O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, anuncia a maior repatriação de obras de arte já realizada no Brasil. Ao todo, 666 obras de artistas afro-brasileiros, que integravam uma coleção privada formada por duas estadunidenses ao longo de mais de 30 anos, passam a compor o acervo do museu, em um gesto histórico de restituição, reparação simbólica e fortalecimento da memória cultural negra no país.
A repatriação representa um marco sem precedentes para o campo das artes visuais, da museologia e da cultura brasileira, ao reverter o fluxo histórico de saída, apagamento e dispersão de obras produzidas por artistas negros, muitas vezes excluídos dos circuitos institucionais, do mercado e da historiografia oficial da arte.
O conjunto retorna ao Brasil por meio da doação do acervo Con/vida, coleção organizada pelas norte-americanas Bárbara Cervenka, artista plástica, e Marion Jackson, historiadora da arte, que dedicaram décadas à salvaguarda da produção artística afro-brasileira. Entre os artistas presentes no acervo estão nomes fundamentais da produção afro-brasileira, como J. Cunha, Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, , Sol Bahia, Manoel Bonfim, entre muitos outros, abrangendo diferentes gerações, territórios e linguagens artísticas.
Composta por pinturas, esculturas, fotografias, xilogravuras, arte sacra, gravuras, estampas e outras tipologias, a coleção revela a riqueza estética, simbólica e política das produções afro-brasileiras, evidenciando narrativas, técnicas e imaginários historicamente marginalizados pelas instituições culturais hegemônicas.
As obras chegaram a Salvador no dia 12 de janeiro, após um complexo processo logístico internacional, que envolveu embalagem especializada, adequação às normas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte técnico especializado, que contou com o suporte da Alfândega da Receita Federal em Salvador. Desde então, o acervo vem sendo incorporado ao MUNCAB, onde passa por procedimentos técnicos de museologia, como laudagem, conservação preventiva e salvaguarda.
O MUNCAB avança na estruturação de sua reserva técnica para incorporar um novo e significativo conjunto de obras ao acervo, em um processo que envolve procedimentos museológicos essenciais, da documentação e do diagnóstico do estado de conservação ao acondicionamento adequado das peças, conforme padrões técnicos de preservação de bens culturais.
A iniciativa, fundamental para garantir que o acervo esteja protegido, organizado e disponível para pesquisa e futuras narrativas curatoriais, conta com patrocínio do Ministério da Cultura (MinC) e da Petrobras, por meio do Fundo Nacional da Cultura e da Lei de Incentivo à Cultura, viabilizando a adequação da infraestrutura do museu e a implementação do processo museológico necessário para a incorporação definitiva do conjunto, fortalecendo o papel do MUNCAB na preservação e difusão da memória e das produções culturais afro-brasileiras.
A ação também tem parceria da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador (Secult Salvador) e prevê, em suas próximas etapas, programas de formação artística, ações educativas e estratégias de difusão pública do acervo, ampliando o acesso da sociedade a esse patrimônio.
Mais do que a restituição física de obras de arte, a repatriação reafirma o compromisso do MUNCAB e dessas instituições públicas parceiras com uma museologia contracolonial, que compreende os museus como espaços de memória ativa, justiça simbólica e transformação social. Ao acolher esse acervo, o museu consolida seu papel como referência nacional e internacional na preservação da arte afro-brasileira e afro-diaspórica, contribuindo para o enfrentamento das hierarquias históricas que inviabilizaram a produção artística negra no Brasil.
Mantido pela Petrobras, o MUNCAB contou, para a concretização da repatriação, com o suporte do Instituto Ibirapitanga, que viabilizou recursos prévios fundamentais para a operação internacional de retorno das obras ao país.




















