No sábado, 7 de fevereiro, o Pré-Carnaval do Santo Antônio Além do Carmo, com seus 15 blocos autorizados, atinge um dos seus pontos mais altos com a saída do De Hoje a Oito (DHJA8). Criado em 2011 e hoje um dos desfiles mais aguardados do bairro, o bloco representa mais do que um momento de festa: é a síntese de um Carnaval sem cordas, sem patrão e profundamente enraizado na memória cultural e na vida comunitária do Centro Histórico de Salvador. A concentração começa pela manhã, às 9 horas, no Largo do Santo Antônio.
Desde cedo o bairro se transforma. Fantasias autorais, bateria afiada e uma multidão diversa anunciam a chegada do DHJA8, que, ano após ano, reafirma sua vocação de ocupar a rua como espaço de criação, encontro e resistência. Em 2026, o tema escolhido é “Samba Reggae”, celebrando um dos ritmos mais marcantes e transformadores da cultura baiana.
Mas a folia momesca no bairro começa antes do De Hoje a Oito. Já na quinta-feira, dia 5, tem a saída do Venha Vê e do Urso da Meia Noite. No dia seguinte, 6, é a vez do Ki Beleza, 15 Mistérios, Luzes da Ribalta e Não Largo do Santo Antônio. A festa se estende nos dias seguintes ao DHJA8, com os blocos Baba de Saia dos Klhordas, MSC – Movimento Sem Corda, Noviças e Pão na Chapa, todos no domingo, dia 8. O Pré-Carnaval retorna na quarta-feira, 11, com o Gravata Doida, segue pela quinta-feira, 12, com o Rolinha Preguiçosa e se encerra na sugestiva sexta-feira 13 com o Rivo-Trio e o Bloco Rodante, pioneiro do movimento carnavalesco mais recente do Santo Antônio e que em 2026 completa 18 anos.
Um Carnaval independente, autogerido e voltado para os moradores
Com o crescimento do público ao longo dos anos e por sua característica de liberdade e resistência, o bloco precisou adaptar sua estrutura sem renunciar a seus princípios, firmando parcerias com os poderes públicos e construindo recomendações com o Ministério Público, que impede o aumento do número de agremiações e a chegada de blocos com fins comerciais e “estrangeiros” ao bairro.
O cuidado com o Santo Antônio Além do Carmo sempre foi parte central dessa construção e os representantes dos blocos que fazem parte da extensa programação da folia dialogam com moradores, informam previamente horários e trajetos, instalam banheiros químicos, articulam limpeza pós-desfile e promovem campanhas de conscientização entre os foliões, incentivando o descarte correto de resíduos, o não uso de garrafas de vidro e o respeito aos espaços e às pessoas que vivem no território.
Autônomo e autogerido, o De Hoje a Oito não recebe cachês nem verbas milionárias. Sua produção é artesanal, sustentada por contribuições voluntárias e pelo trabalho coletivo de arrecadação de recursos. A tradicional ausência de cordas deu lugar a uma solução simbólica: a “cobra”, uma proteção que envolve apenas a bateria, garantindo segurança para os músicos sem impedir que o público acompanhe livremente o desfile. “Não é corda, não é segregação. É cuidado”, definem os integrantes.
“Não por acaso, o DHJA8 foi um dos impulsionadores da criação da Associação de Blocos do Santo Antônio (Absanto), iniciativa que fortaleceu a organização comunitária do Carnaval no bairro e ajudou a proteger o território de interesses externos e da descaracterização da festa”, afirma Adriano Marques, integrante da bateria do bloco e secretário da Absanto.
Para ele, quando o De Hoje a Oito entra em cena, o Santo Antônio Além do Carmo vive algo que vai além do desfile: vive a apoteose de um Carnaval possível, coletivo e afetivo, que olha para o passado para reinventar o presente e insistir no futuro e, como diz o próprio bloco desde o primeiro samba, não há patrão; só povo, música e rua.
O Pré-Carnaval do Santo Antônio Além do Carmo conta com o patrocínio do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura do Estado (Secult-BA), via Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur).