Dados do Ministério da Saúde apontam que doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil – estima-se que cerca de 400 mil óbitos ocorram por ano em decorrência de problemas do gênero, sobretudo por infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Nesse contexto, um estudo desenvolvido por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), avaliou a influência da idade e do sexo na mortalidade de pacientes admitidos com diagnóstico de infarto agudo do miocárdio (IAM) em hospitais da rede pública de Curitiba.
Os pesquisadores acompanharam cerca de 5 mil pacientes hospitalizados por infarto no Sistema Único de Saúde (SUS), em Curitiba, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2015. A mortalidade total da amostra foi de 29,5%. Os resultados revelaram que mulheres na meia-idade (entre 45 e 54,9 anos) apresentam risco significativamente maior de mortalidade após um infarto em comparação com homens da mesma faixa etária, independentemente do histórico médico prévio. A análise ainda mostrou que uma proporção maior de mulheres apresentou infarto em idades mais avançadas – dado já observado em outros estudos.
De modo geral, a idade mais elevada no momento do infarto é um fator determinante para o prognóstico, com exceção do grupo de mulheres de meia-idade. “Persistem disparidades de gênero que afetam particularmente as mulheres. Em geral, elas sofrem infarto em idade mais avançada e na presença de mais comorbidades – a idade média das mulheres no momento do IAM foi aproximadamente cinco anos superior à dos homens (65,1 para eles e 60,3 para elas). No entanto, há o que chamamos de paradoxo de gênero, pois esse grupo da meia-idade tende a apresentar menos fatores de risco que, em tese, estariam associados a um melhor prognóstico na população geral”, explica José Rocha Faria Neto, médico cardiologista, coordenador do PPGCS da PUCPR e um dos autores do estudo.
Os dados indicam ainda que mulheres no início da meia-idade configuram um subgrupo de alta vulnerabilidade, que demanda atenção específica do sistema de saúde. “Esses achados representam um importante alerta para a necessidade de abordagens clínicas diferenciadas e direcionadas a esse grupo. No Brasil, especialmente no sistema público de saúde, ainda há escassez de dados sobre o tema. A redução dessas disparidades entre os sexos exige investimento em educação médica continuada, maior compreensão das barreiras ao tratamento adequado e intervenções voltadas aos determinantes sociais da saúde”, destaca Faria Neto.
Segundo os pesquisadores, essa maior vulnerabilidade pode estar associada a características hormonais próprias do sexo feminino – uma vez que o período em questão coincide com a perimenopausa e o início da menopausa -, bem como a fatores vasculares e psicossociais. Somam-se a isso a presença de sintomas atípicos (como fadiga extrema, náuseas e dor na mandíbula), o subdiagnóstico, o subtratamento e a falta de acompanhamento adequado.