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Crítica – Reality

O título desse Reality, produção que chegou ao Brasil via Mubi, parece fazer um jogo duplo. Primeiramente ele parece se referir à sua protagonista, a tradutora Reality Winner (Sydney Sweeney), alvo de uma operação do FBI. Em uma segunda análise, pode também se referir à realidade de sua história, baseada em eventos reais e o compromisso do filme em aderir ao realismo da história que conta. Adaptando a própria peça de teatro Is This a Room? a diretora Tina Satter constrói todo o filme em tempo real reproduzindo os diálogos a partir das gravações que o FBI fez durante todo o interrogatório de Reality.

A trama é foca em Reality Winner, uma tradutora de persa que trabalha para uma empresa que presta serviços à NSA. Um dia, chegando em casa, ela encontra agentes do FBI esperando por ela. De início ela pensa se tratar de alguma checagem de rotina considerando a natureza confidencial de seu trabalho na NSA e necessidade de atualizar suas credenciais de segurança. Conforme os dois agentes que lideram a operação começam a fazer perguntas, a tradutora se dá conta de que o propósito do FBI em sua residência é bem mais severo.


O filme tem um ritmo bem deliberado conforme segue a gravação da operação real do FBI, aos poucos escalando a tensão conforme passamos de diálogos casuais, conforme Reality e os agentes jogam conversa fora como se nada demais estivesse acontecendo, para uma fervura lenta das tensões a partir do momento que as autoridades passam a fazer perguntas insistentes sobre Reality ter quebrado os protocolos de segurança de sua função e vazado documentos sigilosos.

A produção adere ao realismo não só na fidelidade da reprodução das falas, com cortes constantes para a gravação e imagens de documentos demonstrando que são reproduções fieis do que aconteceu, como na própria estética que adere a um realismo fotográfico e sonoro. É o tipo de produção que considera aproximação do real como uma virtude em si mesma, como se a mimese da realidade na ficção imediatamente se prestasse a um bom drama, ignorando que a realidade opera de um modo completamente diferente da ficção e que uma transcrição literal de uma situação real não necessariamente rende um bom drama.

Apesar de a história ser interessante, durante a primeira metade do filme fiquei me perguntando se não teria sido melhor fazer um documentário já que o interesse da diretora parece ser simplesmente aderir aos fatos do que aconteceu no interrogatório de Reality e não o de realizar um estudo de personagem ou comentar sobre o estado de paranoia e manipulação da realidade durante o governo Trump.

Em cena durante todo o filme, Sydney Sweeney consegue nos manter investidos em Reality mesmo quando o filme não parece ter muito a dizer sobre ela. A atriz ilustra bem a transição gradual da tranquilidade inicial de Reality para um constante senso de pavor até chegar no ápice de um desespero contido conforme ela percebe que não há escapatória e eles tem tudo que precisam para prendê-la. Ao final, ela está tão destruída que apenas tenta aparentar algum senso de normalidade ao pedir para ligar para alguém vir pegar seus animais de estimação.

Ao longo do interrogatório vemos as nuances de sua expressão de modificarem conforme ela sente que evadiu bem de uma pergunta ou que deu um detalhe que não deveria. Isso fica evidente no momento em que ela menciona que o documento mencionado pelos agentes estava dobrado no meio, uma especificidade que eles não mencionaram e que a incrimina. É possível ver o rosto de Sweeney se transformar por um brevíssimo momento após ela dar esse detalhe, uma expressão de menos de um segundo onde ela demonstra imediato arrependimento pelo que acabou de dizer e uma pontada de pânico por perceber que seu destino acabou de ser selado.

As coisas só ficam mais interessantes a partir da segunda metade quando Reality se dá conta da real intenção dos agentes e da ação pela qual eles querem incriminá-la. A partir daí o filme abandona o realismo imagético e passa a trabalhar para nos colocar na mente da personagem. Uma câmera cada vez mais fechada na protagonista amplia o senso de opressão que ela sente e que as chances de sair daquela situação são cada vez menores. A iluminação passa a recorrer a momentos com luzes intensas vindas de fora das janelas e reflexos turvados nas lentes para dar essa impressão de que todos os holofotes estão em Reality e que não há escapatória.

De maneira semelhante, o filme remove todo o som quando chega em alguma fala que foi suprimida da gravação e transcrição do interrogatório, fazendo o personagem que supostamente teria dito a fala sumir brevemente da imagem e reaparecendo depois que passa o trecho suprimido. Esses recursos parecem utilizados justamente para explicitar a manipulação da realidade de todo o processo e como a gravação do interrogatório, que deveria exibir a transparência das autoridades, é na verdade bastante opaco. A maneira abrupta com a qual som e imagem são removidos reflete a violência desse apagamento dos registros que não nos deixa com muito mais do que especulações.

O trecho final também usa melhor imagens do mundo real para tentar ilustrar os pontos de vista do filme e da realizadora quanto aos eventos. Com imagens de arquivo discutindo a maneira problemática com a qual o portal The Intercept lidou com os documentos vazados por Reality a respeito da interferência russa nas eleições de 2016 nos EUA, criticando o site por ter facilitado que as autoridades localizassem a sua fonte. Imagens da Fox News mostram como a máquina de propaganda reacionária da emissora ficaram muito mais focadas em pintar Reality como traidora da pátria do que comentar a denúncia bem real (da própria inteligência do país) de que os russos tentaram interferir nas eleições em prol de Trump. Inclusive a fala de Reality de que os escritórios da NSA tinham televisores ligadas na Fox News o tempo todo mostra como a administração federal queria que seus funcionários só tivessem acesso a conteúdos favoráveis ao presidente.

Essas observações acabam, porém, vindo muito tarde e de maneira muito breve. Jogando sem muita contundência essas discussões na tela. Talvez se o filme não passasse sua primeira metade tão preso a um mimetismo da realidade que tinha tão pouco a comentar sobre os eventos, essas discussões pudessem ser feitas de modo mais consistente. Desta maneira, Reality traz uma denúncia importante a respeito de como os EUA trataram uma delatora que quis levar a público uma informação que o Estado quis ocultar. Ancorada por uma performance intensa de Sydney Sweeney, a produção é prejudicada pela insistência em se limitar a reproduzir o conteúdo do depoimento da protagonista em documentos oficiais.

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