do implante não significa que a mulher desenvolverá nódulos, nem impede o aparecimento de alterações mamárias.
Nódulos podem ter diferentes causas, desde cistos e fibroadenomas, geralmente benignos, até tumores malignos. Por isso, qualquer alteração nova deve ser investigada, independentemente de a mulher ter ou não prótese.
“Além disso, implantes podem estar associados a complicações próprias, como contratura capsular, que ocorre quando o tecido cicatricial formado ao redor da prótese se torna mais rígido e a comprime. Em situações menos frequentes, podem surgir alterações que exigem investigação específica, incluindo acúmulo persistente de líquido, inchaço, dor ou uma massa próxima ao implante”, esclarece.
Sinais que exigem avaliação médica
A especialista destaca que o surgimento de inchaço persistente, assimetria recente, dor ou nódulo na região da prótese, especialmente anos após a cirurgia, deve motivar avaliação médica. Esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas não devem ser ignorados.
Mamografia com implante: por que a técnica de Eklund importa
Mulheres com próteses mamárias devem manter os exames de rastreamento recomendados para sua faixa etária e seu perfil de risco. A mamografia continua sendo um dos principais métodos para detectar precocemente o câncer de mama.
O implante, porém, pode dificultar a visualização de parte do tecido mamário, porque o silicone aparece na imagem e pode encobrir estruturas localizadas atrás da prótese.
Para reduzir essa limitação, o profissional de radiologia pode realizar incidências adicionais, conhecidas como manobras ou incidências de Eklund, nas quais a prótese é deslocada em direção à parede torácica para permitir melhor visualização do tecido mamário.
É importante informar ao serviço de imagem sobre a presença dos implantes antes do exame, para que a equipe adote a técnica adequada.
“A prótese de silicone não impede a realização da mamografia, mas pode dificultar a visualização de parte do tecido mamário. Por esse motivo, é importante informar à equipe de radiologia sobre a presença do implante, para que sejam realizadas as incidências adequadas”, ressaltou Carolina Argolo.
Ultrassonografia e outros exames no rastreamento
A ultrassonografia também pode ser utilizada para investigar nódulos, avaliar alterações próximas à prótese e complementar a avaliação clínica ou mamográfica quando houver indicação.
A escolha entre os métodos depende da idade, dos sintomas, da densidade mamária, do histórico familiar e dos achados clínicos. Em situações específicas, outros exames, como a ressonância magnética, podem ser indicados.
Implantes não são para a vida inteira
Outro ponto importante ressaltado pela mastologista é que os implantes não são dispositivos para a vida inteira. Com o passar dos anos, podem ocorrer rupturas, contratura capsular e outras complicações que demandem acompanhamento ou novas intervenções.
“A necessidade de monitoramento da integridade da prótese deve ser discutida com o cirurgião responsável. A recomendação é que mulheres com implantes mantenham o acompanhamento regular”, completa.