A temática do herói sendo engolido por monstros é um dos mais antigos da humanidade. Temos Jonas, no Antigo Testamento, temos Pinóquio, ambos engolidos por baleias para se transformarem após sair do animal e, agora, temos Jay, no longa Dentro da Baleia, que chega aos cinemas nesta quinta-feira.
Na trama, o jovem Jay (Austin Abrams) perdeu o pai, que se matou, há um ano. Mitt (Josh Brolin) se lançou ao mar para morrer fazendo o que mais gostava, mergulhando. Quando Jay retorna ao local, ele decide mergulhar para encontrar o corpo do pai (isso mesmo, depois de um ano). Nessa jornada, ele é engolido por uma baleia e, no estômago do animal, tem oxigênio para apenas 1 hora.
Dirigido e escrito por Brian Duffield, baseado no livro de Daniel Kraus, a trama utiliza a metáfora do jovem dentro de um “monstro” para falar da difícil relação entre pai e filho. A partir do momento que ele passa por essa morte simbólica, volta transformado – igual a Pinóquio, que deixa de ser egoísta quando é engolido pela baleia e reencontra o seu “pai” Gepetto, que já estava vivendo dentro do cetáceo por dois anos. E que nem Jonas, que foi engolido por um grande peixe como consequência de fugir da própria missão.
Em Dentro da Baleia, acompanhamos quase 1h50 de um jovem tentando se livrar de dentro da baleia, e ainda dividindo o espaço com uma lula gigante e uma água viva. É um filme claustrofóbico, com a câmera nos colocando dentro daqueles cubículos que são as entranhas do animal. Enquanto que, em Pinóquio, o ventre da baleia é onde pai e filho se reencontram; em Dentro da Baleia, Jay desce sozinho e o “reencontro” acontece só nos flashbacks. A baleia virou o espaço do luto.
E, nesses flashback, acompanhamos o pai irascível (em excelente atuação de Josh Brolin) como se fosse um “coitado” de ser daquele jeito porque não se enxergava como um pai, tinha dificuldades de ter um filho, sendo que, ao que parece, Jay era o “favorito” dele, porque nada de vermos a relação do pai com as outras duas filhas ou a esposa (interpretada pela desperdiçada Elisabeth Shue).
Após o monólogo necessário para entendermos a urgência dele de sair dali – afinal, quantas pessoas vão saber ler o registro de oxigênio de um cilindro para saber quantos minutos faltam para acabar o ar? – lá no terceiro ato Jay encontra com quem conversar: o próprio pai, que parece ter incorporado na baleia, e as conversas deles servem como uma espécie de Deus ex Machina do filme. E, assim, fica quase desenhado para o público que aquele cetáceo é, simbolicamente, o pai de Jay.
Dentro da Baleia aposta tudo em uma metáfora que o próprio filme não sabe resolver. A baleia de Jonas salvava, apesar do herói; a de Pinóquio abrigava a redenção. A de Duffield só aprisiona o espectador e o roteiro. Engolido por uma baleia, o espectador sai pelo mesmo caminho do personagem: aliviado por ter terminado, não transformado por ter assistido.
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