Guardião da memória indígena e afro-brasileira no Carnaval de Salvador, o Bloco Apáxes do Tororó retorna às ruas no domingo de Carnaval de 2026, pelo Circuito Osmar (Campo Grande), com um desfile que é mais que celebração: é um ato de resistência cultural, política e comunitária. Com o tema “Carlinhos Brown – A Volta do Rei de Oyó à ‘Tribo Americana’ Apáxes do Tororó”, o bloco reafirma sua missão histórica ao mesmo tempo em que projeta novos futuros possíveis para o carnaval de base, ancestral e popular.
Após enfrentar, nos últimos anos, o risco real de não desfilar — reflexo direto da falta de políticas públicas, do esvaziamento de recursos para blocos tradicionais e das desigualdades estruturais que atingem manifestações culturais periféricas — o Apáxes encontra em Carlinhos Brown um aliado estratégico e simbólico para reavivar os antigos carnavais, fortalecer sua presença e ampliar seu alcance social. O apoio do artista marca um momento de retomada, reposicionando o bloco como potência viva da cultura soteropolitana.
Encontro entre raiz e futuro
A união entre Carlinhos Brown e o Apáxes do Tororó articula duas forças complementares. De um lado, a trajetória de Brown, marcada pela pesquisa identitária, pela estética da confluência, pela inovação sonora e pela linguagem urbana conectada ao mundo. De outro, o Apáxes, bloco de tradição comunitária, resistência histórica e identidade territorial profunda. Juntos, constroem uma plataforma que ultrapassa a noção de espetáculo e se afirma como espaço de diálogo entre ancestralidade e contemporaneidade, entre quem sempre viveu o bloco e quem está sendo convidado a entrar agora.
Esse encontro amplia públicos, democratiza acessos e gera impacto cultural profundo, alcançando jovens urbanos, ativistas culturais, comunidades tradicionais e setores da sociedade historicamente afastados dos blocos de base. O projeto 2026 se afirma como uma intervenção cultural com força simbólica, política e social.
História, resistência e legado
Criado em 1968, o Apáxes do Tororó atravessou quase seis décadas enfrentando perseguições policiais, racismo institucional, silenciamentos e invisibilizações estatais. Mesmo assim, manteve-se como símbolo da afirmação indígena, cabocla e negra no Carnaval de Salvador. Foi pioneiro ao desfilar com trio elétrico próprio adaptado à sua estética, ao criar serviço de bar em trios, e ao inserir profissionais de segurança e enfermagem no circuito, contribuindo decisivamente para a modernização do carnaval como hoje é conhecido.
Na década de 1990, Carlinhos Brown teve papel fundamental na revitalização do bloco, inclusive sugerindo a mudança da grafia para “Apáxes” com X, em referência direta ao axé e às línguas originárias, fortalecendo o conceito simbólico e identitário do grupo. Em 2026, essa história se reencontra na avenida em forma de ritual, reverência e celebração.
O desfile de 2026
Com percussão, canto, dança e estética ritualística, o desfile contará com a participação especial de coletivos indígenas das etnias Kiriri, Xukuru-Kariri, Kariri-Xocó e Tupinambá, além de figurinos inspirados nas indumentárias cerimoniais dos povos de Abya Yala (Américas) e nas referências da realeza africana de Oyó. O Circuito Osmar se transformará em território de memória, celebração e resistência, onde passado, presente e futuro caminham juntos.




















