Quem ainda aguenta filmes de super-heróis? Fora os fãs mais ardorosos, imagino que poucas pessoas ainda se deem ao trabalho de ficar acompanhando sagas de super-heróis que se arrastam por 20 filmes. Mas, eis que, em um mar aparentemente tranquilo de se navegar pela Marvel, a produtora tenha fugido um pouco do padrão de seus filmes até então lançados e nos traz “Eternos”, o filme que abre as portas – pelo menos no cinema – para a Fase 4 da Marvel e é uma belíssima surpresa. O longa estreia oficialmente nesta quinta-feira, 4, mas já pode ser visto em pré-estreias abertas para o público neste Dia de Finados.
“Eternos” conta a história dos… Eternos, seres – ou Deuses – que chegaram à Terra após ele ser construído por Arishem. A missão deles é proteger o planeta dos Deviantes. Eles conseguem, até que… os Deviantes voltam a aparecer nos dias atuais, revelando que o propósito deles não era o que imaginavam. Ah, mas tem um porém: eles são terminantemente proibidos de atuar em conflitos humanos – e a explicação do porquê eles não apareceram nas grandes guerras mundiais ou para ajudar os Vingadores contra Thanos convecem. Eles só devem proteger o planeta dos Deviantes.
A grosso modo, os Eternos são a Liga da Justiça da Marvel. São Sersi (Gemma Chan), Ikaris (Richard Madden), Thena (Angelina Jolie), Ajak (Salma Hayek), Dane Whitman (Kit Harington), Kingo (Kumail Nanjiani), Duende (Lia McHugh), Phastos (Brian Tyree Henry), Makkari (Laure Ridloff), Druig (Barry Keoghan) e Gilgames (Ma Dong-Seok) que se reúnem para salvar os humanos.
O Ikaris, por exemplo, é praticamente o Super-Homem – e é divertido que até um personagem faz uma brincadeira com isso, o que torna interessante na medida que o famoso super-herói pertence à DC, rival da Marvel. Tem até cenas parecidas a outros filmes, como ele voando no espaço, parando e admirando a Terra. O nome também rende a brincadeira de que o personagem grego Ícaro foi baseado nele, graças às histórias inventadas por Duende (Lia McHugh) ao longo dos séculos – lembrem-se, os personagens são imortais e não envelhecem (o que gera um outro conflito com a própria Duende, que é uma adolescente e gostaria de envelhecer para viver como os humanos.)
O filme permeia questões filosóficos que são muito bem-vindas, ainda mais no mundo em que estamos vivendo. Mas todas são abordadas de forma pertinente, sem soar gratuitas ou chatas. E aí é que surge um dos pontos mais interessantes da história: devemos seguir a fé cegamente, mesmo que isso custe a dor de outras pessoas? Além disso é um filme de camadas. Temos aqui um super-herói que é homossexual e tem uma família a quem deve proteger. Outro que é uma estrela de Bollywood (e rende as melhores piadas) e deve abandonar a longa carreira de séculos, outra tem deficiência auditiva… ou seja, é uma diversidade muito bem-vinda (e que vai fazer os malas de plantão falarem besteiras por preconceito).
O excesso de heróis é algo que prejudica – um pouco – o desenrolar da trama. Como são dez, até eles se unirem, tem muitas cenas de negação da aventura, para logo depois aceitarem participar da empreitada. Isso soa um pouco repetitivo, além de que, a cada novo personagem introduzido, vemos algo que eles se intrometeram ao longo dos séculos para ajudar os humanos de alguma forma. Mas, como os personagens são cativantes e cheios de camadas, dá para aguentar – o filme tem 2h40, mas que passam rápido.
A direção de Chloé Zhao é segura e mostra que ela é altamente capaz de segurar um blockbuster após “Nomadland”, um excelente filme de baixo orçamento, com uma proposta completamente diferente, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Direção. Talvez esse olhar humano dela, que também roteirizou o filme ao lado de Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo, seja o ponto alto do longa e dá um novo frescor aos filmes da Marvel.
Os protagonistas convencem como super-heróis. E Angelina Jolie e Salma Hayek estreiam muito bem em filmes de super-heróis. Todos têm seus conflitos e o tempo de tela deixa todos terem seus momentos de brilho. O que peca um pouco no longa é a fotografia. As cenas são muito escuras e em alguns momentos, principalmente nas brigas entre os Deviantes e os Eternos, não dá para entender muito o que está acontecendo na tela.
“Eternos” é um filme padrão Marvel com o olhar mais humano entre todos que já foram feitos anteriormente. É um longa que pode ser visto por quem nunca viu nenhum filme de super-herói e poderá se surpreender como até esses filmes, muitas vezes deixados de lado por quem não é fã, podem trazer um conteúdo pertinente e que aborda questões humanas.
Ah, o filme tem duas cenas pós-créditos interessantes, mas apenas quem conhece a história dos personagens vai pular da cadeira. Quem nunca viu nada, vai continuar sem entender (e vai ter que recorrer aos famosos vídeos do Youtube com as chamadas “cenas pós-créditos do filme “X” EXPLICADAS).
